A guerra dos mundos

Sandro Morais

Antes da missa da manhã deste Domingo, várias árvores tombadas pelo vento e dezenas de horas consecutivas de reportagem televisiva, com o depoimento em directo de inúmeros especialistas em ventanias e chuva verdadeiramente torrencial e molhada, caindo do céu aos trambolhões como canivetes, repórteres entrevistando as ondas do mar, o monstro de Loch Ness e duas ou três telhas voando do cimo das casas como pássaros insanos, fizeram de Leslie, esse mortífero cataclismo tropical, o mais eloquente retrato de um país sitiado, não pelo Outono, que na Terra já não há estações, mas pela mais pungente e dolorosa imbecilidade, jamais vista, aliás, neste cruel mundo de Deus.

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Depois do «Deixai vir a mim as criancinhas»…

…Hoje ouvi: «Tomé não acreditava e Cristo disse-lhe «toca-me, apalpa-me, enfia aqui o dedo!»* Este mundo está perdido!
* Padre Vidinha, da paróquia de Rio Tinto, na homilia da missa das 19h.

Para a história da liturgia salazarista

A 28 de Abril de 1998 um tal  Núcleo de Estudos Oliveira Salazar iniciava a recuperação da memória do ditador promovendo em Lisboa e Coimbra “missas” em sua homenagem. No caso de Coimbra a lata foi ao ponto de utilizar a Sé Velha, em tempos Praça Vermelha, no coração da Alta. Não lhes correu bem. Terão conseguido a publicidade que pretendiam, mas a manifestação política à conta da Igreja foi um fracasso. Aqui ficam duas reportagens televisivas exibidas na altura.

Além de o vídeo servir para algum pessoal descobrir que já foi mais novo, tem a utilidade de lembrar que o processo de branqueamento de Salazar foi longo, culminando no onde estamos hoje, em que a sua emulação tem sido progressivamente governamentalizada (e não me refiro só ao actual governo).

Pão e vinho

Lembrei-me de escrever este artigo, a propósito da “missa do galo”.

Sou membro da igreja católica, baptizado, comungado e crismado por opção própria, coisa que nem qualquer católico se pode gabar.

Embora nunca tenha sido muito dado a missas – porque raro é o padre que consegue cativar a minha atenção com o seu discurso -, o certo é que tenho desde há muito um complicado sentimento contraditório quanto aos rituais da missa.

Por um lado aprecio o modo cuidadoso com os padres tratam das questões de “menage”. O modo como limpam o cálice do vinho e o prato da hóstia no fim de cada comunhão cuidando das migalhas e do asseio dos utensílios.

É, sem dúvida, um bom exemplo até mesmo para os homens casados e que, estou certo, as mulheres apreciam.

Por outro lado, quanto aos modos como se realiza a comunhão, acho, com o devido respeito, que não são os melhores. Entendo mesmo que violam o princípio da igualdade apregoado pelo ideal cristão, e acaba por ser um entrave á participação de mais gente nas missas e á concretização de uma das mais importantes missões da Igreja, além da evangelização.

Primeiro porque só o padre bebe, o que acho mal pois a hóstia não se pega só no céu-da-boca dos padres, mas sim de toda a gente. Além de que o vinho é produto nacional e há todo o interesse em promover o seu consumo, desde que com moderação.

Em segundo lugar, porque a distribuição daquela película que é a hóstia, não satisfaz o paladar e muito menos o estômago. Obviamente que a hóstia tem um valor simbólico, e deverá ser encarada numa perspectiva litúrgica. Mas se Cristo dividiu pão, deveria ser o pão, e não aquela coisa que se cola na boca, e, pior, nas próteses dentárias dos crentes.

Pão e vinho, sempre com moderação, deveriam ser os elementos da comunhão. Porque essa é a raiz histórica, e essa é uma das missões maiores do cristianismo: matar a sede e a fome ao próximo.