Pinga nasceu há 100 anos


Artur de Sousa, celebrizado no mundo de futebol como Pinga, passou para a história como o primeiro grande ídolo das multidões e, em particular, do F. C. do Porto. Mesmo sem exagerar, pode-se dizer que foi um dos melhores jogadores do clube de todos os tempos, senão o melhor, e um dos melhores jogadores portugueses. Há quem diga, inclusivamente, que superou o próprio Eusébio. No entanto, a fraca qualidade do futebol português, nessa altura, a falta de resultados minimamente credíveis a nível internacional e a falta da… televisão impedem-nos de comprovar, agora ou no futuro, essa afirmação.

Pinga nasceu na Madeira em 30 de Setembro de 1909. Jogou no Marítimo e no União Micaelense antes de se transferir para o F. C. do Porto, tinha então 21 anos. Foi uma mudança de clube repleta de peripécias, aquela que protagonizou nessa altura. Primeiro porque a mãe não queria deixá-lo vir para o continente, depois porque eram muitos os convites endereçados ao promissor avançado.
Estreou-se com a camisola do F. C. do Porto uma semana depois de chegar. Foi num jogo com o Salgueiros, que os «azuis-e-brancos» venceram por 10-2. A partir daí e durante mais de 15 anos, não largou a titularidade. Juntamente com Valdemar Mota e Acácio Mesquita, formou um tridente atacante imparável que ficou conhecido como «Os três diabos do meio-dia».

A sua contribuição para os primeiros êxitos do F. C. do Porto foi fundamental. A jogar como interior esquerdo, marcava golos em série e não raras vezes era ele quem decidia os jogos. Do seu palmarés, destaca-se uma vitória no Campeonato da I Liga (1934/35), dois títulos de Campeão Nacional (1938/39 e 1939/40), dois Campeonatos de Portugal (1931/32 e 1936/37), 13 campeonatos regionais do Porto (entre 1931 e 1946) e 3 campeonatos do Funchal.

Ao serviço da selecção nacional, Pinga também se fez notar, numa época em que era raro serem escolhidos para representar a «equipa das quinas» jogadores que não pertencessem aos grandes clubes da capital. Foi «internacional» em 23 ocasiões e marcou 8 golos.

Artur de Sousa fez o seu último jogo oficial pelo F. C. do Porto em 23 de Junho de 1946, contra o Atlético, nas meias-finais da Taça de Portugal. Ao longo de mais de 15 anos, participou em 400 jogos e marcou 396 golos. Uma média extraordinária, de quase um golo por jogo, a fazer lembrar tempos bem mais recentes. Deixava para trás, nessa altura, uma carreira cheia de glórias e um presente que deixava esperanças para o futuro. Mal sabia, ele e todos os portistas, que estava apenas a meio caminho uma travessia do deserto que só culminaria com a conquista do título nacional de 1956, dez anos depois.

Depois de abandonar o futebol, o clube não o esqueceu. A 7 de Julho, prestou-lhe uma grandiosa festa de homenagem, que contou com a presença de cerca de 500 atletas de várias colectividades e um jogo particular entre o F. C. do Porto e a selecção nacional. Para assinalar a efeméride, fez imprimir um célebre cartaz em que aparece a sua fotografia no interior do emblema do clube. Por baixo, a frase com a assinatura de Artur de Sousa: «Fraquejaram os músculos, mas o meu coração continua a lutar pelo Clube, pelo Desporto e pelo Porto».
Além disso, foi treinador das camadas jovens do F. C. do Porto, iniciando assim uma tradição que ainda hoje se mantém: os heróis de ontem formam os craques de amanhã. Ocupava-se dos infantis e preparava-se para assumir o comando técnico dos juniores, com Artur Baeta, quando a morte o surpreendeu. Foi em 1963, tinha então 54 anos. No mesmo ano, a Associação de Futebol do Porto instituíu uma taça com o seu nome.

A memória de Pinga continua hoje viva graças ao seu contributo para as primeiras vitórias a nível nacional. Os mais antigos portistas lembram-se ainda das suas fintas, simulações e remates vitoriosos de qualquer posição do terreno de jogo. A sua presença no mausoléu do clube denota bem o significado da sua passagem pelo F. C. do Porto.

Publicado também na revista «Dragões» (2002)

Comments


  1. Gostava de o ter visto jogar. Não aconteceu, claro. Mas foi, de certeza, dos melhores.

  2. Belina Moura says:

    De certeza que há filmes antigos…

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  1. […] Pinga, de quem vou hoje falar, era madeirense como Cristiano. Já Ricardo Santos Pinto publicou aqui um texto comemorativo do seu centenário. Tentarei não repetir em demasia a informação. Nasceu no […]

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