AINDA O CAPITALISMO

AINDA O CAPITALISMO

Amigo Luís Moreira. A humanidade evolui em tudo, à medida que o tempo avança. É o evoluir permanente do conhecimento. Hoje, dentro das sociedades ditas civilizadas, ninguém se desloca de carro de bois nem ninguém permanece alheio e indiferente ao que o rodeia. A influência exercida pelo crescimento, que não é o mesmo que desenvolvimento, mexe com tudo e muda constantemente as pessoas e as sociedades. Para melhor? Nem sempre.
A ciência deu um salto enorme e continua a desenvolver-se. O pensamento e as funções da sua estrutura neuronal avançaram de forma impressionante. É lógico e fácil aceitar que hoje haja muita gente a viver com mais paz e democracia, entendendo-se por democracia a sua irmã bastarda, com sistemas sociais de apoio que nunca existiram. Mas as desigualdades, mesmo nesta parte privilegiada da humanidade são escandalosas. Tudo isto, o bom e o mau, decorre não apenas do sistema em si mas da evolução natural de uma sociedade algo bem intencionada e algo perversa, em que o ser humano está inserido. Mas a muita gente a que se refere, está longe de ser a parte substancial da humanidade. A maior parte da humanidade está longe da paz, da democracia, da solidariedade e da justiça. Mas pior do que isso, está talvez em retrocesso. A maior parte da humanidade, numa época de grande crescimento e de inimagináveis transformações, está cada dia mais longe do desenvolvimento, isto é, da paz colectiva, da democracia universal, da saúde do planeta, da educação do Homem, do sustento da humanidade global, da solidariedade e da justiça. Assistimos hoje, proporcionalmente e contextualmente, a desequilíbrios e tremendas injustiças, a requintes de crueldade e desprezo pelos outros, talvez bem maiores do que há séculos atrás. E tudo isto, a meu ver, pela sede demencial de domínio e pela voracidade nunca vista dos agentes de criação de uma tão contestável quanto concentrada riqueza, sem qualquer espírito de benfeitoria ou solidariedade humana. O capitalismo é mau por natureza, aberrante na teoria e perverso na sua prática. Sempre beneficiará os ricos e condenará os pobres, por mais voltas que a gente dê. Lembro-me sempre das palavras da empregada doméstica, sem qualquer recurso, sobre-explorada por uma patroa cruel e desumana: – se não fosse ela eu nem sopa tinha para dar aos meus filhos.
O amigo Luís Moreira refere os profundos desequilíbrios e a incapacidade do sistema capitalista para criar igualdade de oportunidades. Mas isto, acrescento eu, é impossível de debelar dentro deste sistema. Este desequilíbrio e este desnível indelével constituem o metabolito essencial à sua sobrevivência. Por isso eu lhe chamo de anquilosado e cristalizado. Pode-se argumentar que o sistema capitalista há-de um dia chegar à eliminação dos desequilíbrios gritantes e à igualdade de oportunidades. Se em tal não se acreditar, é terrível, em termos de esperança e confiança no futuro. Trata-se, com efeito, de uma doença crónica, a qual, sem hipótese de cura, se vai aguentando com tratamentos paliativos ainda que modernizados pela evolução da ciência social e humana. Se, eventualmente, se acreditar, então o resultado, muito improvável, chamar-se-ia pura e simplesmente de socialismo. Mas o socialismo é uma filosofia de vida, uma filosofia de vida colectiva dentro do mais elevado grau de felicidade possível, uma estratégia política de moralização da humanidade, uma tentativa de elevação da dignidade ao cimo dos valores humanos. A antítese de qualquer filosofia capitalista.
Para chegar ao socialismo não há prazos nem linhas rectas nem caminhos milagrosos, embora alguns possam ser previamente pensados e traçados. Eventualmente serão muitos os trilhos do pensamento que até ele um dia nos levarão, apesar da inegável actualidade de Marx que esta deplorável crise, espécie de abcesso purulento, uma das chamadas “bolhas” do sistema, veio demonstrar.
O sistema capitalista tende a curar os seus excessos e delírios através de crises. Quando um dos seus abcessos rebenta, há um terramoto, a riqueza é destruída, as pessoas são dispensadas e despedidas sem contemplações, as instalações de produção são encerradas numa espiral descendente de contracção. A segurança é nula. Os desesperados, os desempregados e todos os desafortunados que do sistema dependem aceitam tudo até que o fim da crise reponha novamente a falácia e o sistema caminhe para a bolha seguinte, repetindo o ciclo, por etapas cada vez mais refinadas de uma grotesca exploração do homem pelo homem.

Amigo Luís Moreira, também o considero um interlocutor de grande sensibilidade e seriedade. Obrigado por me dar troco.
Um abraço do amigo Adão

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