Luto e resurreição

Dizem por ai que o luto é um sentimento de melancolia. Para entendermos o que é o luto,  é necessário definir antes a melancolia. A melancolia parece que tem dois significados. O mais esclarecedor, parece-me a mim, é a ideia de tristeza profunda e duradoura que advém de uma perda. Perda, que, por sua vez, está relacionada com o que denominamos luto. A questão central, em consequencia, passa a ser o luto.

O luto, na nossa forma de pensar, tem também uma definição – sentimento de pesar pela morte de alguém que nós é querida. Não apenas pela morte de uma pessoa. Essa entidade é sempre um ser querido que, sem saber como nem quando, nos abandona, ou mais velhos do que nós, ou mais novos.

O desaparecimento de uma pessoa mais nova, é mais duro pela falta de defesa perante os traumas que nos apresenta a vida. Aconteceu, meses atrás, que a nossa filha mais nova perdeu o seu bebé. O seu ânimo não desmereceu: após o seu luto e ultrapassada a  melancolia, empreenderam com o seu marido uma viagem de lua de mel,  O desespero nasce da falta de força para lutar pela vida de quem nasce e, a seguir, desaparece. Nem curtos nem preguiçosos, filha e genro começaram a dar a volta ao mundo para não entrarem em melancolia, dando continuidade à rapariga que tornaria a ser mãe, como acontecera durante essa viagem.

Porque acontece o luto? Freud, em 1917, no seu texto Luto e Melancolia, fornece-nos uma comprida  explicação:Os traços mentais distintivos da melancolia são um desânimo profundamente penoso, a cessação de interesse pelo mundo externo, a perda da capacidade de amar, a inibição de toda e qualquer actividade, e uma diminuição dos sentimentos de auto-estima a ponto de encontrar expressão em auto-recriminação e auto-envilecimento, culminando numa expectativa delirante de punição. Não me parece ser o caso.Não haveria outro bebé para nascer em breve, se a melancolia passa a ser do segundo tipo anunciado antes: hipocondria. Doença que impede a continuação da família. Tenho observado e analisado em culturas diferentes de sítios geográficos distantes, em que as mães e os seus maridos continuam a criar uma cumprida prole.Na nossa própria cultura ocidental cristã, que eu estudo para entender as mentes dos seus membros, o motivo sempre invocado, é o que a figura a seguir explica: a criação de Adão e a sua desobediência ao comer do fruto proibido que fez deles cultivadores da terra, com doenças, morte e uma promessa de ressurreição…um dia. Como pode ser evidente para o leitor, com ou sem fé, houve uma brincadeira de uma divindade que fez dos seres humanos sujeitos da sua vontade: cria-os, fá-los sofrer durante a cronologia da sua vida, mata-os, mas promete que se forem bons, um dia vão viver outra vez. Como o caso de esta nossa filha que, desde os seus cinco anos de idade, sonhava com a eternidade para permanecer sempre junto aos seus seres queridos, em reiterada ressurreição.O luto é apenas um instante das nossas vidas, para, a seguir, a família viver junta outra vez, para sempre ,como nas histórias de fadas. Metaforicamente falando, o luto faz-nos sofrer imenso como tem sido este ano para nós e procuramos, nas boas recordações, secar o pranto de várias semanas. Há uma continuidade na vida humana: a nossa filha, o bebé que deve aparecer em breve, na mãe e tio do José Miguel, o sítio onde apareceram para o venerar.Para mim, existe o consolo de que estes três desaparecidos, materializam-se na minha escrita….e no meu amar….