ETICA E EDUCAÇÃO (6)

ETICA E EDUCAÇÃO (6)
Considerações sobre Ética

Existe uma ética objectiva, inscrita no nosso código genético, válida só por si, existe uma ética baseada na história da vida e das sociedades humanas ou existem ambas, fundidas e inseparáveis?
Se juntarmos tudo o que está escrito sobre ética encheremos um camião. Portanto, vamos deixar-nos de complicadas iguarias, satisfazendo-nos com a nossa comida mais caseira. O sentido mais antigo da ética residia no conceito de morada ou lugar onde se habita, um lugar exterior ao Homem, conceito que, muito mais tarde, se transformou em morada do Homem no interior da sua cumplicidade, o lugar do Homem dentro de si mesmo. A ética compreende a disposição do Homem na vida, interfere com o seu carácter, os seus costumes, a sua moral, ao fim e ao cabo com o seu modo e a sua forma de vida. O Homem faz-se por si e pelos outros. A ética é a autenticidade deste fazer-se.
Há uns anos atrás, um doente meu, homem já idoso, daqueles para quem a cultura não é um empilhamento de conhecimentos mas a capacidade de entender os fenómenos que nos rodeiam, ensinou-me, por palavras simples, que o Homem para ser Homem tem de ser gente. Pressupunha que o ser gente resultaria da construção de alguma coisa assente em vários pilares:
O primeiro pilar seria constituído pelo pensamento e pela sua inseparável companheira, a razão. A ética é uma consequência da razão. Podemos dizer que as plataformas que permitem a elaboração de um pensamento ético são a liberdade e a responsabilidade. A capacidade do Homem de se auto-determinar e assumir a direcção da sua vida determina-o como homem livre e, por conseguinte, a caminho do sujeito ético. E um sujeito ético é, fundamentalmente, um sujeito que procura a verdade. O referente da liberdade humana é a procura da verdade, porque a verdade orienta a liberdade e encaminha-a para a sua plenitude. O pensamento é o suporte mais poderoso e a mais forte armadura do Homem, a mágica força da sua criatividade. Sem pensamento e sem razão a mente humana não passa de um céu brumoso, sem ponta de sol. Por isso o pensamento e a razão têm tantos inimigos!
O segundo princípio ou pilar fundamental decorre do primeiro e chama-se cultura. Não sei verdadeiramente o que é a cultura. E cada vez sei menos, neste pequeno país e neste pequeno planeta feito de inúmeros serventuários medíocres, de impante provincianismo, incriativos plagiadores de todos os lugares-comuns inseridos nas políticas de retrocesso. Sei, no entanto, que não é a cultura-espectáculo, a cultura enlatada de políticos e cabotinos, a massificação e homogeneização que só geram vícios consumistas, impedindo o homem de pensar, reflectir e encontrar, mas a cultura do dia-a-dia, a cultura estruturante da pessoa, a cultura do percurso, a cultura da ética dialógica que está na base da racionalidade crítica orientada para a procura do significado da realidade humana.
O terceiro princípio seria o respeito pelos outros. Todavia, o respeito pelos outros nunca existirá se não houver respeito por nós próprios. O respeito pelos outros é o espelho de nós próprios.
O quarto pilar desta edificação ética do Homem seria a justiça e a solidariedade. O primeiro passo da solidariedade estaria no entender da justiça social e no seu consciente reconhecimento como prioridade das prioridades. O segundo passo seria a consciência de que viver dos outros implica sempre viver com os outros e para os outros. Ao contrário daqueles que aceitam o individualismo como fatal decorrência da onda globalizante e o desculpabilizam e desnegativizam, eu penso que o Homem é um ser para o encontro, encontro consigo mesmo, com os outros, com o mundo e com o transcendente, a quem abre a interioridade da sua consciência e da sua auto-posição. (Continua)

                        (manel cruz)

(manel cruz)

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