Santarém, Capital do Gótico (VI)

(primeira parte e expicação do «bodo aos pobres» aqui)

OS SÉCULOS DE OURO

Depois de definitivamente integrada em Portugal, Santarém continuou a ser alvo de grandes privilégios e atenções. Foi escolhida diversas vezes para morada da família real; aqui decorreram muitas das cortes que nessa época se realizaram; foi terra preferida de nobres, poetas e trovadores, e por isso mesmo importante foco cultural. A «princesa das nossas vilas», expressão que acompanhava os actos públicos, era também designada como a «mui nobre e sempre leal vila de Santarém» (e invicta quase sempre, já agora). No fundo, para os primeiros reis, Santarém era muito mais do que uma vila. Até no brasão essa realidade era evidente. Mesmo que a promoção administrativa tenha chegado apenas no século XIX, Santarém foi cidade muito antes de o ser.
«Na Idade Média, o critério que distinguia as cidades das vilas não era demográfico, socioeconómico, cultural nem urbanístico. Mas histórico-eclesiástico ou político. As povoações-sede de bispado eram incondicionalmente cidades. Mesmo minúsculas, como a Guarda ou destituídas de muros como Viseu. Bragança é um exemplo de promoção por razões políticas – o único exemplo medieval. D. Afonso V, com efeito, deu-lhe o título e a carta para agradar ao duque. Santarém, rival de Évora e até, veladamente, de Lisboa, com corregedor privativo às vezes, residência régia amiúde, sede frequente de altos órgãos da monarquia, titular de assento no primeiro banco das cortes, nunca deixou de ser vila. Costumamos dizer que só lhe faltou para cidade sé e bispo titular.» (Armindo de Sousa)
Os cristãos, depois de tomarem Santarém – já poderemos chamar-lhes portugueses – aproveitaram grande parte das estruturas urbanísticas muçulmanas e visigóticas. Por esse tempo, já a herança romana fora deixada para trás em definitivo.
Mas houve algumas adaptações aos novos tempos que se viviam. A defesa militar foi uma preocupação constante, daí a entrega dessas funções às ordens militares: aos Templários, mesmo depois de saírem para Tomar, aos Hospitalários e aos da ordem de S. João do Pereiro.
Quanto à relação com os vencidos, a maior parte dos pró-islâmicos foi embora, mas alguns ficaram. Isolados em locais próprios da cidade, mais tarde vedados por muros próprios e completamente segregados, surgiram assim as mourarias de Santarém. O mesmo se dirá em relação à judiaria.

A Reconquista Cristã

O ano de 1093 pode ser considerado decisivo para a história de Santarém. A 30 de Setembro, o rei de Leão Afonso VI conquista todas as terras até à foz do Tejo e forma um condado, com capital em Santarém, cujo primeiro responsável vai ser Soeiro Mendes. «Era MCXXI secundo cal. Maii sabatho hora nona Rex donnus Aldephonsus cepit civitatem Santarém».
Data sensivelmente desta altura o primeiro foral de Sancta Herena, de 13 de Novembro de 1095, uma prova da grande importância que Santarém já adquirira. A despeito de alguns autores defenderem que foi o conde D. Henrique a atribuir o foral, não há dúvidas de que foi Afonso VI de Leão o seu autor. O objectivo era encorajar os cavaleiros da cidade a defenderem-na vigorosamente, visto que a sua localização, próxima de Lisboa, era propícia a um ataque dos almorávidas.
Um documento fundamental e que, mesmo no futuro, iria servir de modelo e de fio condutor para outros documentos do género, até porque foi um dos primeiros em todo o território nacional. Da mesma época, só S. João da Pesqueira (1055-1065) e Coimbra (1095). Mais de sessenta anos depois, em 1159, o articulado desse foral ainda serviu para ser aplicado ao território de Ceras (Tomar), dado aos Templários por D. Afonso Henriques.
Sob a tutela de Leão, Santarém passa a ser comandado, a nível militar, por D. Raimundo, e por Soeiro Mendes da Maia a nível administrativo, como alcaide. No entanto, a cidade não deixava de ser «uma ilha leonesa num autêntico mar islâmico até à linha do Mondego» (Jorge Custódio). Ou seja, se alguns territórios tinham já sido conquistados aos mouros, a maior parte continuava na sua posse.
Assim, em 25 ou 26 de Maio de 1111, Santarém voltaria a cair em poder dos muçulmanos sem que o conde D. Henrique pudesse fazer algo para o evitar. Consciente da importância estratégica da cidade, Sir Ben Abu Bakr adverte o seu califa Yusuf de que o destino de terras como Lisboa ou Sintra está completamente dependente do sucesso que se conseguir na manutenção de Santarém.
Andava bem avisado, o preocupado governante. Na manhã de 15 de Março de 1147, D. Afonso Henriques conquistou definitivamente a cidade e Mem Ramires hasteou no castelo o pendão de Santiago. Para o êxito da iniciativa contribuiu a comunidade moçárabe da cidade, que em muito apoiou a invasão e que, após a conquista, ocupou cargos importantes no campo das letras e da administração local.
Como não tinha forças suficientes para atacar Santarém, D. Afonso Henriques decidiu surpreender os ocupantes, atacando-os pelo lado nascente, de forma a que as suas forças não fossem detectadas.
Nos dias anteriores, o já referido Mem Ramires fora enviado para estudar as condições de defesa do castelo e a melhor forma de o atacar. Poucos sabiam dos preparativos, a não ser Lourenço Viegas, Pero Pais, Gonçalo de Sousa, D. Teotónio e alguns outros.
As tropas portuguesas saíram de Coimbra a 10 de Março de 1147, acompanhado por 250 homens de armas e por um número indeterminado de cavaleiros. No dia 13 estavam na serra de Albardos e no dia seguinte no alto de Pernes. À noite, desencadeou-se o ataque. «Concertadas todas as cousas necessárias para o assalto, e tomada a conclusão no modo dele, deixou el-rei a bagagem, e gente de serviço embrenhados na mata de Pernes.» (Crónica de Cister)
Mem Ramires atacou por Atamarma, D. Afonso Henriques pelo castelo principal. A vitória foi fulminante. Quando o sol nasceu, os cristãos já tinham conquistado Santarém.
A definitiva conquista da vila contribuiu decisivamente para a formação de Portugal, dada a sua importância estratégica e a forma como, assente lá no alto, dominava visualmente o vale do Tejo, servindo de sentinela à futura capital do reino.
«O cruzado franco Afonso Henriques conquistou a cidade inexpugnável. A tomada de Santarém de 15 de Março de 1147 (num assalto rápido, aproveitando por um lado a quebra das tréguas e por outro a surpresa da cilada táctica não prevista nos códigos habituais de guerra e que passou doravante a ser utilizada nas iniciativas guerreiras dos cristãos, acabando por se impor na estratégia medieval dos cavaleiros portucalenses), constituiu uma referência fundamental que distinguiu a actividade dos fundadores do Estado português antes e depois desse acontecimento. O seu significado reafirmou-se em sucessivos momentos da história de Portugal como acontecimento original e fundador da nova realidade política.» (Luís Mata)
Se até aí Santarém funcionara como cidade de fronteira, tanto para cristãos como para muçulmanos, a partir daí vai continuar a ser. Os limites do Condado Portucalense iam caminhando para sul e a linha do Tejo cada vez mais defendida.
Em Maio de 1179, D. Afonso Henriques concede foral a Santarém. Da leitura do mesmo se percebe a importância da cidade. Quanto ao texto, compreende-se bem a alteração de muito do que fora escrito no foral de 1095, até porque a realidade administrativa era totalmente diferente. O novo documento integrava as instituições concelhias entretanto criadas e em que desempenhava papel de destaque o grupo dos homens-bons da cidade. Estes tinham a seu cargo as principais funções governativas e administrativas e era a partir deles que se constituía o Senado.
Concedido ao mesmo tempo que às cidades de Lisboa e Évora, o foral de Santarém esteve na base daqueles e é c
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siderado o mais minucioso foral português, com privilégios maiores e mais apropriados a zonas urbanizadas como já eram as cidades referidas. Para além da organização da vida económica, a administração da cidade era definida de forma mais clara do que acontecera até então. Um dos principais objectivos era a fixação populacional num sítio que estava a ser constantemente atacado pelo inimigo.
Em Julho de 1184, Yussuf-Abul-Iucube, emir marroquino, ataca o castelo, mas a defesa aguerrida do príncipe D. Sancho, futuro D. Sancho I, afasta o invasor. Há quem diga que foi ainda D. Afonso Henriques, que morreu em Dezembro do ano seguinte, a defender o castelo.
Quanto ao califa, viria a morrer na sequência desse ataque. O seu exército até era um dos maiores que algum dia se tinha formado na Península Ibérica. Mas, para além do reforço das muralhas na Alcáçova e na medina, a fortificação cristã começava logo em baixo, no arrabalde de Seiserigo. Aí se construíram várias fortificações em madeira e se estabeleceu um palanque que dava acesso à Alcáçova. Ou melhor, que cortava o acesso à Alcáçova.
A derrota mourisca ficou na história, pela dimensão de que se revestiu, e prolongou-se pelo tempo. Foi aqui que a recessão do Islão começou de forma definitiva.
O motivo daquele ataque prendeu-se com os fossados de D. Sancho sobre as terras da Andaluzia. Na Idade Média, os fossados tratavam-se de expedições militares cristãs nos territórios vizinhos, ocupados pelos mouros, para saber das novidades, apreender gado e destruir. Geralmente, eram feitas quando os campos agrícolas estavam na fase da ceifa e as searas quase maduras. O nome fossados vem do facto de os exércitos, que atacavam de surpresa, se entricheirarem em fossos, cavados para proteger aqueles que tratavam de se apossar de colheita alheia.

Comments

  1. dalby says:

    -Esta lá, Dr Júlio, delegado de saúde?-SIM!??-Bom dia, daqui dalby R..olhe, queria participar a existência de uma praga pior do que a GRIPE A..-AHHH..mas como? Onde?..como é possível??-Olhe Dr. começou em Rio TINTO, que só por si é uma praga de terra..mas as origens vêm do sul!!!..-Não estou a perceber…-Olhe Dr Júlio, é uma doença compulsiva, maniaco-depressiva horrivel que se pega…- E oh Dalby R (que raio de nome você escolheu!)..e como se pronuncia essa maldade existencial? Quais são então os sintomas..-OH DR. é horrível, é tenebroso, é destrutivo….começa um dia ..a pessoa começa-se a sentir compulsivamente inclinada a escrever sobre uma cidade …oh …e ele é só a dar à caneta, não come, não bebe, não procria (pobre nelita ferreira leite!) É SÓ ESCREVER… UMA, DUAS,TRÊS VEZES, MIL, SOBRE O ASSUNTO…-Oh Dr DALBY ERRE, é tipo «enche chouriços»??-Ah Dr julio, é piorrrrrrrrr, é tipo isto «RIO TINTO – A CAPITAL DO GÓTICO I, II, III, IV, ao pequeno almoço escreve-se sobre isto e lá vais mais um I, pimba, ao almoço igual e lá vais o II…. e por aí fora, ao lanche, ao jantar ao deitar, ao procriar…já vamos no RIO TINTO XIX!!! Oh Dr Ajude-me que eu não sei mais o que fazer…..e receamos que isto se pegue…Já viu se o povo todo começa a escrever sobre Maia I, II,II, XIX, ou VILA NOVA GAIA I, II,II,IV,V, VI ou CANELAS CXM etc etc…ou o nosso colaborador Luis ÉME sobre o casamento gay I, II, II, VI, VI e por ai fora…estamos desesperados..-Oh DR ERRE DALBY já lhe deu um benuron???-Acha que passa? Eu estava mais era a pensar dar-lhe uma caixa inteira de ARICEPT 10mg e arrumar a coisa de vez..-E se ele já pegou a mais alguém??-Olhe , sinceramente, não sei, vou esperar uns dias e ver se, p.exemplo, LM não escrever mais sobre «o badalhoco casamento entre pessoas do mesmo sexo, parte XMCM-999.9999» quer dizer que a coisa passou, senão… volto a ligar para o Dr, OK?-OK DR dalby R, mas se começar a ver que há sintomas e mais gente a escrever I, II, II, V e por aí fora, ligue-me que mando imediatamente o Francisco George aí, e eles com aquelas barbas e beleza gótica dele, piam logo fino…. e morre logo ali a inspiração..-Muito bem, Dr Júlio, o meu muito obrigado em meu nome e do Avental, e até breve.————————————se souber de alguma peste ou se estiver em perigo por radiação à nova gripe I, II,II já sabe..conte connosco:PT, uma empresa ao seu serviço e boa para a sua saúde..Não hesiste! Em caso de dúvida ligue 191919 ou envie uma msg para BELAVISTA 191919.dalby