Os mais e os menos de um dia assim-assim

Paulo_Rangel

Depois das primeiras avaliações de ontem, decidi aguardar. Que os ânimos eleitorais serenassem que houvesse alguma margem para ter uma perspectiva mais sóbria e após umas horas sem olhar para os resultados eleitorais. Feito esse período de separação, confesso que mantenho quase a mesma visão.

As eleições foram as primeiras vitoriosas do PSD em 20 anos de europeias. Até por isso foi um sucesso com maior sabor. Depois de aparecerem em quase todas as sondagens, com uma excepção, em segundo lugar, os sociais-democratas venceram um confronto eleitoral com uma proporção que deve ter surpreendido mesmo muitos dos seus militantes e dirigentes.

Esta foi, acima de tudo, uma vitória de Manuela Ferreira Leite, que escolheu Paulo Rangel, e, claro, do número um da lista. Estrela em clara ascensão no universo político nacional, o líder parlamentar do PSD teve uma tarefa hercúlea. A campanha ‘laranja’ deu sinais de desorganização, foi apagada, desmobilizadora, com poucos meios e triste, fechada em reuniões de poucas pessoas, numa acção de proximidade em contraponto com a forte aposta do PS. Os socialistas investiram muito nesta campanha, em dinheiro e capital político, e saíram derrotados em toda a linha e de forma expressiva, derrapando mais de 500 mil votos. Dá ideia de terem perdido para todos, para outros partidos e, sobretudo, para a abstenção, num gigante voto de castigo. A campanha ‘rosa’ contou com uma forte presença de José Sócrates e, por isso, o líder do partido acaba por se constituir no principal derrotado do dia eleitoral. Primeiro porque lidera o governo, que recebeu um forte aviso por parte do eleitorado, mesmo que Sócrates pretenda fingir que não há qualquer relação. Depois porque é o secretário-geral do PS e nessa qualidade é o principal responsável pela escolha de Vital Moreira para cabeça-de-lista, num erro de “casting” que ficou claro desde cedo. O professor de Direito foi sempre um peixe fora de água. Por fim, porque o chefe do Governo e do PS empenhou-se muito na campanha. Tanto que fosse qual fosse o resultado ficaria marcado no seu percurso político. E o resultado foi uma pesada derrota.

Numa eleição com muitos vencedores e poucos perdedores, o segundo grande triunfante da noite foi o Bloco de Esquerda. A lista de Miguel Portas dobrou a votação, subiu de um para três mandatos e passou a ocupar o último lugar do pódio da política nacional. O Bloco parece ter chegado ao patamar em que tem de passar a ser algo mais que uma força política do contra.

O dia de domingo também foi positivo para a CDU. Ilda Figueiredo liderou, mais uma vez, a lista ao Parlamento Europeu, obteve o mesmo número de mandatos, dois, e reforçou a votação, assegurando mais 70 mil votos que há cinco anos. Mas a noite da CDU não foi perfeita por ter sido ultrapassada pelo BE.

Para o CDS foi um novo renascer. Sempre subavaliado nas sondagens, o partido de Paulo Portas conseguiu, apesar de um apagamento na campanha, segurar eleitorado, garantir dois eleitos em Bruxelas e manter-se à tona da política interna.

Outro dado significativo desta eleição foi o “crescimento” do “sexto partido”: os votos brancos e nulos ultrapassaram os 200 mil, numa subida muito significativa em relação ao acto eleitoral anterior. Mais de 236 mil eleitores deveram-se ao trabalho de se deslocar às urnas e deixar em branco o boletim ou inutilizando-o. Um dado, que a juntar a uma significativa abstenção, deverá obrigar as forças políticas a reflectir de forma séria o seu relacionamento com os eleitores, embora seja pouco provável que tal aconteça.

Outros derrotados da noite foram as empresas de sondagens. Mais uma vez falharam na previsão da intenção de votos dos portugueses. Já não é a primeira vez que tal acontece. Mais uma entidade a necessitar de profunda reflexão.

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