Clube dos Poetas Imortais: Orlando da Costa (1929-2006)

 

Conheci Orlando da Costa em 1971.Nesse ano, vim trabalhar para uma editora ligada na altura a um grupo editorial de Barcelona. A editora ia lançar aqui uma obra de grande sucesso internacional e contactámos a agência de que Orlando da Costa era director criativo para se encarregar da campanha publicitária, em todos os meios – na televisão, na rádio, na imprensa… Eu era o interlocutor da editora junto da agência e aquele fim de Primavera foi agitado, com reuniões intermináveis, após o que íamos beber um copo (às vezes mais do que um).

 

Era conhecido dentro da comunidade literária, pois o seu romance «O Signo da Ira», recebera Prémio Ricardo Malheiros de 1961. Sabia também algo sobre a sua actividade política, a militância antifascista, as prisões. Ele ouvira falar de mim, pois a minha prisão em 1968, alegadamente pela publicação de «A Voz e o Sangue» foi comentada no meio. Tornámo-nos amigos. Com o tempo, as relações profissionais (ele foi mudando de agência e a editora foi sempre atrás dele) conduziram a uma amizade muito grande e a um grande respeito mútuo, mesmo quando não estávamos de acordo – era militante do Partido Comunista e eu sempre fui muito crítico relativamente à prática política do PCP – antes e depois do 25 de Abril.

 

 

Orlando da Costa era um bom escritor, mas mais importante do que isso, era um homem bom, de uma grande dignidade e com um incomum sentido das suas responsabilidades cívicas. Depois de um jantar organizado por uma editora, em 2005, já ele estava doente, não voltámos a estar juntos, mas falámos muito pelo telefone. Por um amigo comum, o António Andrade, ia sabendo da evolução negativa da doença. Até que o Andrade me telefonou a dar a triste notícia da sua morte, antes de os canais de televisão. Lá fui à Basílica da Estrela – estivera lá a despedir-me do David Mourão-Ferreira, depois foi o Orlando e, em 2008, o velho Luiz Pacheco.

Não gosto nada da Basílica da Estrela.

Orlando da Costa, nasceu em Lourenço Marques, actual Maputo, em 1929, numa família goesa. Foi criado em Margão, vindo para Lisboa, com apenas 18 anos, em cuja Faculdade de Letras se licenciou em Ciências Histórico-Filosóficas. Ficcionista, dramaturgo e poeta, publicou uma dezena de livros, dos quais saliento os romances «O Signo da Ira» (1961), «Podem Chamar-me Eurídice» (1964), «Os Netos de Norton» (1994) e «O Último Olhar de Manú Miranda» (2000). O poema que seleccionei, foi publicado na antologia «Poemabril» (1984) e foi musicado pelo maestro Fernando Lopes-Graça:

Canto Civil – 1

            Este é o meu canto civil

            canto cívico graduado

            desde um tempo antigo que vivi

            entre poemas de aço camuflados e algemas de silêncio

            Esse era o tempo do assalto às casernas

            mas já então eu escrevia o que devia:

            a cartilha da guerrilha do amor e da paz

            para ser ensinada à luz das lanternas

            nas escolas nas igrejas na parada dos quartéis

 

            Este é o meu canto civil

            canto cívico desfardado

            escrito a vinte e oito de Abril

            do ano passado à noite

            de punho cerrado com alegria e sem espanto

            canto para ser cantado de dia

            por todos por muitos por mim ou por ninguém:

           

            Soldado raso

            ao cimo da calçada

            em guarda

            de flor e farda

            a flor que te damos

            é pão da madrugada

 

            É pão amassado

            sem liberdade

            é gesto de guerra

            em nome da paz.

            É flor de canção

            em terra mar e ar

            rubra flor popular

            num só cano de espingarda

            Soldado raso

            em sentido na memória

            lembra-te de novo e sempre

            a flor que te damos

            é da terra é do povo

            é pão da madrugada.

 

 

Comments


  1. Textos que são uma bela homenagem a gente de cultura e teus amigos.


  2. Luís, a ideia é essa – disse-o logo no primeiro destes textos – bons poetas e, de uma forma geral, bons amigos.