Desistência

Por cada cabelo branco que nasce, há, provavelmente, uma ou mais células cerebrais que se consomem. É a lei da vida. Por esta lei da vida desconfio que possa haver, em muitos homens, algum grau de displasia e degenerescência na sua admirável capacidade de pensar. O sinal desta desconfiança reside, a meu ver, naquilo que me parece ser alguma instabilidade e algum desacerto no fio-de-prumo do seu intocável carácter.

 

Dá ideia de que as células, cansadas de tanto pensarem bem, como aconteceu tantas vezes na sua vida e em muitas das suas intervenções, muitos homens se desmobilizam e se demitem, por vezes, do rigor funcional que lhes é exigido. Há muita gente ansiosa por pendurar a tabuleta a dizer “cheguei até onde pude”. Por vezes não querem parar um pouco para descansar, pensar e entender que esta viagem não tem fim, é a viagem da dignidade humana, da infindável curiosidade e descoberta, e qualquer fictícia chegada arruma a pessoa para fora da única vida que vale a pena viver. Parar, não é uma decisão muito compatível com o homem da angústia e da sede da verdade. O homem da formação e da determinação.

 

Comments


  1. Não creio que a, indiscutível, degenerescência biológica se reflicta de forma evidente na capacidade de pensar – embora tu estejas mais à vontade para discutir esse tipo de questões. Porém, casos como o de Picasso e, entre nós, de Manoel de Oliveira ou de Agostinho da Silva (Saramago é um «garoto» comparado com eles), são esclarecedores sobre a lucidez que muitos mantêm até ao fim. Sem paragens para descansar.


  2. Tens toda a razão.

  3. maria monteiro says:

    eu já tenho o cabelo todo branco mas… ainda “sofro” de lucidez 🙂