Oh as casas as casas as casas*

Percorro essas estradas municipais já quase abandonadas, que a cada ano perdem alguns centímetros para a floresta de eucalipto, e descubro as espantosas casas do interior do país.

Em lugarejos esquecidos, rodeadas de árvores que crescem à revelia dos homens, erguem-se essas construções impossíveis: casarões com telhados de duas águas, jardins perfeitos aos quais nem sequer falta uma descomunal fonte de pedra, chalets improváveis num cenário desolado.

Estas casas estão feitas de cimento e pedra e frustrações longamente sublimadas, de humilhações, sacrifícios, do orgulho apertado nos dentes por muito, muito tempo. Por isso são únicas e incongruentes, não pertencem ao sítio onde estão mas tampouco poderiam estar noutro lugar, nascem e vivem ao lado do cão que fica longo tempo a olhar os forasteiros, do monte de sucata enferrujada, do poço seco, do ribeiro que já arrastou homens mas agora perdeu a força e esvai-se num fio de água enlameada.

É raro ver-se gente nessas casas, ou um baloiço, ou um par de botas no jardim. Como fantasmas, erguem-se solitárias, miragens urbanas no deserto da estrada, a tal ponto que não sabemos se as sonhámos, se desejámos vê-las para nos tranquilizarmos com a presença do humano numa estrada por demasiado tempo deserta.

Casas estranhamente belas, casas sólidas, para resistir aos temporais das serranias, casas que não morrerão tão cedo mas que já parecem quebradas por dentro, sem o sopro vital que também anima as casas. Casas que, na sua solidão altiva e absurda, me parecem, por instantes, um retrato do país, e, também por isso, ainda mais tocantes e insuportáveis.

* “As Casas”, Ruy Belo, Todos os Poemas, Assírio & Alvim, 2000

Comments


  1. É assim que se perde uma parte do país, é assim que se despreza a memória, os costumes e a cultura de um povo. E um povo sem memória, costumes e cultura não tem, nada.


  2. Exactamente. Todo este cenário ainda se torna mais deprimente e triste quando juntamos a vertente urbana que vai pelo mesmo caminho: destrói tudo o que é natural apenas para deixar mais umas casas também ao abandono. Triste retrato do país.

  3. Carlos Fonseca says:

    Parabéns, excelente texto. Além de tudo, o dito Portugal profundo onde há casas que são o gemido do silêncio dos ausentes ou sofrimento de duras solidões.Ainda na semana finda, na região de Galveias / Ponte de Sôr, desfilaram diante mim imensas dessas casas, que vivem na monótona companhia de sobreiros, choupos e pinheiros.

  4. António Martinho says:

    Acompanho este blogue desde o primeiro dia por causa do Ricardo Santos Pinto, que «conheci» no 5 Dias.Devo dizer que a Carla é a melhor autora deste blogue. Os seus textos são belíssimos. Parabéns!

  5. Carla Romualdo says:

    Caro António, obrigada pela suas palavras tão generosas, mas não posso estar de acordo consigo. Nenhum de nós é melhor ou pior, cada um vai relevando a cada “post” a forma como olha o mundo.Espero que não deixe nunca de ser “cá de casa”.

  6. Ricardo Santos Pinto says:

    Não sejas modesta, Carla.

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