Vivemos uma não-era

Vivemos actualmente numa contradição. Chegamos a um ponto na História, além do próprio fim da História. Dizem alguns filósofos e pensadores que o sistema actual é o fim da dualidade (ou pluralidade) de potências no Mundo. Que a hegemonia do mundo ocidental, baseado neste coisa estranha e incompreensível que é o capital, através das suas aplicações capitalistas (e imperialistas) “gere” o Mundo. Da melhor, e aparentemente, única forma possível. Com guerras, corrupção, agressão, dor, sofrimento… Assim o dizem os neo-liberais ou lá o que são que se consideram. Melhor do que isto não há. É um sistema com alguns defeitos, que vão ser corrigidos em breve, e portanto melhor que isto não há. Não é verdade. Porquê? Porque chegamos a este ponto extraordinário na História em que conseguimos ver a contradições fazerem sentido. Começamos a perceber que a direita e esquerda são iguais. Que o comunismo e o capitalismo são as duas faces da mesma coisa, o lucro. Que não existe anarquismo, neo-liberalismo e todos os outros “ismos”, apenas a aplicação abstracta do poder, na administração dos recursos naturais. Percebemos que anarquistas e neo-liberais lutam e agridem-se, porque ambos não querem a entidade “Estado”. Percebemos que homens sem escrúpulos oprimem outros por mero prazer do exercício de poder. Percebemos que os extremos se tocam. Chegamos a um ponto em que um quadro em branco é arte. Chegamos a um ponto em que tudo é arte. Chegamos a um ponto em que percebemos que um ponto insignificante de nada dá origem ao Universo. Chegamos a um ponto em que temos de ter fé na Ciência. Chegamos a um ponto em que o dinheiro não existe. Chegamos a um ponto em que Deus está morto ou nem chegou sequer a existir. Chegamos a um ponto que entendemos que que o nada é tudo. E que o tudo é nada. E chegamos ao ponto derradeiro de perceber até, que o limite máximo da ganância humana é o limite da sustentabilidade do Planeta. Deste último ponto ainda não tenho tanta certeza.
Já nem é uma questão de anti-imperialismo, de anti-capitalismo, de anti-globalização ou de outro anti-qualquer coisa. Essa guerra já foi perdida. É uma questão muito mais complexa que assenta num argumento fundamental quer nunca esteve em cima da mesa: que fazer com todo o poder acumulado? “E agora que tenho tudo, o que é que se pode ter mais?” Sugiro ao senhores donos do mundo, isto é, às grandes corporações mundiais, suas representantes e respectivos interesses pessoais envolvidos, que sigam em direcção ao espaço. O espaço é enorme, segundo dizem os cientistas, há muito por onde explorar! Abandonem este planeta! Podem deixar-nos entregues ao perigos do mundo natural. Nós percebemos o quanto o mundo natural é exigente e rude. Nós entendemos a contradição existente do prazer retirado do esforço. Nós entendemos que somos únicos, mas também fracos e perecíveis. Nós entendemos que todos os outros habitantes naturais deste Planeta são parte integrante dele e têm tanta importância quanto nós. Nós não temos medo dos mosquitos nem dos crocodilos. Se ele nos atacarem para nos comer, nós percebemos que é uma questão natural de sobrevivência. Auto-preservação da espécie. Chave da mecânica cíclica da vida no planeta, que permitiu ao Planeta e a nós próprios, chegar a este ponto da História. Pelo menos sabemos que eles não nos tentarão comer da forma mais eficiente e competitiva, baseados em expectativas de mercado!
Percebemos que vivemos uma não-era. Percebemos que andamos meios desorientados e sem um rumo muito bem definido porque “sentimos” a presença próxima dum cruzamento na História do Planeta e do próprio homem. Pela primeira vez, como espécie, percebemos que um caminho – o actual – nos guiará inevitavelmente para a destruição total e definitiva, através da insustentabilidade ambiental óbvia do Planeta, face ao modo de vida actual. Pela primeira vez, como espécie, percebemos que temos mesmo de parar, para procurar o tal novo caminho que preencha o derradeiro propósito da vida que é continuar a existir.
Estarão os tais “donos” deste Planeta a parar para pensar? Não me parece. Mas essa é apenas a opinião de um simples, anónimo, insignificante, minúsculo e estúpido habitante deste Planeta.

“O exemplo é a escola da Humanidade e a única que pode instruí-la”. – Edmund Burke

Comments


  1. Um belo aventar. Revoltado, sim. Mas um daqueles que deixa a pensar.

  2. António Meireles says:

    Então não acha que estamos melhores do que alguma vez estivemos? Estamos na Europa rica, de que se queixa?E na India e na China? Até já começaram a comer carne e tudo. Passam menos fome. Isso não é bom?

  3. Luis Moreira says:

    Caro António, bom é, mas sai muito caro.É verdade que o problema do ter (para quem tem bom senso e não quer cada vez mais inutilidades) está resolvido, mas o problema dos afectos (como dizia Alçada Baptista ) é que com estes valores nunca se reolverão.

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