Antologia de pequenos contos insólitos: O Peão

Apresentamos um conto do grande escritor norte-americano Ray Bradbury (1920), autor de livros de ficção-científica, sendo The martian chronicles, 1950 – «O Mundo Marciano», na edição portuguesa, o mais conhecido. Escreveu também «Fahrenheit 451», adaptado ao cinema por François Truffaut. «O Peão» é extraído de «S is for space» (1970). Uma noite, ao sair de um restaurante em Los Angeles, apeteceu-lhe passear a pé. Um polícia mandou-o parar, perguntando o que fazia ele andando pela cidade. Nessa mesma noite escreveu «O Peão».
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Penetrar naquela quietude que era a cidade às oito horas de uma nebulosa noite de Novembro, pousar os pés sobre o sólido passeio de cimento, pisar as fendas com ervas, e andar, de mãos nos bolsos, pelos silêncios, era o que o Sr. Leonard Mead mais gostava de fazer. Ficaria numa esquina de um cruzamento, olhando as ruas banhadas pelo luar nas quatro direcções, decidindo por onde ir, mas realmente, não faria diferença; estava sozinho, neste mundo de 2053 a.D., ou, como se estivesse só. Tomada uma decisão definitiva, escolhido um caminho, começaria a andar, soltando baforadas de ar congelado à sua frente, como o fumo de um cigarro. Às vezes, andava durante horas, milhas, e voltava para casa só à meia-noite. E, no caminho, via casas, grandes e pequenas, com as suas janelas escuras; era como caminhar por um cemitério, pois só leves clarões de luz fantasmagórica eclodiam por detrás das janelas. Súbitos e cinzentos espectros pareciam surgir sobre as paredes das salas, onde uma cortina ainda estava aberta para a noite, ou cicios e murmúrios onde uma janela num edifício-túmulo estava ainda aberta.
O Sr. Leonard Mead parava, inclinava a cabeça, ouvia, olhava, e continuava a marcha, os pés sem fazer ruído no pavimento irregular. Há muito que, prudentemente, passara a usar sapatos de ténis para passear à noite, porque os cães, em alguns quarteirões, seguiriam a sua caminhada com latidos, se usasse calçado com sola de couro, as luzes poderiam acender-se, e rostos aparecer, toda uma rua se alvoroçar com a passagem de um vulto solitário; ele mesmo, no começo de uma noite de Novembro.
Nesta noite, em particular, tomara a direcção Oeste, rumo ao mar, invisível. Havia um frio cristalino no ar que cortava o nariz e fazia os pulmões arder por dentro, como uma árvore de Natal; podia-se sentir as luzes acendendo e apagando, os ramos cheios de uma neve invisível. Escutava com prazer o calçado macio empurrando delicadamente as folhas de Outono, assobiava frio e baixinho, entre dentes, arrancando ocasionalmente uma folha de passagem, examinando o desenho esqueletal, à luz de um raro candeeiro público, enquanto caminhava, aspirando seu odor ferruginoso.
— Ó da casa — murmurava para cada casa, por todo lado, enquanto passava. — O que passa hoje no Canal 4; Canal 7; Canal 9? Para onde estão correndo os “cow-boys”, e onde está a Cavalaria dos Estados Unidos, para sair daquela colina, e salvar a situação?
A rua silente, longa, vazia, apenas com a sua sombra movendo-se, como a sombra de um falcão, no meio de uma planície. Fechou os olhos, e permaneceu imóvel, gelado. Podia imaginar-se no meio de uma planície, numa pradaria americana, sem ventos, inverno, sem qualquer casa num raio de mil milhas – só leitos secos de rios, como aquelas ruas.
— E agora, o que temos? — perguntou para as casas, olhando o relógio de pulso — Oito e meia? Hora de uma dúzia de episódios de assassínios? Um concurso? Um musical? Um comediante tropeçando e caindo do palco?
Terá ouvido um murmúrio de risos, vindo de uma das casas brancas ao luar? Hesitou, mas continuou, quando nada mais aconteceu. Tropeçou numa irregularidade maior do passeio. O cimento estava a desaparecer, sob flores e mato. Em dez anos de caminhada, noite e dia, por milhares de milhas, nunca encontrara outra pessoa passeando, nunca, nem uma só vez. Chegou a um cruzamento deserto, onde duas avenidas principais atravessavam a cidade. Durante o dia, era uma trovejante corrente de carros, os postos de gasolina abertos, um grande farfalhar de insectos, e um incessante mudar de posição, enquanto os carros-escaravelho, uma névoa de incenso saindo dos tubos de escape, corriam para casa, nas mais diversas direcções. Mas agora, estas estradas, eram como os leitos de rios secos no Verão, banhados pelo luar.
Virou numa rua secundária, de regresso a casa. Estava a um quarteirão de chegar, quando, subitamente, um carro solitário dobrou a esquina e fez incidir um forte cone de luz branca sobre ele. Deteve-se, aturdido, como uma borboleta, atordoado pela luz, mas por ela atraído.
Uma voz metálica advertiu-o:
— Fique onde está! Não se mova!
Parou.
— Levante as mãos!
— Mas… – disse ele.
— Mãos para cima! Ou atiramos!
A polícia, claro, mais que coisa rara, incrível; numa cidade de três milhões de habitantes, restava só um carro de polícia, não era isso? Já havia um ano, desde 2052, o ano das eleições, que a força policial havia sido cortada de três para um carro. O crime estava a desaparecer; não havia necessidade de polícia, excepto este carro solitário vagueando pelas ruas desertas.
— O seu nome? — disse o carro, num chiado metálico. Ele não podia ver os guardas lá dentro, por causa da luz muito forte nos seus olhos.
— Leonard Mead — respondeu.
— Mais alto!
— Leonard Mead!
— Negócio, ou profissão?
— Acho que me pode considerar um escritor.
— Sem profissão — disse o carro-patrulha, como que falando sozinho. A luz mantinha-o fixado como um espécime de museu, com uma agulha espetada no meio do peito.
— Pode-se dizer-se assim — afirmou o Sr. Mead. Havia anos que não escrevia. Já não se vendiam livros e revistas. Tudo continuava como sempre nas casas-túmulos, à noite, pensou. Os túmulos, mal iluminados pela luz da televisão, onde as pessoas se sentavam como os mortos, as luzes cinzentas ou multicoloridas tocando suas faces, mas nunca tocando o seu íntimo.
— Sem profissão — chiou a voz fonográfica. – O que está a fazer cá fora?
— A passear — disse Leonard Mead.
— A passear?
— Só a passear — disse, simplesmente, percorrido por um arrepio.
— Passeando, passeando, passeando?
— Sim, senhor.
— Indo para onde? Para quê?
— Para apanhar ar. Passeando para ver.
— A sua morada.
— Onze, Sul, rua Saint James.
— E não há ar na sua casa; o senhor não tem ar condicionado, Sr. Mead?
— Sim.
— E tem uma tela visora, na sua casa?
— Não.
— Não? — Houve uma interrupção crepitante, que em si era já uma acusação.
— É casado, Sr. Mead?
— Não.
— Não casado — disse a voz policial atrás do facho, que queimava. A luz estava alta e clara, por entre as estrelas, e as casas escuras e silenciosas.
— Ninguém me quis — disse Leonard Mead, sorrindo.
— Não fale, a menos que seja interpelado!
Leonard Mead esperou, sob a fria noite.
— Apenas passeando, Sr. Mead?
— Sim.
— Mas ainda não explicou com que propósito.
— Já expliquei; para apanhar ar, ver, e simplesmente pelo prazer de andar.
— Já fez isso muitas vezes?
— Todas as noites, há anos.
O carro-patrulha estava estacionado no meio da rua, com sua garganta de rádio zumbindo fracamente.
— Bem, Sr. Mead — disse.
— Isso é tudo? — perguntou, polidamente.
— Sim — respondeu a voz. — Por aqui. — Houve um sopro, e um estalido. A porta traseira do carro da polícia escancarou-se. — Entre.
— Olhe lá, eu não fiz nada!
— Entre.
— Protesto.
— Sr. Mead.
Avançou como um homem subitamente embriagado. Ao passar pela janela dianteira do carro, olhou para o interior. Como esperava, não havia ninguém no ass
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to dianteiro, não havia ninguém no carro.
— Entre.
Pôs a mão na porta e olhou para o banco traseiro, que era uma pequena cela, uma pequena cela escura, com grades. Cheirava a aço rebitado e a anti-séptico forte; um intenso odor higiénico, metálico. Nada era macio, ali dentro.
— Se tivesse uma esposa que lhe desse um álibi — disse a voz de aço. — Mas…
— Para onde me vai levar?
O carro hesitou, ou melhor, houve um zumbido abafado, como se a informação, algures, fosse dada por cartões perfurados, e olhos eléctricos — Ao Centro Psiquiátrico de Pesquisa sobre Tendências Regressivas.
Entrou. A porta fechou-se com um som abafado. O carro da polícia rodou pelas avenidas, a meio à noite, com os faróis acesos.
Passaram por uma casa, numa rua, um momento depois, uma casa, em toda uma cidade de casas escuras, mas esta casa, em particular, tinha todas as luzes bem acesas, cada janela uma berrante iluminação amarela, quadrada e quente na fria escuridão.
— Aquela é minha casa — disse Leonard Mead.
Ninguém respondeu.
O carro foi pelas ruas vazias, como leitos de rios secos, afastando-se, deixando as ruas vazias, com os seus passeios vazios, sem som nem movimento, na fria noite de Novembro.(1)

(1) Extraído de E de Espaço © 1978 by Hemus-Livraria Editora Ltda -Título original: S is for Space © 1966 by Ray Bradbury.

Santarém, Capital do Gótico


O facto de me ter tornado, de repente e contra minha vontade, uma figura de culto da blogosfera, obriga-me a ver o que se escreve por aí com um olhar diferente. Há coisas que me fazem sorrir, algumas outras que me fazem rir a bandeiras despregadas.
Anda por aí um gentil rapazola com umas ideias assaz estranhas sobre o património edificado de Santarém. É um mocinho arrojado, com qualidades, e muito me desgostou, há umas semanas atrás, que tenha anunciado o seu abandono da blogosfera. Talvez porque não tenha havido uma única alma caridosa a pedir-lhe para não ir embora, decidiu regressar. Fico contente, caso contrário não teríamos estes momentos de boa disposição.
No entanto, penso que devo intervir perante os dislates que têm sido escritos pelo simpático garoto. Não é por nada. É que, por uma questão de idade e de estatuto, devo-lhe esta pequena ajuda. Afinal, ninguém gosta de ver os outros a cometer erros, e a mim não me custa nada dar a mão a quem precisa.
Assim sendo, passarei a publicar, a partir de amanhã, alguns excertos da obra «Santarém: Capital do Gótico», por mim publicada, em 2004, sob o Alto Patrocínio da Câmara Municipal de Santarém. A parte relativa ao património edificado, como é óbvio, é aquela que, neste contexto, mais interessa. Dedico-a, com sincera amizade, ao esforçado ganapo.

DEUS COMO PROBLEMA OU A COMPLEXA SIMPLICIDADE DA EVIDÊNCIA (14)

Deus como problema ou a complexa simplicidade da evidência (14)

Os que comem tudo e não deixam nada, os que movem os cordéis de todas as marionetas deste mundo, os que fazem a fome para que não lhes falte a fartura têm casas de ouro, férias para descansar de não fazer nada, hospitais de luxo, o céu garantido aqui na terra e lá em cima, nas primeiras filas que o Vaticano sempre lhes reservou durante séculos. No meio deste cenário parece nascer, por vezes, um raio de luz… encarnando o arrependimento divino em pessoas como Leonardo Boff e tantos outros, mas logo surgem da sombra vigilantes cardeais e papas como João Paulo II e Bento XVI, de mãos dadas com as catedrais do dinheiro, a representar uma Igreja retrógrada e absolutista, fortemente entrosada com os poderes opressores, na cruzada contra toda e qualquer Teologia da Libertação, contra toda e qualquer filosofia política de amor, fraternidade e solidariedade para com os condenados da terra.
Não, José Saramago, venha o diabo e escolha. Mas o Deus de cá e o Deus de lá têm-se mostrado bastante diferentes.
Meu caro Saramago a quem muito considero, corroídos o discurso crítico e o cérebro, quase só nos resta, como diz e muito bem, ficarmos todos loucos ou então…acreditar em Deus. (Fim).

                          (adão cruz)

(adão cruz)

A ARTE (3)

A ARTE (3)

Aqui chegados, embora por caminhos muito simplistas, não é difícil compreender que esta criação mental gerada a partir das coisas e da Natureza, transformadas pelo mundo interior do artista e plasticamente traduzidas em beleza por mãos ensinadas quer geneticamente quer de forma adquirida, só ganha vida se correr pelas suas veias o sangue da poesia. Por isso eu digo que a poesia é a alma de qualquer obra de Arte. A poesia percorre transversalmente qualquer forma de expressão artística, e seja qual for essa forma, plástica, literária ou musical, só é expressão artística se contiver dentro de si a essência poética, essa mágica, nobre e sublime forma de expressão da vida. Arte e beleza são uma espécie de irmãs gémeas. A beleza pode considerar-se a corporização da Arte. A beleza reflectida à nossa volta não é mais do que a imagem do espelho que reflecte a Arte contida dentro de nós mesmos, como organização estética do nosso interior e da nossa vida. É ela que nos faz imaginar, pensar, sonhar e criar. A falta da apreensão da beleza e a ausência da reacção emotiva da sua percepção leva a que tudo à nossa volta seja inestético, desadequado e agressivo, daí decorrendo uma construção negativa do nosso mundo interior. A falta de apreensão ou a degradação do conceito de beleza implica uma igual degradação da forma de sentir e de existir, por perda do nosso interesse estético sobre o mundo e as coisas, e do mundo e das coisas sobre nós próprios. Sem este impacto estético não há forma simples e positiva de ver a vida e entender a Arte. (Continua).

                 (adão cruz)

(adão cruz)

TIREM AS CONCLUSÕES QUE ENTENDEREM

Afinal quem são os piratas?

Quem imaginaria que em 2009, os governos do mundo declarariam uma nova Guerra aos Piratas? No instante em que você lê este artigo, a Marinha Real Inglesa – e navios de mais 12 nações, dos EUA à China – navega rumo aos mares da Somália, para capturar homens que ainda vemos como vilões de pantomima, com papagaio no ombro. Mais algumas horas e estarão bombardeando navios e, em seguida, perseguirão os piratas em terra, na terra de um dos países mais miseráveis do planeta. Por trás dessa estranha história de fantasia, há um escândalo muito real e jamais contado. Os miseráveis que os governos “ocidentais” estão rotulando como “uma das maiores ameaças do nosso tempo” têm uma história extraordinária a contar e, se não têm toda a razão, têm pelo menos muita razão.
O governo da Somália entrou em colapso em 1991. Nove milhões de somalianos passam fome desde então. E todos e tudo o que há de pior no mundo ocidental rapidamente viu, nessa desgraça, a oportunidade para assaltar o país e roubar de lá o que houvesse. Ao mesmo tempo, viram nos mares da Somália o local ideal onde deitar todo o lixo nuclear do planeta.
Exactamente isso: lixo atómico. Mal o governo se desfez (e os ricos partiram), começaram a aparecer misteriosos navios europeus no litoral da Somália, que deitavam ao mar contentores e barris enormes. A população do litoral começou a adoecer. No começo, erupções de pele, náuseas e bebés malformados. Então, com o tsunami de 2005, centenas de barris enferrujados e com vazamentos apareceram em diferentes pontos do litoral. Muita gente apresentou sintomas de contaminação por radiação e houve 300 mortes.
Quem conta é Ahmedou Ould-Abdallah, enviado da ONU à Somália: “Alguém está deitando lixo atómico no litoral da Somália. E chumbo e metais pesados, cádmio, mercúrio, encontram-se praticamente todos.” Parte do que se pode rastrear leva directamente a hospitais e indústrias europeias que, ao que tudo indica, entrega os resíduos tóxicos à Máfia, que se encarrega de “descarregá-los” e cobra barato. Quando perguntei a Ould-Abdallah o que os governos europeus estariam fazendo para combater esse “negócio”, ele suspirou: “Nada. Não há nem descontaminação, nem compensação nem prevenção”.
Ao mesmo tempo, outros navios europeus vivem de pilhar os mares da Somália, atacando uma das suas principais riquezas: pescado. A Europa já destruiu seus stocks naturais de pescado pela sobre-exploração e, agora está sobre explorando os mares da Somália. A cada ano, saem de lá mais de 300 milhões de Atum, camarão e lagosta; que são roubados anualmente, por pesqueiros ilegais. Os pescadores locais tradicionais passam fome.
Mohammed Hussein, pescador que vive em Marka, cidade a 100 Quilómetros ao sul de Mogadishio, declarou à Agência Reuters: “Se nada for feito, acabarão com todo o peixe de todo o litoral da Somália”.
Esse é o contexto do qual nasceram os “piratas” somalianos. São pescadores somalianos, que capturam barcos, como tentativa de assustar e dissuadir os grandes pesqueiros; ou, pelo menos como meio de extrair deles alguma espécie de compensação.
Os somalianos chamam-se “Guarda Costeira Voluntária da Somália”. A maioria dos somalianos conhece-os sob essa designação. [Matéria importante sobre isso, em The Armada is not a solution”.] Pesquisa divulgada pelo site somaliano independente WardheerNews informa que 70% dos somalianos aprovam firmemente a pirataria como forma de defesa nacional”.
Claro que nada justifica a prática de fazer reféns. Claro, também, que há gangsters misturados nessa luta – por exemplo, os que assaltaram os carregamentos de comida do World Food Programme. Mas em entrevista por telefone, um dos lideres dos piratas, Segule Ali, disse: “Não somos bandidos do mar. Bandidos do mar são os pesqueiros clandestinos que saqueiam o nosso peixe.” William Scott entenderia perfeitamente.
Porque os europeus supõem que os somalianos deveriam deixar-se matar de fome passivamente pelas praias, afogados no lixo tóxico europeu, e assistir passivamente os pesqueiros europeus (entre outros) que pescam o peixe que, depois, os europeus comem elegantemente nos restaurantes de Londres, Paris ou Roma? A Europa nada fez, por muito tempo. Mas quando alguns pescadores reagiram e se intrometeram no caminho pelo qual passa 20% do petróleo do mundo… imediatamente a Europa despachou para lá os seus navios de guerra.
A história da guerra contra a pirataria em 2009 está muito mais claramente narrada por outro pirata, que viveu e morreu no século IV AC. Foi preso e levado à presença de Alexandre, o Grande, que lhe perguntou “o que pretendia, fazendo-se de senhor dos mares.” O pirata riu e respondeu: “O mesmo que você, fazendo-se senhor das terras; mas, porque meu navio é pequeno, sou chamado ladrão; e você, que comanda uma grande frota, é chamado de imperador. ”Hoje, outra vez, a grande frota europeia lança-se ao mar, rumo à Somália – mas… quem é o ladrão?
Autor: Um cidadão do mundo

Adeus Morais e Castro

Morreu hoje o actor Morais e Castro, que em 2006 comemorou 50 anos de carreira. Vítima de cancro.

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José Armando Tavares de Morais e Castro nasceu em Lisboa a 30 de Setembro de 1939. Actor e encenador, Morais e Castro era também licenciado em Direito pela Universidade de Direito de Lisboa, tendo igualmente exercido a profissão de advogado.

Foi dirigente do Partido Comunista Português (PCP), que serviu desde muito cedo, e era casado com a actriz Linda Silva. Fez a estreia com o Grupo Cénico do Centro 25 da Mocidade Portuguesa, ainda estudante do secundário. A sua estreia a nível profissional foi no Teatro do Gerifalto,em A Ilha do Tesouro.

Em 1958 estreou-se na televisão intrepretando “O rei veado”, de Carlo Gozzi, realizado por Artur Ramos.

Em 1968, com Irene Cruz, João Lourenço e Rui Mendes, fundou o Grupo 4, no Teatro Aberto, levando à cena autores como Peter Weiss, Brecht, Peter Handke e Boris Vian.

Já em 1985 integra o elenco da comédia Pouco Barulho, com Nicolau Breyner, passando depois pela Companhia Teatral do Chiado. Com Mário Viegas fez o imortal À espera de Godot, de Samuel Beckett.

Em 2004, dirigido por Joaquim Benite, interpretou O fazedor de teatro, de Thomas Bernard, com a Companhia de Teatro de Almada, que lhe valeu a Menção Honrosa Crítica nesse ano.

Nas décadas de 1980 e 1990 participou em diversas novelas e séries portuguesas de televisão. Um dos sucessos mais populares ocorreu entre 1996 e 1998, com as As lições do Tonecas, ao lado de Luís Aleluia.

Entrevista de Morais e Castro à SPA.

Pobre demagogia / Rica ignorância

O PS está de cabeça perdida e promete coisas rídiculas todos os dias. Agora, depois de ter aumentado todos os impostos, vem dizer que os ricos podem pagar mais impostos. Poder podem, mas na verdade de pouco serve. Nas mais valias e nos rendimentos de capital onde a taxação tem margem, teríamos uma fuga para países mais atractivos. Nos rendimentos de trabalho já pagam 42% não se vê bem por onde é que se aumenta.

Mas há saídas que o PS conhece muito bem mas que nunca aceitou. Levantar o segredo bancário para saber se a bota dá com a perdigota. Taxar o consumo de bens de luxo e saber se os sinais exteriores de riqueza condizem com os rendimentos declarados.

Não permitir que a mesma pessoa receba uma pensão do Estado, por velhice ou invalidez e,ao mesmo tempo, o mesmo Estado pagar-lhe um vencimento chorudo numa qualquer empresa pública nossa, muito nossa. Não permitir que quem está reformado receba milhares de euros por mês muito mais que a maioria dos trabalhadores portugueses, que trabalham no duro.

Não distribuir subsídios a agricultores que vivem em Cascais e não fazer contratos ruinosos para o Estado com a Liscont da Motta/Engil do Sr. Jorge Coelho e entregar obras e compra de bens sem concurso público, entregando-os de mão beijada aos amigos, como se viu agora com os 40 milhões de contos em projectos para as escolas.

Antes de querer mais dinheiro para esbanjar é necessário saber gastar com critério e ter imaginação e conhecimentos que o levem a perceber que os ricos que ganham dinheiro por criar riqueza e postos de trabalho são bem vindos.

Os amigos que vivem à nossa conta à mesa do orçamento, esses é que deviam ser taxados!

A 100%!

LOGICAMENTE

Li mais jornais durante estas curtas férias. Sempre gostei de ler jornais. Não só pela curiosidade das notícias, mas também pela necessidade de encontrar algo de novo, de novidade. Mas os jornais estão uma chachada. Chega-se sempre ao fim com a sensação amarga de tempo perdido. E pela primeira vez comecei a comprar “de vez em quando”. A maior parte das crónicas e artigos não passa de banalidades. Sem qualquer profundidade literária, política, social, filosófica ou científica. Uma inutilidade total. Umas coisas escritas por pessoas que nem conheço, outras por pessoas que conheço mas que não me merecem credibilidade. Crónicas e artigos sempre metidos dentro da forma, das regras, dos carris, da órbita, sem evidenciarem qualquer impulso ou tendência a furar a casca do ovo. Nunca ultrapassando a fronteira para além da qual, logicamente, não serão publicados. Claro que este “logicamente” quer dizer censura.
Aqui há uns anos atrás, fui publicando vários artigos em alguns jornais. Bons tempos! Hoje nada me publicam. Eu sei o que valho e o que não valho. E sei que muito do que escrevo vale mais do que muito do que leio. Simplesmente, o que escrevo atreve-se a ultrapassar, muitas vezes, a tal fronteira para além da qual, logicamente, não publicam. E quando os amigos me dizem: – então, pá, há muito que não vejo nada teu nos jornais -, eu respondo: – prefiro escrever e meter dentro da gaveta do que escrever e meter dentro da forma -.

POEMAS DO LUSCO-FUSCO

Não esperes por mim nessa ilha
que me disseram ser o teu corpo
não olhes ao longe o despontar das velas
que não chegam.
As nuvens no céu dos meus braços
hão-de ser a chuva
na secura do teu beijo.

                 (adão cruz)

(adão cruz)

QUADRA DO DIA

É um exemplo muito mau
P’ra quem reza todo o dia
A santa igreja a roubar
E a ensinar pedofilia.