Serpente português suave

Quando o meu filho já notava o que se passava na TV, eu tirava a côr à imagem quando aparecia o “cavaleiro malboro”, em cima de um cavalo, belo, a olhar para o horizonte numa planície verde e pujante. Queria eu, com esta rude batota, dizer ao puto que quem fuma fica amarelo, não fica bonito e a cavalo.

E, sempre o que vi nos fumadores são pessoas dependentes do tabaco, com tosse, expectoração e numa fase mais adiantada amarelos e com os dentes e os lábios escuros. Por isso, e por ter esta ideia do fumo, foi-me muito fácil deixar o tabaquinho. O puto nasceu e quando veio para casa eu nunca mais fumei dentro de casa, ía para a rua, o que nem sempre me apetecia, larguei facilmente porque tive sempre associada a ideia que fumar não tinha nada de poético nem de bonito. Era um vício, ponto!

Há gajos que fazem umas poses com o cigarro mas de poético nada têm e mesmo as longas cigarrilhas das divas nunca me encantaram. Estava nesta, assunto arrumado, nunca mais fumei um cigarro, nem nunca mais tive vontade, pese embora ter uns amigos com quem janto de vez em quando e que me atiram com toneladas de fumo para cima. Mas não serve de nada, eu não gosto do fumo!

Até hoje! A Carla, com aquela escrita cheia de imagens belas, desperta-me para a poesia do cigarro, companheiro de desdita, de momentos solitários, com o fumo a ser graduado em ténue barreira que mais aproxima que afasta em momentos de pura convivência, qual nevoeiro que nos vai deixando descobrir a beleza da montanha ao sabor do capricho que ninguem comanda…

E eu vacilo nas minhas convicções, afinal há beleza, há gente bonita à luz do luar a tomar decisões dificeis e, da mesma forma que se declaram segredos eternos a um livro, tambem há quem partilhe emoções dificeis com um cigarro.

Se não fosse não gostar mesmo a serpente hoje tinha-me apanhado no seu doce silvar…

Comments


  1. É assim amigo Luis Moreira. O mundo está cheio de coisas belas, mesmo muitas daquelas que parecem banais ou mesmo feias. Sendo eu contra o tabaco, um cigarro pode ser um verso para um poema. Depende da forma como as coisas se olham e como se sentem. Um dia, um homem de meia idade, a quem facilmente rotularíamos de tolo, atravessou a rua com uma flor na mão e um sorriso pendurado nos lábios, e dirigiu-se a mim de braço estendido. Não vinha chatear, não vinha pedir moeda, vinha apenas oferecer-me uma for e um sorriso tão puro e tão cândido, que eu retenho a cena na memória como uma das mais belas que me foi dado sentir.