Clube dos Poetas Imortais: Rosalía de Castro (1837-1885)


Depois desta bela canção de Amancio Prada, musicando um poema de Rosalía de Castro, mais fácil se tornará entender duas coisas: a intensidade emocional da poesia de Rosalía e o amor dos Galegos pela sua pátria. É difícil encontrar um autor que simbolize toda uma língua e toda uma literatura. Do castelhano se diz ser «a língua de Cervantes», nós usamos com frequência a expressão «língua de Camões» para designar o português. A língua galega encontra em Rosalía a sua mais emblemática expressão, embora o país seja rico em escritores e em grandes intelectuais – referimos apenas alguns: Manuel Murguia, o marido de Rosalía (1833-1923), Manuel Curros Enríquez (1851-1908), Alfonso Castelao (1886-1950), Carvalho Calero (1910-1990), Ernesto Guerra da Cal (1911-1994), Celso Emilio Ferreiro (1912-1979), Manuel Maria (1929-2004)… De todos eles irei falando. Por hoje, peço a vossa atenção para Rosalía de Castro.

Rosalía de Castro, nasceu em 1837, nos arrabaldes de Santiago de Compostela e morreu em 1885, com 45 anos, no lugar de Padrón. As suas obras principais são «Cantares Gallegos» (1863) e «Follas Novas» (1880). É considerada a fundadora da moderna literatura galega, pois com Manuel Curros Enríquez (1881-1917), Eduardo Pondal (1835-1917) e Manuel Murguia (1833-1923), seu marido, fundou o movimento nacionalista do «Rexurdimento galego».
A emigração, durante as grandes crises sociais que afectaram o país na segunda metade do século XIX, foi a solução para os galegos fugirem da fome e da miséria. Muitos vieram para Portugal. Outros emigraram para outras regiões da Península ou para as Américas. Em «Follas Novas» Rosalía dá corpo poético a um lamento que percorria todas as terras galegas nesses anos negros:
Este vaise i aquel vaise,
i todos, todos se van;
Galicia, sin homes quedas
que te poidan traballar.
Tês, en cambio, orfos i orfas
i campos de soledad;
e nais que non teñem fillos
e fillos que non tén pais.
E tês corazós que sufren
Longas ausências mortás.
Viudas de vivos e mortos
Que ninguén consolará.
A tradução não seria necessária, mas, apesar de tudo, o José Niza fê-la e compôs a bela e impressiva música que o Adriano Correia de Oliveira cantava de forma superior. Isto, numa altura em que Portugal via também os seus homens partir, para a Guerra colonial ou, fugindo à guerra e à miséria, emigrava para países estrangeiros, a canção assumia um significado especial e muito claro. Ora escutem:

Comments


  1. Gosto muito de Rosalía de Castro. Belas canções, oportuno bálsamo e alívio, pois acabo de vir de uma reunião de curso, onde fui obrigado a ouvir os mais horrendos comentários políticos de um tipo de extrema-direita-extrema.


  2. A Rosalía de Castro é um dos grandes poetas da nossa língua comum. Ainda bem que o Amancio Prada, o Adriano e a Rosalía te ajudaram a esquecer os comentários de um reaccionário. Um abraço e, cuidado, eles continuam a andar por aí!


  3. Graças, Carlos Loures, pola aclaraçom “língua comum”. Parece que nom se considerarmos a grafia original do poema mas há que situar este no tempo e no espaço político e compreender as ferramentas limitadas que daquela dispunham os escritores galegos. A própria norma ortográfica do Português (Europeu) vigente até ao Acordo Ortográfico é muito mais recente; data de 1911 com adendas em 1945. Escrevo este comentário propositadamente em norma AGAL (intermédia) para que se notem as características definidoras de “língua” à parte da vestimenta que lhe demos. Isto para dizer que José Niza nom traduziu o poema – umha traduçom ocorre entre idiomas distinto -, mais bem adaptou a ortografia como tantas vezes se faz (desnecessariamente) com obras de autores brasileiros.Pola nossa parte, através da nova AGLP – Academia Galega da Língua Portuguesa saudamos e aderimos ao acordo ortográfico para resolver de vez esta confusom. Uma vez mais o recurso à norma AGAL neste comentário é com fins estritamente pedagógicos pois pessoalmente escrevo já polo acordo. Aproveito também a oportunidade para pedir aos amigos portugueses o apoio ao “Manifesto pola Hegemonia Social do Galego” cujo abaixo-assinado corre em http://www.peticao.com.pt/hegemonia-social-do-galego.


  4. Para além dos acordos ortográficos, sou da opinião de que temos um idioma comum (com diferenças dialectais, como acontece em todos os idiomas). Vou fazer o que puder pelo vosso abaixo-assinado. Um abraço, Albano coelho.

  5. Adão Cruz says:

    Tenho um amigo galego, professor universitário, que me disse que o português é o galego correcto. Toma lá que já almoçaste.

  6. Carlos Loures says:

    Pois. Mas há uma corrente na Galiza que diz exactamente o contrário.

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