Está tudo louco?

Acedo ao Facebook da minha empresa, e vejo que um dos nossos amigos acaba de realizar o teste “que tipo de cocó és tu?”, tendo obtido como resposta: “tipo 4 – Como uma salsicha ou serpente, suave e mole”. Nunca mais se olha da mesma maneira para alguém depois de saber que ela é do tipo 4, pois não?

Professores Titulares

O movimento de luta dos professores nos últimos anos tem sido algo absolutamente fantástico mas, nem por isso, o governo parece aprender.
Vejamos o site da Direcção Geral dos Recursos Humanos da Educação: DGRHE
Vamos passar à frente aquela ideia que boa parte dos tugas continua a ter sobre os professores – aquela dos 3 meses de férias. Estão todos de acordo que pelo menos em Agosto temos direito a férias, certo?
Pois bem, em pleno dia 17 do oitavo mês o Ministério informa as escolas e os professores de que podem iniciar o processo de candidatura a Professor Titular.
Os menos atentos certamente deverão lembrar-se de que esta trapalhada da divisão da carreira tem sido uma das bandeiras da luta dos professores e isso acontece fundamentalmente por dois motivos:
– é uma divisão desnecessária e injustificável à luz das actividades escolares – na nossa profissão só há uma função do primeiro ao último dia: dar aulas. Logo, não se justifica qualquer divisão.
– a forma como decorreu o primeiro concurso foi um absurdo, permitindo injustiças já reconhecidas pela Ministra.

Dito isto, o ME tenta agora lançar uma OPA sobre os professores.

socrates

É importante gritar bem alto a todos os possíveis candidatos (15 anos de serviço): isto é pouco mais do que uma mentira, porque entre poder concorrer e entrar vai uma distância maior do que a do BENFICA vir a ser campeão. Em nenhum lado o ME se atreverá a lançar vagas REAIS antes das eleições – avança apenas com um processo burocrático procurando comprar o nosso voto nas eleições que se seguem.
Eu por mim farei assim:
1- hoje reclamo, amanhã votarei.
2- Subscrevo a sugestão do Paulo Guinote – vamos todos apresentar candidatura e vamos desta vez, SIM, tentar provar como isto é absolutamente impossível de implementar.
Vamos a isso!

Cartazes das autárquicas (Stª Mª Feira, Aveiro)

PS, Santa Maria da Feira

PS, Santa Maria da Feira

PS, Santa Maria da Feira
Imagem enviada por mail por um amigo e leitor do Aventar, Gastão Pinto

Os Miseráveis

Se vivesse no Portugal do século XXI, em alternativa à França do Século XIX, Victor Hugo teria muito material humano para trabalhar aquele que seria, por certo, um grande clássico.

Na SIC, esta noite, o fiscalista Diogo Leite Castro declarou que uma pessoa que tem um vencimento de cinco mil euros é um remediado. Já quem ganha mil euros mensais é um miserável. Até pode ter razão, mas a realidade é que uma parte gigantesca da população nacional tem vencimentos até esse montante. Logo, há um oceano de miseráveis e uma pequena bacia de milionários.

No entanto, sejamos realistas: não vale a pena acabar com os ricos. O que importa é acabar com os pobres.

Um piqueno problema…

… Chamado coerência!

Miguel Vale de Almeida, via Um Homem das cidades

Aqui pelo Porto há quem use expressões do tipo “Coluna vertical”, “tomates no sítio”. Quando alguém tem a capacidade de recusar um tacho a troco da sua dignidade.
Há outros provérbios do tipo “Cão que não conhece o dono”.

Mas, tudo isto é nada a troco de tudo, não é?

Sabemos todos que os partidos são um problema, quase sempre mais parte deste do que da solução. Sabemos todos que ninguém está preso a nada, nem a ninguém.
Mas, o que leva um fundador do BE a mostrar surpresa pelo partido que ajudou a fundar, manter a linha de rumo por si “construída” e nunca criticada?

Play it, Sam

O calor dá-me para a nostalgia, que querem?

S.L.Benfica – Futaventar #1

“Aí está a retoma!”

Enorme exibição de Fábio Coentrão

Enorme exibição de Fábio Coentrão

(Foto do Jornal “A Bola”)

Sócrates e Antero Henriques (AH) estão na mesma onda!
Para um 153 000 desempregados corresponde ao alcançar de um objectivo e um excelente sinal da economia lusa, para outro as não vitórias do Maior Clube do Mundo correspondem a um facto – não sabe ganhar em Democracia. Nem mais!
E ontem 54113 tiveram oportunidade de ver a retoma on tour, mais conhecida por Dias, A.S..
A retoma entrou cedo em campo com uma bola a bater na mão do David, visão categórica de A.H. como sinal da ditadura que se vive no clube da luz. Logo, sem margem para qualquer certeza, ASD aponta para a marca de penalty. Talvez por ter sido com a mão direita valeu penalty, mais tarde, por ter sido na esquerda não valeu – na área do marítimo uma mão não deu penalty: verdade que um não chegou porque o Cardozo resolveu dar uma de Sportinguista e falhou uma penalidade.
Quanto ao resto foi uma batalha dura entre o povo que luta diariamente para vencer um crise real e uma governação que apresenta a retoma há anos – fechadinhos lá trás, vestidos com as cores da Madeira, encostaram o paquete em frente à baliza. Depois, devagar e devagarinho lá foram indo… Nunca sairam do Porto, por isso nunca chegaram a bom porto ainda que a retoma azul e branca. Ups… Desculpem. A retoma rosa tenha tentado.
Nesta campeonato muito particular da retoma sim ou não, está visto que do lado do glorioso, só podemos confirmar: a retoma está aí. Já nos levaram dois pontos.
Até Guimarães.

Nota:meu caro Miguel, não sou de pressas – e, sim, concordo contigo – esse jovem da foto foi o melhor do Benfica ontem.

Cartazes para as Autárquicas (Matosinhos)

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Guilherme Pinto (actual Presidente), PS, Matosinhos.

A quota da Fernanda Câncio*

Com aquela escrita meio “tem-te não tem-te ” como se fosse a cada palavra descobrir a origem do Universo e logo a seguir desaguar num mar de lugares comuns, o Director do “Sol” escreve sobre a não recondução do Prof. Lobo Antunes para membro da Comissão para a Ética e para a Vida.
E, após umas dicas de senso comum à volta de quem teria tido influência junto do Primeiro Ministro para que este tomasse tal decisão, encontra a resposta em quem está ali mais á mão. Pois a namorada de José Socrates não é a campeã das causas fracturantes e não terá o Prof. escrito um relatório contra o Testamento Vital?
E, záz, aí está a razão clarinha como a água doce. Não entras!, manda a Fernandinha…
Eu, por acaso, que não tenho o “olho de falcão” do Sr. Director, andava às voltas com uma questão bem mais preocupante.
Então, não é, que para além das quotas das sensibilidades, das distritais e da “dos nacionais” o PS tambem tem a quota da Fernanda? Na constituição das listas a deputados do PS! Muito mais evidente que o raciocínio do Sr. Arquitecto. Um grupo de bloggers sai do “5 dias” e forma a “Jugular” que por sua vez se transforma no “Simplex”, onde deixam de estar envergonhados e fazem às claras o que sempre negaram. O apoio “à outrance” do Governo, do PS e de Sócrates! E não é que um desses bloggers já está em terceiro lugar na lista do PS por Vila Franca de Xira, justamente a terra natal da Fernanda Câncio? E esta hem?
Parabéns João Galamba, foi rápido, não deu aquele trabalho “filho da puta” das Jotas nem do aparelho e é pela mão de quem manda!

* corrigido.

Francisco Leite Monteiro – Os preços dos combustíveis rodoviários

Preços estão empolados em 20% como se constata, por opção do Governo, que terá aproveitado para reforçar os cofres do Estado

O comunicado da GALP de 11 de Agosto, proclama o esclarecimento da opinião pública, aparentemente em defesa da Autoridade da Concorrência, a entidade reguladora que, segundo o Prof. António Costa Silva, pouco ou mal regulará o mercado dos combustíveis, deixando tudo na mesma ou pior. O comunicado traz à mente, pela negativa, a velha máxima britânica “make a long story short”, por assim dizer procurando explicar o inexplicável e, a partir de pouco mais de nada, quiçá habilmente evitando a factualidade, converte uma “short story” numa arengada exaustiva nada clarificadora.

De qualquer modo, já ninguém terá grandes dúvidas – pelo menos desde 2005, coincidindo com a entrada em funções do actual governo – sobre a realidade do que é o mercado dos combustíveis em Portugal, tema de que me ocupei em “O Imbróglio dos Combustíveis” (DN de 17 de Janeiro passado) e que também abordava alguns dos pontos focados no comunicado.

Deve pois recordar-se, tomando os valores indicados pela GALP no que se refere ao peso dos impostos relativamente ao preço final de venda ao público dos combustíveis rodoviários, assim como o peso da matéria-prima, o “crude”, também em termos relativos; e, evidentemente, o preço do próprio “crude”, o “crude brent” que serve de referência para a formação dos preços para, não indo muito mais longe, reabrir o processo sem esquecer a necessidade de ponderar a variação da cotação do euro vs. dólar americano. Como elementos “chave” que são e o facto de o pico do preço do “crude”, como refere o comunicado da GALP, ter ocorrido em 11 de Julho do ano passado – 147 dólares por barril – importa não limitar a análise apenas aos últimos 12 meses, já que a actual crise começou bastante antes.

Ora, no início de 2005, após a chamada “liberalização do mercado de combustíveis”, o preço médio do “crude”, situava-se ao nível dos 40 dólares e a cotação do euro versus o dólar estava ligeiramente acima de 1,30. Curiosamente, no início do ano em curso, após todas as flutuações que se verificaram, os valores, quer em relação ao preço médio do “crude”, quer à cotação do euro versus o dólar, tornaram a ser praticamente equiparáveis aos de há quatro anos. Presentemente, o preço médio do “crude” ronda os 70 dólares e o euro vale cerca de 1,40 dólares, cabendo ainda salientar que o euro chegou a valer 1,60 dólares, quando o preço do “crude”, em Julho de 2008, atingiu o tal pico, que refere o comunicado.

Para não tornar demasiado fastidioso, tendo presente as variações que ocorreram neste mercado, em linhas muito gerais, pode resumir-se:
· no início de 2005 o preço do “crude” situava-se ao nível dos 40 dólares por barril, o euro valia 1,30 dólares e o preço por litro de venda ao público era, para a gasolina 95, cerca de 1 euro e, para o gasóleo, 80 cêntimos;
· em Julho de 2008 com o preço do “crude” nos 147 dólares, o euro chegou a valer 1,60 dólares, a gasolina 95 atingia o preço de €1,50 e o gasóleo €1,43;
· presentemente, com o “crude” próximo dos 70 dólares e o euro a valer 1,40 dólares, a gasolina 95 é vendida a pouco mais de €1,30 e o gasóleo está acima de €1,07.

Nestas condições, a partir de uma análise prática, tendo em consideração os indicadores de início de 2005 (preço do “crude”, cotação do dólar e preços de venda ao público) bem como o peso relativo dos impostos (62% no caso da gasolina e 53% no caso do gasóleo, conforme o comunicado da GALP) o preço da gasolina 95 deveria agora situar-se ao nível de € 1,10 e o do gasóleo de € 0,90. A verdade é outra e os preços estão empolados em cerca de 20% como se constata, por opção do governo que terá aproveitado para reforçar os cofres do Estado, aumentando a receita fiscal em dezenas de milhões de euros – no conjunto do ISP e IVA – ao longo dos últimos 4 anos que dura a crise, à custa da sobrecarga para o consumidor. Impõe-se como tal reavaliar rigorosamente toda a situação, incluindo a actuação da Autoridade da Concorrência – um desafio ao governo, em nome do interesse público.

Publicado também no Diário de Notícias

O poder Ditatorial do FC Porto e a noite

Alguém se surpreende com este tipo de acontecimentos?

Há muitos anos que todos sabem a enorme influência- em tempos total – que os Homens fortes do Porto tinham sobre a noite e o poder que isso lhes conferia perante os jogadores, jovens habituados às coisas boas da noite. Sou do tempo, em miúdo de ver craques do Porto – Oliveira, Gomes – até altas horas num café de Rio Tinto no dia anterior aos jogos. Está publicado em livro e é voz corrente na invicta que a entrada do Pinto da Costa mudou isto tudo e o braço armado criado foi crucial para esta estratégia de dominar tudo e todos – de jogadores a árbitros, a dirigentes de outros clubes. O Braço Armado são os Super que controlam e atemorizam “tudo o que mexe” – estão para quem se mete com o FCP como o cotovelo do Bruno Alves para os seus adversários.

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A forma como a Direcção do Porto tolera a “autonomia” dos Super é algo questionável e permitiu a criação de um grupo dirigente com muito dinheiro que vive da venda de bilhetes, de roupa e de outros negócios…

E depois, tudo isto tem acontecimentos muito curiosos, onde quase sempre, alguém que se atreve a mexer no lodo, leva! Simples… A ideia vai passando, vai fazendo escola e depois qual é a solução – comer e calar!

O Porto tem os melhores jogadores, melhores treinadores, melhores dirigentes, ganha mais, etc… e tal. Mas, uma e outra coisa não são por acaso nem mera coincidência. Até aposto que o Adriano vai aparecer que gosta muito do Porto, que o Pinto da Costa e a Direcção do Porto sempre o apoiaram muito e que afinal a agressão não aconteceu – ele caiu na casa-de-banho.

Leitor do Aventar, Nuno Miguel Silva

Os pimentos padrón de Goian


Goyán, ou Goian para os galegos, como fazem questão de mostrar nas placas toponímicas, é uma pequena vila fronteiriça, separada de Portugal pelo rio Minho. Do lado de lá da fronteira, fica Vila Nova de Cerveira. Antigamente, a ligação fazia-se através de «ferry-boat», substituído há uns anos por uma ponte construída a norte da vila e junto à freguesia de Lovelhe. Quanto ao «ferry», que ligava as duas margens em dois minutos de muita magia, está transformado num bar sem grande interesse.
Para chegar a Goian, atravessa-se a ponte e vira-se à esquerda, na direcção de A Guarda (La Guardia). Um quilómetro depois, vira-se no primeiro cruzamento e segue-se sempre em frente até ao local onde ancorava o «ferry-boat», junto ao rio. Virando à direita, já a pé, e andando cerca de cem metros, encontramos uma humilde esplanada que só funciona nos meses de Verão. Pedimos uma canha, um prato de pimentos Padrón e começamos a desfrutar da beleza e calmaria do rio Minho e, do lado de lá da fronteira, do panorama magnífico de Vila Nova de Cerveira.
Poucos minutos depois, o olfacto já não engana: o cheiro do azeite a fritar os pimentos, cobertos por uma fina camada de sal grosso, prenuncia algo de delicioso. Devem ser os melhores pimentos Padrón do mundo, porque são comprados no sítio onde são produzidos, Herbon, aldeia vizinha de Padrón, a cerca de cem quilómetros de Goian.
Manda a tradição que os convivas se juntem a comer os pimentitos e que o primeiro que encontrar um picante pague a conta. Porque os pimentos Padrón, diz o povo, «unos pican y otros non». Se forem apanhados no momento certo, é difícil sairem picantes. Se forem pimentos Padrón de Marrocos, comprados no Pingo Doce, já é mais provável… Seja como for, aconselha-se sempre a ter um copo cheio quando se prova o primeiro, se não se quiser ficar com a boca a fumegar. É que quando picam, picam mesmo.
Só existem nos meses de Primavera e Verão, por isso é aproveitar.

Maria Monteiro – A força da CDU na Av. de Roma

ministra
A senhora é que já está a influenciar os vizinhos …. no prédio já nasceram mais janelas vermelhas.
(cá para mim é a força da CDU em campanha pela Av Roma)
—-
Nota: A administração do Aventar dedica este «post» à D. Maria João Pires do Jugular.

Falando de democracia: A televisão e o computador significarão a morte do livro?


Livraria Lello, no Porto – uma das mais belas do mundo.

A democracia é indissociável do livro. Hoje, falando de democracia, vou falar do livro. E começo por transcrever palavras de José Afonso Furtado em O Que é o Livro: «Uma das imagens recorrentes em diversas obras que se dedicam a problemas de História ou da Sociologia do Livro e da Leitura é uma passagem clássica do romance Nôtre-Dame de Paris, de Victor Hugo. Nela, o arcediago abre a janela da sua cela, contempla por algum tempo a Nôtre-Dame, estende a mão para o livro impresso aberto na sua mesa e, lançando um olhar triste para a igreja, profere a conhecida frase: ceci tuera cela.». Embora como José Afonso Furtado diz, este imagem seja recorrente, utilizo-a mais uma vez porque facilita a compreensão do que quero expor. Segundo o próprio Victor Hugo explica depois, a frase dita pelo arcediago Claude Frollo (o protector de Quasímodo), reflecte o espanto e o receio do sacerdócio, naquele final do século XV, perante o “prelo luminoso de Gutenberg”, o confronto entre a palavra escrita e a palavra falada. Por outro lado (como refere McLuhan) a arquitectura gótica, a escultura, a iluminura ou a glosa medievais eram suportes da arte da memória e o eixo da cultura da escrita. Temia-se que o advento da imprensa pusesse tudo isso em causa e em risco de extinção.
Tal como nesse fim do século XV se temia que um avanço como o que a imprensa significava, pusesse em risco a forma mais popular de comunicar com as massas – a arquitectura gótica, através das quais multidões de gentes iletradas, que faziam das catedrais o seu local de encontro e de passeio dominical (tal como hoje as famílias vão ao centro comercial) «liam», nos elementos escultóricos de pórticos, túmulos, capelas e retábulos, passagens das Sagradas Escrituras, teme-se agora que as novas tecnologias da informação ponham o livro em risco de extinção. Penso que se trata de um falso receio e de um falso problema. Embora, indubitavelmente, o cenário mude – já mudou – e os editores tenham de se adaptar a ele. O feeling que têm usado como sistema, vai deixar (se é que não deixou já) de ser suficiente – vão ser necessários investimentos, nomeadamente na área da formação. As novas tecnologias só podem ser aliadas do livro, nunca adversárias. Concorrentes, sim, inimigas, não. Mas isto, se os editores estiverem apetrechados, inclusive com formação específica que desde há cerca de quinze anos existe, tendo começado com um curso de especialização na Faculdade de Letras de Lisboa e existindo agora outros cursos na Católica e na Nova. Na realidade, do mesmo modo que é impensável um médico ou um engenheiro autodidactas, deveria pôr-se na gaveta das recordações o editor «sem mestre, mas com jeito», como diria o José Fanha. Os editores continuam a publicar por feeling. E não nego que existem pessoas no mundo da edição com uma espécie de sexto sentido. Mas até esse sobredotados às vezes se enganam. Vejam só o perigo que seria se os farmacêuticos, em vez da formação científica que recebem, actuassem por feeling. Ele era aspirina para a queda do cabelo, xarope anti-tússico para as varizes e por aí fora. A edição é uma ciência. A vocação é necessária, mas a formação é indispensável.

Porque a crise do livro é endémica. Quando, há muitos anos, cheguei ao meio editorial a crise do sector era já um dado adquirido. Ironicamente, dir-se-ia que Portugal está em crise desde que o nosso Afonso I derrotou D. Teresa na escaramuça de São Mamede, em 1128, e o que a indústria e o mercado do livro no nosso País estão em crise desde que, em 8 de Agosto de 1489, se imprimiu em Chaves o «Tratado de Confisom», primeiro incunábulo português. As causas apontadas para a crise são numerosas. Umas crónicas, outras que vão surgindo. Há umas décadas, a persistência de uma larga percentagem de analfabetismo entre a população, o baixo poder de compra e a censura, eram três argumentos recorrentes (e todos eles reais). A televisão não se usava ainda como desculpa, pois a oferta desse meio era escassa. Actualmente, o analfabetismo é residual, o poder de compra não é famoso, mas os concertos de música rock enchem-se, para falar só num concorrente do livro. Não há censura, mas há televisão com múltiplos canais, computadores e Internet – as pessoas não ficam com tempo para ler, pois não podem perder os seus programas, os sites ou blogs favoritos. A pouco e pouco a leitura on line dos jornais vai pegando. O que significa que os jornais, ligados geralmente a grandes grupos, já estão a aprender a conviver com a mudança. Também há grandes grupos editoriais, grandes multinacionais da edição, e aí não se brinca às edições – cada projecto é minuciosamente analisado, antecedido de estudos de mercado. Nessas grandes empresa não se usa o velho sistema dos editores clássicos – «eu acho que»… – «Em marketing, não se acha, testa-se!», é uma dos axiomas do Professor Jorge Manuel Martins que lecciona Marketing do Livro na Faculdade de Letras de Lisboa, numa das tais pós-graduações de que falei. Por causa do «eu acho que», os armazéns estão cheios de livros que não se venderam e que, muito provavelmente, não se vão vender. Milhares de árvores inutilmente abatidas.

O empirismo dos editores e a falta de especialização das editoras médias e pequenas, a tentação generalista, a ausência de especialização em linhas editoriais específicas – direito, medicina, culinária, pedagogia, economia – a busca de nichos de mercado, que seria a grande solução para as pequenas e micro editoras; mas não, os pequenos editores, mesmo aqueles que publicam vinte ou trinta títulos por ano, persistem em abarcar todo o imenso leque do conhecimento – do romance à astrofísica. Eles divertem-se, mas arruínam-se. É um suicídio.

Porém, penso que mais do que uma crise no mercado do livro, creio que há a ausência de uma política do livro que induza os cidadãos a ler e a colocar o livro na sua lista de prioridades. Como é que isso se fará? Será coisa para o Ministério da Cultura resolver? Também, mas não só. Para falar só nos últimos cinquenta anos, nem o Estado Novo, nem os governos democráticos souberam criar uma política do livro. E o que será isso? Pitágoras disse. «Educai as crianças par que não seja necessário punir os homens», o que aplicado ao tema que estou a abordar seria «Educai as crianças para que não seja possível em adultas castigá-las com romances da Margarida Rebelo Pinto ou com uma televisão concebida para imbecis». Claro, dirão logo alguns, mas os programas escolares contemplam a literatura. Mas não é de programas escolares que estou a falar. É de educação integrada – uma das minhas utopias, claro. Voltemos à temática da crise do livro.

Resumindo: a verdade objectiva tem contornos estranhos: por um lado, os editores têm razão – há uma crise. Sempre houve. Porém, nunca se vendeu tanto livro como actualmente. Não me perguntem se a qualidade média das edições subiu ou baixou. Estou só a falar de quantidade. Crise do livro? – Sem dúvida! Também crise de mentalidades a afectar os pequenos e médios editores e impedindo-os de se adaptarem às novas realidades.

Sobretudo e sempre, crise de valores da sociedade. Para falar num facto recente, lembremo-nos Cristiano Ronaldo a ser saudado por multidões, com os canais de televisão a seguir todos os seus passos. E se toda aquela força e energia mediáticas fossem postas ao serviço da cultura? Cultura no sentido lato, não no sentido livresco. Embora a disseminação da cultura nesse sentido lato de aquisição de valores e de saberes, se traduzisse também na venda de mais livros