Imigrante de luxo e imigrante no lixo

Hoje, lêem-se no ‘Público’ notícias de vidas antagónicas de dois imigrantes em Espanha: numa, Cristiano Ronaldo, futebolista, é destacado em metade da 1.ª página, com o anúncio de vir a ganhar, no Real Madrid, 30.000 euros por dia; noutra, com destaque na última página e desenvolvimento na vigésima, é noticiado que o patrão atirou para o lixo o braço decepado por máquina, do desventurado imigrante indocumentado, boliviano, Franns Vargas, de 33 anos – era padeiro na zona de Valência, trabalhava 12 horas por dia e auferia 700 euros por mês.  

Estes dois casos de imigração, um de luxo e outro de lixo, têm por cenário Espanha. Porém, em minha opinião, poderiam ter lugar em qualquer outra sociedade actual, sob o manto do capitalismo sem ética, que semeou a crise mundial e varreu das cartilhas políticas valores e referências essenciais do mais elementar humanismo.

Os traços de boçalidade com que CR(7?) se costuma exibir constituíam, para mim, tiques suficientemente abjectos para nutrir por ele, como homem e futebolista, a admiração parecida à  que dediquei a Luís Figo, Rui Costa, ou Vítor Baía. Mas, valha a verdade, não é a Cristiano Ronaldo que tenho de imputar culpas de tremenda injúria social, mais condenável ainda na conjuntura de profunda crise em que o mundo inteiro está submerso. Ele, Kaká, e tantos outros não são responsáveis por, ao final de um dia, auferirem até 43 vezes mais do que um humilde imigrante, com 12 horas de trabalho diário, ganha durante um mês. Isto, não estabelecendo comparações com cerca de 5.000.000 de cidadãos que, em Espanha, estão no desemprego e “desfrutam” de rendimento nulo ou pouco acima do zero.

Do obsceno futebol actual, de que gradual e aceleradamente me tenho afastado, chegam exemplos similares de todas as latitudes, com a Europa no topo. Tornou-se tão frequente como repelente a associação espúria entre o futebol e o mundo de negócios obscuros. Florentino Perez, à semelhança de dirigentes de clubes portugueses, é um empresário do sector imobiliário. Inclusivamente, segundo o ‘Público’, já tentou a política. E falhou. Felizmente, acrescento eu, e assim deveria acontecer com Sílvio Berlusconi e gente do género, a quem a sociedade actual concede o privilégio de cometer crimes sociais graves, em conjunto com padeiros e outros artesãos pelo meio.

Deste futebol não quero, obrigado. Os autores da imensa ofensa à justiça social, padeiros incluídos, deveriam ir direitinhos à lixeira. De resíduos não recicláveis, acentue-se. Não fosse o Diabo tecê-las.

Comments

  1. luis Moreira says:

    Este sistema está completamente rompido, a justiça, o simples bom senso, não faz parte desta sociedade que caminha a passos largos para a confrontação geral. Em Espanha com milhões de desempregados…


  2. […] que compram as suas camisolas. Aqueles que querem saber da sua vida privada. Como dizia antes o Carlos Fonseca, a culpa até nem é sua. Por mim, não receberia ele um tostão, que eu só tenho olhos para o meu […]


  3. É um paradoxo terrível. Mas é a realidade. Não só em Espanha mas em qualquer parte do mundo.

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