O tema recorrente da abstenção

A abstenção é, de facto, um tema recorrente e, ainda na edição de hoje do Público, Miguel Gaspar aborda a questão, a propósito das europeias. A Europa, acentua ele, registou, no último fim-de-semana, um novo recorde de abstenção.

Estou basicamente de acordo com as razões que ele aponta para o elevado grau de abstencionismo em toda a Europa, não sendo, pois, induzido pelo seu artigo este meu ‘post’. A causa verdadeira reside no texto que há dias João Pinto e Castro (JPC) publicou no ‘Jugular’ sob o título ‘Abster-se é tão mau como estacionar em segunda fila’.

Do primeiro ao último parágrafo, JPC desanca forte e feito nos abstencionistas e com um palavreado tão severo, de impossível aplicação em análise séria e objectiva do fenómeno.

Diga-se, para já, que eu não sou defensor da abstenção. Partilho da opinião de usar a alternativa do voto em branco ou nulo. Mas, considerando os milhões de cidadãos que a praticaram uma vez mais, parece-me, por outro lado, grosseiro enveredar por uma distribuição avulsa de invectivas contra os abstencionistas, pensando que, ao agir desse modo, está a fazer-se o juízo e a pedagogia mais rigorosos do mundo.

O JPC está, efectivamente, equivocado. A abstenção crescente e massificada é um fenómeno sociopolítico, transversal nas democracias ocidentais. Tem sido objecto de inúmeras análises e interpretações por parte de diversos estudiosos. Posso indicar alguns, apenas portugueses: André Freire, António Barreto, Manuel Braga da Cruz, Manuel Villaverde Cabral e Pedro C. Magalhães.

Sumariamente, pode dizer-se que, na procura de justificações, é usual estudar factores sócio-demográficos (rendimento, instrução, idade, rural/urbano) que condicionam uma variedade de atitudes políticas dos cidadãos, associando-se estas últimas ao conhecimento e confiança do eleitorado, relativamente a sistemas políticos e instituições.

Determinados políticos, e os seus apoiantes mais activos, não podem despejar rios de ira sobre os eleitores abstinentes. Uns e outros necessitam de levar mais fundo o trabalho, não se dando conta de que, ao reagir de forma tão superficial, demonstram desprezo pelo saber; preferem ignorar os verdadeiros fundamentos de tão elevada, e geograficamente propagada, recusa de participação eleitoral. É pouco, ou mesmo nada.

Comments

  1. luis Moreira says:

    Pois, Carlos, é sempre fácil atirar a culpa para cima dos outros! Além disso a abstenção é uma opção eleitoral como qualquer outra.

  2. Diogo says:

    A abstenção é, na grande maioria dos casos, um voto em branco.Por outro lado:Hitler ensaiou infrutiferamente obter receitas na blogosferaRefugiado num bunker em Berlim, poucos dias antes de 30 de Abril de 1945, data do seu suicídio, Hitler é confrontado pelos seus generais com o débâcle total do seu blog, donde esperava receitas suplementares que lhe permitissem prolongar a guerra.No auge do desespero, Hitler dispara em todas as direcções e nem sequer poupa os outros bloggers, com especial incidência no Blasfémias, Arrastão, Causa Nossa, etc.Vídeo legendado em português (http://citadino.blogspot.com/)

  3. Dgibi says:

    Eu abstive-me. Acho que foi a primeira vez que o fiz. E fi-lo com a intenção de manifestar o descrédito total neste sistema político.

  4. carlos fonseca says:

    Dgibi, há sempre uma ou mais razões para a abstenção. A falta de confiança nos políticos e nas instituições é considerada como das mais comuns.

  5. dalby says:

    No dia em que for obrigado a votar dou em terrorista sanguinário..nesse mesmo dia!