De Maria Moura: Small is beautiful

Desde o micro-crédito até às pequenas e médias empresas, tudo isso alimenta as comunidades próximas. E dá vida às vilas e aldeias, que actualmente estão a ficar desertas.

Desertas de vida, desertas de actividade económica e desertas de esperança e emoção positiva.

Estaremos perigosamente a enveredar por um caminho sem saída? O do capitalismo desenfreado e selvagem?

Para mim, selvagens, só as praias desertas…mas infelizmente tambem estão desertos os sentimentos, as emoções, o que faz do homem um ser solidário mas que se transformou num ser profundamente egoísta.

Há cada vez mais um retorno às coisas simples da vida, ao tempo de “deixar passar o tempo”, à medida que nos apercebemos que estamos a ficar escravos das necessidade que nós próprios criamos.
Lembro-me do episódio com Sócrates, o filósofo, que estaria a apanhar sol, quando dele se aproximou o Imperador que muito o admirava. Pede-me tudo o que desejas ! E Sócrates, não me tires o que não me podes dar, que era o sol que a sombra do  cavalo do Imperador lhe tirava.
Dependemos de tudo, desde o esquentador, ao carro, do cimbalino, ao telemóvel, até do Aventar…

Recebido da nossa leitora Maria Moura

Santarém, Capital do Gótico (VII)

(primeira parte e explicação do «bodo aos pobres» aqui)

Entre os séculos XII e XVI, Santarém assumiu-se como uma das mais importantes cidades do país, ao lado de Lisboa, Coimbra e Évora. Pode-se mesmo dizer que estes foram séculos de ouro para Santarém.
Em 1186-87 e em 1198, D. Sancho I concede novos forais a Santarém, renovando os privilégios anteriormente concedidos. Em 1204, estes são ampliados com novas concessões. Os últimos meses da sua vida, passou-os D. Sancho I em Santarém. Atormentado pela doença, procurava nos médicos da cidade o alívio para o seu sofrimento.
D. Afonso II, em 1214 e 1217, e mais tarde D. Afonso III, confirmam tudo o que antes fora fixado. A autonomia municipal ia-se afirmando a cada dia que passava, muito por acção dos procuradores e outros oficiais do concelho, que assim a reivindicavam.
Ainda em relação a D. Afonso II, a trágica história da sua vida está indelevelmente ligada a Santarém, cidade que visitou frequentemente desde 1217 e onde passou a viver em 1221 e até à data da sua morte, dois anos depois. Através dos documentos, é possível saber o nome de seis médicos que trataram da sua doença, a lepra: dois cónegos de Lamego, dois mestres de Évora, um de Lisboa e outro do Porto.
Em Santarém se reuniram as cortes por treze vezes, entre 1273 (D. Afonso III) e 1477 (D. Afonso V). Pelo meio, as de 1331, 1334 e 1340 (D. Afonso IV), 1383 (D. Fernando), 1396, 1406, 1413 e 1418 (D. João I), 1433 (D. Duarte), 1451 e 1468 (D. Afonso V). Tão grande número de cortes demonstra que Santarém rivalizava com Évora no título de segunda cidade do país.
A presença da família real em Santarém, durante longas temporadas, contribuiu largamente para o prestígio que a cidade adquiriu. Várias razões justificam que assim tenha acontecido com Santarém e não com qualquer outra cidade: a localização geográfica, a importância estratégica, a riqueza agrícola e cinegética, a organização administrativa, as condições de alojamento e o contacto com a religião.
Em relação à localização geográfica, a proximidade de Lisboa e a posição de charneira entre litoral/interior e norte/sul contribuiu de forma decisiva para as escolhas reais.
A importância estratégica de Santarém há séculos que era conhecida. Não foi por acaso que os primeiros povos a escolheram para viver. Quanto aos nossos reis, começaram por reforçar a sua vertente simbólica e defensiva, fazendo obras nos paços da porta de Leiria e declarando-a sua sede política.
A riqueza agrícola e cinegética ajudou a que Santarém se tornasse naquilo que foi. Terra da abundância, de fácil acesso por terra ou por rio, proporcionava aos monarcas e à sua extensa plêiade os intensos prazeres da caça de montaria.
Para além de tudo, Santarém era uma vila muito bem organizada do ponto de vista administrativo, ao ponto de os reis utilizarem frequentemente os seus escrivães, tabeliães e notários.
Tinha palácios reais, nobres e burgueses e o serviço de aposentadoria, pelo que dispunha de todas as condições para receber, com frequência, tão numerosa comitiva.
A forte presença clerical na cidade ajudava, evidentemente, ao forte sentimento de ligação entre o poder espiritual e o poder real, que nunca os reis deixaram de utilizar em seu proveito. Obviamente, a Igreja Católica beneficiava também desta situação através de privilégios, fundação de mosteiros e conventos, instituição de capelas reais, apresentação de clérigos ou utilização de espaços religiosos para usos palatinos.
«Outra razão da expansão da cidade medieval foi a presença real, configurada no eixo governativo do reino de Portugal, basilado entre Coimbra-Santarém-Lisboa e depois, já no século XV, Santarém-Lisboa-Évora. A presença do rei, da corte e a reunião de cortes na vila atraem vagas de missionários, pregadores cristãos e das ordens monásticas para vincularem as populações locais – de formação e herança moçárabe – aos princípios religiosos do cristianismo europeu. A luta contra as heresias, fossem quais fossem, transforma Santarém num dos mais importantes centros religiosos do país no século XIII-XIV. (…)
As procissões, associadas não apenas aos cultos prestigiados, mas também aos «milagres» sabiamente explorados pelas novas ordens, tornam as ruas e os adros das igrejas locais de acontecimentos, onde a vida social e cultural se extroverte em manifestações públicas. A quantidade de procissões realizadas no espaço urbano de Santarém faz da vila uma urbe de grande dinamismo e mobilidade social, talvez em correspondência com a actividade comercial e portuária e a realização de feiras, uma das quais se constitui em feira franca» (José Augusto Rodrigues)
Em finais de 1273, D. Afonso III reúne a primeira das muitas cortes que se realizaram em Santarém, cortes essas que se prolongaram até meados de 1274. Aqui se tomaram medidas importantes sobre a administração do reino e sobre os domínios da igreja.
Data do seu reinado a primeira referência aos novos paços reais, construídos junto à porta de Leiria e que tiveram como função substituir os velhos paços da Alcáçova. Um dos principais objectivos era construir um novo complexo defensivo que pudesse garantir a segurança da parte norte da vila.
Por esta época, já Santarém se assumira como um dos mais importantes centros religiosos de Portugal e da Europa medieval. A razão, encontramo-la na chegada de pregadores dominicanos e franciscanos mas também no Santíssimo Milagre da Hóstia, de 1266, que pareceu confirmar as expressões utilizada na Idade Média para designar a cidade. «Paraíso deleitoso» chamaram-lhe no tempo de D. Afonso Henriques, «paraíso de Portugal» no de D. Dinis. Clérigos, frades e teólogos scalabitanos ascenderam então à categoria de santos e bispos, no nosso país e no estrangeiro. S. Frei Gil de Santarém, Bernardo de Morlans e Santo António de Santarém chegaram mesmo a atingir projecção internacional. O primeiro destes viu a sua vida descrita em romances históricos da autoria de João Grave e Teófilo Braga.
Para além de tudo o mais, fundaram-se ao longo da centúria nada menos de cinco instituições religiosas: o convento da Trindade em 1208; o convento de S. Domingos cerca de 1220; o mosteiro das Donas em 1240; a casa dos Franciscanos dois anos depois; e o mosteiro de Santa Clara em 1259.
Nos inícios do século XIII, eram sete as paróquias constituídas em Santarém, sete na parte alta da cidade e cinco na parte baixa. Duas delas unir-se-iam em breve, Santa Iria a Velha e Santa Maria de Palhais, para dar origem a Santa Iria a Nova. Mas logo surgiriam outras quatro: S. Bartolomeu de Alfange, Santa Cruz da Ribeira, S. Mateus da Ribeira e S. Lourenço.
Cada uma das zonas em que o burgo se divida na Idade Média desempenhava o seu papel específico. Alcáçova fora o gérmen da cidade cristã e era agora o centro da fixação aristocrática; Marvila era sede de cavaleiros e mercadores, com o aljube, o açougue velho e as estalagens; S. Martinho era zona de mesteirais e comerciantes, incluindo a judiaria; S. Nicolau era zona de feira e também de prostituição. A seguir a Lisboa, Santarém assumia-se como a mais importante e mais monumental cidade do reino.
Desde que Santarém fora definitivamente tomada aos mouros, uma outra instituição católica vai assumir importância crescente: a colegiada de Santa Maria da Alcáçova. Um símbolo dos novos tempos, um símbolo do cristianismo que a partir daí dominou toda a região. Mandada construir em 1154 por D. Hugo, a igreja de Santa Maria destinava-se aos Templários, pela sua valiosa participação nas acções de Reconquista.
Os membros do Templo acabaram por se transferir para o castelo de Ceras, pelo que a igreja foi transformada em capela real. Foi a partir deste momento que se começou a formar o amplo co
nj
unto patrimonial da instituição. Um património que, ao longo dos séculos, foi possível reunir graças às habituais doações feitas pelos fiéis, que dessa forma se procuravam livrar da ameaça do inferno, mas também através da presúria e da compra.
Essas doações patrimoniais atravessavam transversalmente toda a sociedade portuguesa, da mais humilde população anónima ao próprio rei. Aliás, muitos dos monarcas, sobretudo da primeira dinastia, agraciaram a instituição em troca da celebração dos seus aniversários e dos dos seus antepassados. D. Sancho I, por exemplo, doou em 1209 mil morabitinos para a compra de herdades. Curiosamente, a lei de 1211 que proíbe a futura aquisição, por parte das corporações religiosas, de propriedades fundiárias, deixa de lado aquelas que têm como contrapartida os tais aniversários reais anteriormente referidos.
Naturalmente, a primeira situação ocorreu em maior número, como seria de esperar. Quanto à presúria, foi feita sobretudo à custa das terras conquistadas aos mouros. A compra, por seu lado, ocorreu poucas vezes na história de Santa Maria de Alcáçova, mas ainda assim, representou cerca de 7,5% do total de terrenos adquiridos até aos inícios do século XIV. Quanto à natureza destas compras, dir-se-á que desde os anos de duzentos que os cónegos de Santa Maria de Alcáçova se preocupavam sobretudo com a aquisição de património urbano. Muito mais do que com as vinhas ou com qualquer outro bem rural.
Qualquer que tenha sido a forma de aquisição patrimonial, o certo é que, em pleno século XIII, já a circunscrição da colegiada abrangia toda a região periférica de Santarém, de norte a sul e de oeste a leste. Incluíam-se nos seus bens, entre outros, a ermida de Santa Maria do Monte, o padroado de Santa Iria e Santa Cruz, um moinho no Alviela e casais em Alpiarça e em Trava. Já no século XIV, vem juntar-se àquele património a quinta do Lavradio, rendimentos sobre bens nas aldeias de Cerveira e Marmeleira, domínios em Almada, Lavradio do Ribatejo, Cortes, Seteais e Lisboa.
Dado o notável conjunto de terras de sua propriedade, a colegiada de Santa Maria de Alcáçova tinha a possibilidade de diversificar as suas culturas. Ainda assim, a vinha e a oliveira predominavam, aquela com grande implantação na zona de Alvisquer, esta em Manteigas. Quanto aos cereais, acompanhavam o curso do rio Tejo, desde Valada a Alpiarça e Traça.
As rendas dos locatários dos domínios da colegiada eram pagas através de um contrato de arrendamento, aforamento ou emprazamento. O pagamento podia ser fixo (em dinheiro ou em géneros) ou variável (percentagem das colheitas). Dezembro era o mês eleito para a maior parte das cobranças.
A partir de 1394, em virtude de uma disposição papal, o padroado da igreja passou para a Ordem de Avis. Foi nesta altura que começaram a surgir conflitos relativamente à titularidade dos bens da colegiada. A solução para resolvê-los foi clarificar os limites entre os bens que pertenciam aos cónegos, os que eram do prior e ainda os que deviam ser divididos entre as duas partes.
Mas voltemos ao século XIII. Se D. Afonso III dirigiu as suas atenções para Santarém, D. Dinis não o fez menos. Como forma de substituir a Ordem dos Templários e a sua influência no país, D. Dinis tentou junto do papa que, com os bens dos Templários, se constituísse uma nova milícia, exclusivamente portuguesa, à qual seria doada a vila fronteiriça de Castro Marim, no Algarve.
O objectivo era o de evitar que os extraordinários bens da extinta ordem fossem agora parar a mãos estrangeiras. E assim foi conseguido, em especial graças aos enviados de D. Dinis a Roma. Perante o Vaticano, conseguiram provar que a anexação dos bens dos Templários pelos cavaleiros da ordem do Hospital, como Clemente V transitoriamente fizera, seria prejudicial ao país, pelo que esses bens deviam ser incorporados numa nova ordem totalmente portuguesa.
João XXIII, em Março de 1319, autoriza, pela bula Ad ea ex quibus, passada em Avignon, a criação da ordem de Nosso Senhor Jesus Cristo, que D. Dinis já formara em 14 de Agosto do ano anterior. O monarca estava em Santarém quando, a 5 de Maio, chegou o documento pontifício, de imediato ratificado.
A insígnia dos cavaleiros de Cristo era uma cruz vermelha, de braços quase iguais, fendida no meio com outra branca. Em 1789, as insígnias de grã-cruz e comendador foi aumentada com um coração, em memória do monumento ao Santíssimo Coração de Jesus, culto que a soberana pretendia restabelecer. Viria a ser extinta em 15 de Outubro de 1910, poucos dias depois da instauração da República, e restaurada, com alterações, em 1 de Dezembro de 1918. A sua sede inicial foi Castro Marim, conforme prometido por D. Dinis, mas em 1356 voltaria para Tomar.
O «rei lavrador» já não chegaria a assistir a essa transferência de sede, pois a sua missão ficara cumprida muito antes. Morreu a 7 de Janeiro de 1325 em Santarém. O seu sucessor, D. Afonso IV, era aclamado dois dias depois, ainda e sempre em Santarém. De resto, ambos travaram lutas violentas na cidade, que chegaram a incluir a vinda de um emissário de Santiago de Compostela, vindo pelo papa, para apaziguar os ânimos e celebrar, com a sua presença, a ansiada paz.
Em 18 de Abril de 1331, D. Afonso IV vai tomar a iniciativa de transcrever integralmente o articulado do foral de 1179 e os Costumes Subsequentes. Erradamente conhecido como o Foral de D. Fernando, foi uma decisão que patenteia a ocorrência de agravamentos, por parte do rei e dos seus funcionários, às liberdades vicinais.
De resto, também D. Constança, mulher de D. Pedro I, viria a morrer na cidade em 1345; o seu filho, o rei D. Fernando, que recusou o panteão do pai em Alcobaça, viria a fazer-lhe companhia, em 1383, no seu sarcófago do convento de S. Francisco. Para tal, mandara construir alguns anos antes um coro-alto a meio da nave central, que segundo Mário Tavares Chicó é «a mais bela manifestação de arte gótica do país antes da construção do mosteiro da Batalha».
Em 18 de Janeiro de 1359, catorze anos depois da morte da esposa, D. Pedro I manda executar em Santarém Pero Coelho e Álvaro Gonçalves, conselheiros de seu pai D. Afonso IV e assassinos de Inês de Castro, o grande amor da sua vida.
D. Fernando vai assinalar de diversas formas a sua predilecção por Santarém. O chamado tratado de Santarém, de 19 de Março de 1373, foi assinado na vila e representou mais uma das muitas derrotas fernandinas face a Castela, sendo que neste caso o opositor era Henrique II, que chegou a deslocar-se a Santarém, em episódio assaz humilhante, para exigir o cumprimento do clausulado. Dois anos depois, em 1375, estava o «rei formoso» em Santarém no momento em que foi publicada a lei das Sesmarias. Finalmente, fez questão de se sepultar ao lado de sua mãe no coro-alto do convento de S. Francisco, como já se disse.
Quando o rei morre, D. Leonor Telles, a viúva, manda gritar pela cidade «Real pela rainha D. Beatriz de Portugal, nossa Senhora!», no que é apoiada pelas classes sociais superiores, interessadas nos cargos políticos e nos títulos que daí podem advir. O rei de Castela chegou a eleger Santarém sede da causa castelhana e a cunhar aqui uma nova moeda, o real de D. Beatriz, mas D. João I de Portugal viria a conquistar a cidade depois de Aljubarrota.
Para além de D. Beatriz, filha do rei D. Fernando, que era menor de idade e casada com o rei de Castela, tinham ambições os infantes D. João e D. Dinis, filhos de D. Pedro e Inês de Castro. A alta nobreza e a maior parte do clero apoiava o infante D. João ou, se este não o pudesse ser, o infante D. Dinis – argumentavam que Pedro e Inês casaram em clandestinidade, logo os filhos eram legítimos.
Quanto aos representantes dos concelhos e da baixa nobreza, apoiavam o Mestre de Avis. Durante as cortes convocadas para resolver o delicado problema, João das Regras defende que D. Beatriz era ilegítima, porque Leon

or Telles casara com D. Fernando quando ainda era casada com outro homem. Os infantes D. João e D. Dinis também eram ilegítimos, porque nunca houvera casamento entre D. Pedro I e Inês de Castro – e mesmo que tivesse havido, esse enlace era considerado nulo.
Por vir da linhagem real de D. Pedro e pelos serviços que prestara desde 1383 como Regedor, período no qual se incluiu o Cerco de Lisboa, o Mestre de Avis conseguiu obter a concordância dos presentes nas cortes e tornou-se, em 6 de Abril, depois de mais de um mês de discussão, o primeiro rei da segunda dinastia.
Numa das cortes, as de 1433, D. Duarte, que acabava de iniciar o seu reinado, fez publicar a Lei Mental. Tratou-se de uma medida de centralização régia, que tinha como objectivo defender o património da coroa e até aumentá-lo. Aliás, em virtude da publicação desta lei, muitos bens de privados foram revertidos a favor do Estado. Uma medida que fora idealizada no reinado do seu pai, D. João I, por conselho de João das Regras. Na prática, impedia-se o acesso à sucessão dos bens das esposas, dos ascendentes e dos colaterais. Apenas os filhos primogénitos e legítimos teriam acesso àquela prerrogativa. Uma forma de enriquecer a coroa, como se disse, ainda uma forma de «pôr em respeito» as classes privilegiadas, de lhe cortar as unhas e encolher os braços», no dizer de Alexandre Herculano.
Em 1449, foi de Santarém que D. Afonso V partiu para combater o infante D. Pedro, num recontro que teria lugar em Alfarrobeira e que culminaria com a morte de um dos membros da Ínclita Geração.
A 10 de Novembro de 1477, o príncipe D. João é aclamado rei em Santarém, depois da abdicação de Afonso V, que decidira dedicar-se à religião, mas só virá a suceder-lhe verdadeiramente em 1481, por morte do monarca.
Finalmente, é D. Manuel I que vai conceder foral a Santarém, em 1 de Fevereiro de 1506. Numa política de centralização da política régia, que se estendeu a todo o país, o foral foi adaptado à lei geral em vigor no país. Esta reforma, que se estendeu a todo o país, era há muito reivindicada, pelo menos desde o reinado de D. Afonso V, pelos vários concelhos do reino, que se sentiam pressionados e oprimidos por disposições muito antigas.
As preocupações centralizadoras modernas estão bem presentes no texto do foral, mas as tabelas tributárias arcaicas, aproveitadas de um passado distante, mantêm-se. É dado grande destaque à portagem, imposto pago ao rei pela entrada e saída de mercadorias da vila. Estavam isentos do seu pagamento ermitães, clérigos das ordens sacras, frades, freiras e beneficiados das várias igrejas. Para além disso, produtos como pão cozido, bolos, biscoito, queijadas, folares, farelos, cal, cinza, bagaço de azeitona, ovos, leite, nata, queijos frescos, requeijões, manteiga crua, gado e outros animais, uvas, figos verdes, favas verdes, hortaliças, carqueja, tojo, palha, vassouras e outros também estavam isentos.
Em termos judiciais, o assalto à residência alheia, o homicídio e a violação eram os crimes considerados mais graves. A pena podia variar, consoante o crime fosse cometido dentro ou fora da cidade. Mulheres e indivíduos com menos de doze anos não poderiam ser castigados em nenhuma circunstância.

Santarém e os Descobrimentos

Santarém participou activamente na grande gesta dos Descobrimentos. Não foi daqui que partiram as caravelas, mas foi aqui que se tomaram muitas das mais importantes decisões políticas e estratégicas; e foi aqui que se reuniram muitos dos meios materiais e humanos necessários à consecução dos objectivos propostos e das directrizes traçadas.
É possível, dentro da cidade, fazer a rota do norte de África, do Oriente ou do Brasil, como propõem alguns roteiros, evocando figuras que nasceram ou viveram em Santarém, obras de arte oriundas daquelas regiões, túmulos de descobridores, conquistadores e governadores. Não é por acaso que no Brasil há cidades com os nomes de Santarém (do Pará) e Almeirim.
Foi uma das povoações que mais gente forneceu para a expansão marítima. É visível esta realidade no número de escudeiros scalabitanos que estava na casa do infante D. Henrique e no número de famílias nobres daqui naturais que se envolveram nas guerras de África, das quais o melhor exemplo é o caso de D. Duarte de Meneses na batalha de Alcácer-Quibir.
Três governadores de Ceuta, dois capitães de Tânger, um capitão de Alcácer-Ceguer, um governador da Mina e vários vice-reis e governadores da Índia nasceram em Santarém. Foi em Santarém que, em Maio de 1487, D. João II organizou parte da viagem que no ano seguinte culminaria com a chegada à Índia de Vasco da Gama. Naquela data, o monarca incumbia Pêro da Covilhã e Afonso de Paiva de irem à Índia por terra para recolherem informações sobre as rotas das especiarias e o poder militar dos reinos orientais. Em Santarém viveu e morreu, em 1520, Pedro Álvares Cabral. Fernão Lopes de Castanheda, o mais importante historiador dos Descobrimentos, era também natural de Santarém.
De Santarém partiam manufacturas (panos, linho e curtumes), minérios (metálicos ou não) e produtos agrícolas e silvícolas (madeiras, vinhos, cereais, azeite, mel e cera). Partiam inicialmente para Lisboa, mas o destino final era os territórios ultramarinos.
Foi no concelho de Santarém que, a partir do século XVI, se procedeu às primeiras plantações de pinhais, para acorrer às necessidades da construção naval e de madeira e lenha para Lisboa.
De todos os territórios ultramarinos, foi com a Mina que Santarém estabeleceu laços mais fortes. Dali vinha o ouro, os escravos e a pimenta de rabo. Os dois navegadores que a descobriram, em 1471, estavam ligados à vila. João Afonso de Santarém era daqui natural, Pero Escobar tinha ligações familiares. Fernão Lourenço da Mina, tesoureiro da feitoria em meados do século XVI, tinha propriedades em Santarém.
Com a Índia, Santarém estabeleceu também um contacto estreito. Daqui partiram por terra, rumo à Índia e à Abissínia, em Maio de 1487, Pero da Covilhã e Afonso de Paiva. Naturais de Santarém eram muitos dos portugueses que viveram na Índia, entre 1500 e 1530, como capitães (Rui de Brito, Vasco de Lima, Tristão de Paiva e Lopo de Sousa Coutinho), pilotos (João Leite, Fernando de Lima), escrivães de naus (Garcia Mendes, João Fernandes de Sau e Gonçalo Gil Barbosa, escrivão da armada da Pedro Álvares Cabral) e soldados (António de Sá, Rui de Melo, João Guedes, Jorge de Mascarenhas), muitos deles com vasto património na vila. Os Bobadilhas, os Saldanhas, os Anaias, os Patalins, os Cabrais e os Noronhas, todos com ligações à vila, andaram pela Índia. A própria toponímia é o reflexo desta realidade. Nomes como Paul do Arroz não existiam antes do século XVI.
Alguns missionários naturais de Santarém encontram-se entre os ocidentais que se fixaram no Japão, como Gabriel de Maria, autor das Cartas do Japão (1603-1614) e da Relação da perseguição que teve a cristandade do Japão desde Maio de 1612 até Novembro de 1614, livro impresso em Lisboa em 1618.
Quanto ao Brasil, a ligação é reforçada pela toponímia e pela genealogia. Daqui eram naturais Francisco Pereira Coutinho, primeiro donatário da capitania de Salvador da Baía, Estácio de Sá, fundador da cidade do Rio de Janeiro, e D. Diogo de Meneses, governador do Brasil.
A vida quotidiana de Santarém foi muito influenciada pela expansão e em especial pela Mina. Era necessário abastecer o comércio com aquela feitoria, sobretudo através da produção de tecidos listados, os alambéis, que iam servir para as trocas comerciais com os africanos. O maior centro de produção de alambéis em Portugal era a Ribeira de Santarém, sendo que a cidade tinha o monopólio da sua venda para a Mina.
A actividade era tão importante que o foral de 1506 refere-se expressamente aos alambéis, como um dos panos a pagar portagem, a exemplo da restante «roupa

mourisca». Em 1537, estão registados em Santarém vinte e um empresários que se dedicavam à produção dos alambéis. Sob a jurisdição daqueles, trabalhavam certamente muitos tecelões e tintureiros. Para os fabricantes de alambéis, os privilégios concedidos por D. Manuel I eram grandes, desde que vivessem em Santarém.
Outra das importantes consequências da expansão em Santarém foi a acumulação de capital. O dinheiro era usado para comprar objectos de luxo ou que, pelo menos, reflectissem um nível de vida que os seus proprietários não tinham: castiçais, copos, colheres, taças, anéis e relicários, tudo em ouro e prata.
O enriquecimento de igrejas e conventos vai ser uma das consequências imediatas destas vastas riquezas que, muitas das vezes, lhes eram deixadas em testamento. Foi o caso de D. Margarida de Aragão, viúva de Pêro Vaz Soares, que em 1506 deixou um cálice de prata à igreja do Salvador, entre outras doações.
Ao mesmo tempo, à medida que a agricultura ia empobrecendo, as terras iam-se tornando mais baratas. E as instituições religiosas aproveitavam para investir, aumentando dessa forma o seu património imobiliário.
«Mas são muito mais impressionantes os objectos que afluem dos novos mundos: pentes, espelhos e colheres de marfim; peças de brocado, esteiras e catres da Índia, mesas de cedro, panos da Índia, alcatifas de Cambaia, vasquinhas de Cataio, bandejinhas da Índia, porcelanas, grãos de aljôfar, especiarias e tantas outras sugestões exóticas que povoavam as imaginações de fascínio e abarrotavam de gente as naus da Índia.» (Maria Ângela Beirante)
Desse período de grandeza da história de Portugal, Santarém guarda inúmeros vestígios. Os seus monumentos, que adiante descreveremos em capítulo próprio, são o testemunho vivo dos séculos de ouro da cidade.
Com esses monumentos, é possível seguir uma verdadeira rota dos Descobrimentos. Também lhe poderíamos chamar rota da Memória, porque é disso mesmo que se trata, de recordar em conjunto a memória de um povo e de uma nação que foi grande e que hoje se ufana, porque mais nada lhe resta para se orgulhar, das suas recordações.
Podem-se estabelecer três itinerários nesta rota dos Descobrimentos: o itinerário de África, o itinerário do Oriente e o itinerário do Brasil e Novo Mundo. São três etapas que, no fundo, simbolizam um único momento, o momento expansionista português.
O itinerário africano inclui a igreja de Santa Maria da Graça (onde se encontra sepultado, entre outros, o primeiro capitão de Ceuta, D. Pedro de Meneses), a igreja de S. João do Alporão (túmulo do capital-general Duarte de Meneses), a igreja de Santa Cruz da Ribeira e o convento de S. Francisco (vários túmulos de figuras ligadas à exploração e conquista do norte de África).
O itinerário oriental é composto pela igreja do Santíssimo Milagre (arte), pela igreja da Misericórdia (túmulo de um vice-rei da Índia), pela igreja da Nossa Senhora da Graça, pelo convento de S. Francisco e pela ermida da Senhora do Monte (vários túmulos).
O itinerário do Brasil e do Novo Mundo, por fim. A presença de Pedro Álvares Cabral, em Santarém para morrer, será o facto mais significativo da ligação entre Santarém e as terras de Vera Cruz. Neste itinerário, pode ver-se a igreja de Santa Maria da Graça, com o túmulo do descobridor, e logo ao lado a Casa do Brasil, centro cultural de apoio à divulgação da epopeia de Pedro Álvares Cabral e das relações luso-brasileiras que ocupa o espaço eventualmente habitado pelo navegador. Num dos lados da praça, a estátua daquele, da autoria de Soares Branco (1971). Visite-se ainda a igreja do convento da ordem terceira de S. Francisco (lápide de D. Joana Coelho, filha do capitão de Cabo Verde Jerónimo Coelho); a igreja do colégio da Companhia de Jesus de Santarém (várias pinturas relativas à expansão, entre as quais a de um ameríndio do Brasil); a ermida da Senhora do Monte (renovada por Lopo de Sousa Coutinho, militar do primeiro cerco de Diu e capitão de S. Jorge da Mina, conserva a sepultura de Duarte Sodré, um ascendente de Vasco da Gama).

A ARTE (8)

A ARTE (8).

Para que serve a Arte?
Para quem cria, a obra é um processo de aprendizagem permanente. A criação espevita a nossa reflexão, desenvolve todo o processo de humanização, cria uma singular afinidade com a consciência, aproxima-nos de todos os mecanismos de identificação da verdade, afina as emoções e os sentimentos, apura o sentido da beleza, da ética, da estética e até da justiça, dado que esta se pode considerar fruto da harmonia e do equilíbrio, as grandes traves da Arte e da verdadeira vida.
A Arte é uma relação de vida. A montante e a jusante da Arte existem as emoções e os sentimentos. A montante prevalecem as emoções e os sentimentos do autor da obra, a jusante predominam as emoções e os sentimentos daqueles que contemplam a obra criada. Pode dizer-se que a Arte é uma espécie de degrau entre este desnível do mundo interior e do mundo exterior, uma espécie de portal entre duas dimensões, o principal factor na equação que um dia poderá resolver o problema da paz individual e colectiva.
Quando alguém produz uma chamada obra de Arte, neste caso uma pintura, introduz na tela toda a sua vida, ainda que inconscientemente, todas as suas vivências, todas as suas memorizações, todas as suas aprendizagens, todas as suas emoções, todos os seus sentimentos, paixões e devaneios, todas as suas frustrações, todas as suas potencialidades reflexivas, toda a sua cultura, toda a sua visão do mundo e das coisas. Quem contempla essa obra não vai ver a obra do autor mas a sua própria obra, a obra de quem a vê, dado que vai contemplá-la através das suas próprias vivências, através da sua cultura, das suas emoções, dos seus sentimentos, da sua visão do mundo e das coisas, que podem não ter nada a ver com os elementos da estrutura mental do criador da obra. A contemplação de um quadro não exige forçosamente uma análise intelectiva. É muito mais importante o impacto que a obra produz no espectador. Ela actua sobre o seu sentir e não só sobre a sua inteligência. Claro que um espectador pouco inteligente, sem imaginação, sem sentimento artístico, vazio de ideias e de ideais, não verá nada. A obra funciona de estímulo, mais ou menos poderoso e profundo, capaz de desencadear toda uma cascata de sentimentos no observador, por vezes muito mais intensos do que os do criador, podendo ter a força requerida para desnudar o seu íntimo e arrancar-lhe emoções muitas vezes desconhecidas, apagadas ou esquecidas no mais recôndito dos seus arquivos mentais. (Continua).

                     (adão cruz)

(adão cruz)

TRIBUNAIS? JUSTIÇA? O QUE É ISSO?

Ratzinger

POEMAS DO LUSCO-FUSCO

Passei a vida a correr
tropeçando nas sombras
arrumei ao canto da luz mil horas vazias
a curricular futuros
para ser gente na praça dos homens.
Pisei os passos pequeninos
nos avessos da verdade
e palmilhei léguas
a tossir poeira.
Peregrino de ilusões
fui renascendo de amor
nos infinitos da fantasia
que os outros mataram.

                            (adão cruz)

(adão cruz)

QUADRA DO DIA

Jardim e outros que tais
Lá da opus e quejandos
Aprenderam bem de mais
Que costumes não são brandos.

ISTO DÁ-ME QUE PENSAR

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JOVEM RETIRADA AOS PAIS, POR… QUERER VELEJAR SOZINHA

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Até daqui a dois anos, Laura, se tudo correr bem, poderão dizer os pais, que vêm a sua família destruída pela justiça do seu país.

Há crueldade neste caso? Da parte de quem?

E se a menina decidir ir de qualquer maneira, sem apoio seja de quem for? De quem é a responsabilidade?

Estado demasiado proteccionista, ou Estado como deve ser?

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Desde os seis anos que a pequena veleja.

Tem quase quatorze. Uma vida inteira no mar.

Há três anos, com onze de idade, Laura já passara todo o verão a velejar sozinha.

Agora queria ser a pessoa mais jovem de sempre a dar uma volta solitária ao mundo.

Os pais, da menina holandesa, cientes das capacidades da sua filha, apoiam-na e pediram uma licença especial à escola, para que pudesse faltar durante dois anos.

As entidades holandesas, meteram-se no assunto e não só impedem a jovem de realizar o seu sonho, como retiraram a seus pais a sua tutela.

O caso está em tribunal para que cesse a autoridade dos pais sobre a menor, conforme pedido do Conselho Holandês para a Protecção da Criança.

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Decididamente, isto dá-me que pensar.

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CHEGOU O PROGRAMA A4

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SUCINTO E OBJECTIVO
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A classificação não é minha, é da sra dra Manuela Ferreira Leite.
O programa não é remédio para os males do nosso País.
A palavra de ordem é suspender e reavaliar.

Não é possível fazer tudo ao mesmo tempo.

Os cinco eixos principais do programa  são, a economia, a solidariedade, a saúde, a justiça e a segurança.

CAV e auto-estradas, suspensas e reavaliadas.
Novo aeroporto será feito aos soluços.

Avaliação dos professores será imediatamente suspensa.
Aumento do emprego e redução do número de deputados para 180.
Fomentar o investimento privado, nacional e estrangeiro, e eliminar os constrangimentos que se põem às empresas.
Afinal há programa, apesar do que se tem ouvido por aí.
O programa está apresentado, havendo agora trinta dias para que os votantes o estudem e reajam em conformidade.
Os outros partidos, como é evidente, vão achar mal, demagógico e populista.
A última palavra é a do povo, no dia 27 de Setembro.

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Quem dá esmola a um rico empresta a Manuela Ferreira Leite

Da blogosfera…

“O Aprendiz de Jurista

28 Agosto, 2009 às 2:47 am

«O mesmo se pode dizer das proclamações de combate à corrupção – o melhor seria anunciar, desde já, o dr. Preto para ministro da Justiça para dar melhor credibilidade à coisa.»

Meu caro CAA não lhes dê ideias…”.

Da blogosfera…

O Aprendiz de Jurista

28 Agosto, 2009 às 2:47 am

«O mesmo se pode dizer das proclamações de combate à corrupção – o melhor seria anunciar, desde já, o dr. Preto para ministro da Justiça para dar melhor credibilidade à coisa.»

Meu caro CAA não lhes dê ideias…

Colocações de professores ja sairam

Ver aqui.
(Aqui o vosso amigo ficou em Valbom, a 5 minutos de casa. Ao fim de 16 anos, já merecia, eh, eh).