A figura carismática

não é preciso perguntar por quem os sinos dobram, porque quando dobram, dobram por ti.

Para os meus discentes de Antropologia da Educação do ISCTE-IUL

Ernest Hemingway baseou o seu livro de 1940, Por quem os sinos dobram, numa ideia do seu amigo e companheiro de luta, John Dos Passos, que tinha escrito em 1930 a frase ninguém é uma ilha, todo o ser humano é um Continente, pelo que não é preciso perguntar por quem os sinos dobram, porque quando dobram, dobram por ti.

Somos seres sociais, não existimos sós, formamos parte de um lar, mais tarde reparamos na existência de outros parentes, para continuarmos pelos amigos com os amigos de rua, mais tarde os íntimos, até ficarmos com a pessoa mais perto da nossa afectividade e, na base da mesma, somos capazes de reproduzir. Parece ser que o destino do ser humano é não ser indivíduo: é ser um ser social. Já Daniel Defoe em 1719 tinha experimentado, com base na vida de Alexander Selkirk, o náufrago que viveu só e isolado numa ilha do Pacífico, criar a figura do indivíduo, capaz de ser autónomo e de se servir e sustentar a si próprio inserido na natureza. No entanto, a realidade foi mais forte e, após várias páginas de aventuras e descobertas heroicamente isoladas, Defoe teve que criar outro ser humano, Sexta-Feira, nativo da ilha sem o qual Robinson não subsistia.

Os detalhes não nos são entregues pelo autor, mas pelo nosso imaginário milenar que pode pensar o que o curto imaginário do Século XVIII da Europa permitia pôr em papel: sem a amizade íntima de Robinson e Sexta- Feira, nem um, nem outro teriam sobrevivido. Tal como aconteceu na Espanha de 1939, durante a guerra civil da qual Hemingway e Dos Passos fizeram parte activa: o segundo já sabia, porque era mais velho, que a morte fratricida é também a morte dos que ficam vivos. Robinson foi o carisma de Sexta-Feira e vice-versa, como Dos Passos de Hemingway, e vice-versa. Carisma, esse processo social que imprime o carácter de um no carácter do outro, um sacramento social, diria eu. Especialmente se essa impressão de ideias, emoções e comportamentos, é a transferência efectuada pelos adultos às crianças. A criança está a entender, já sabemos, enquanto o adulto tem a capacidade de optar entre várias alternativas sintetizadas normalmente entre o bem e o mal, para simplificar. Bem e mal heterogéneo. O bem dos poderosos é o meu mal; o meu mal, é a mais-valia dos proprietários de bens e do poder de definir a lei. Dafoe tentava criar, no Século da subordinação absoluta de grupos sociais apenas a um outro – a aristocracia -, uma figura capaz de definir o que mais tarde aconteceria devido à criação do denominado mercado livre: o dito homo economicus, solitário perante a opção do investimento que procura a salvação do lucro. É perante este desenho das actividades humanas que a criança é colocada. É a criança estudada por Sigmund Freud, Melanie Klein, Françoise Dolto, Alice Miller, Daniel Sampaio, Manuela Ferreira, Ana Nuno de Almeida, Eduardo Sá, eu próprio e a minha equipa, entre outros, na Europa e noutros Continentes.

Nenhum destes investigadores configura o comportamento da criança dentro de modelos. Todos procuram entender a importância da figura carismática que a criança imita durante o seu crescimento, saiba ou não, seja consciente o adulto, ou não. Como sabemos – porque se não soubéssemos, não teríamos trabalhado com empenho em Antropologia da Educação, nem na Epistemologia da Criança e da Puberdade -, o adulto sofre da problemática de tentar ajustar a vida da criança à sua, às suas ideias, formas de vida, horários, emotividade, ritos e mitos. Mitos, essas ideias da realidade, ditas de forma metafórica, como as que são usadas por Alice Miller ao referir a vida de Jesus, José e Maria de forma paradigmática, como um grupo doméstico com objectivos específicos para serem parte do mundo e assim, colaborar nos objectivos pessoais e históricos escatológicos dos outros. Sintetizada a História, com o sincretismo cultural da vida de outros seres humanos que fizeram arder a vida social – Hitler, Mao-tsé-Tung, Staline – ou tiveram que calar perante uma infância reprimida – como Charles Chaplin, Buster Keaton, Pablo Picasso, esta forma de comparar usada por Alice Miller, denota a existência de figuras carismáticas, que a criança imita e acaba por resultar no tipo de personalidades referidas. Miller não cria um modelo: luta contra os modelos que medem o comportamento da infância para analisar, de forma dialéctica, as figuras que imprimem carácter no inconsciente da descendência. Inconsciente, o qual a vida social não está capacitada para entender, para planificar o seu dia-a-dia conforme a idade dos mais novos. Planificação que é preciso fazer apenas durante um tempo, durante o processo de entendimento da criança, desde o desenvolvimento inicial. Se existe uma obrigação para sermos adultos de carisma positivo, é a de explicar com paciência e palavras adequadas à epistemologia dos mais novos, o que acontece durante a História do tempo em que eles vivem como grupo. Ser figura carismática, impõe um dever no adulto de aprender a vida de uma forma nova, enquanto cresce junto aos seres humanos por eles reproduzidos. Alice Miller não determina: procura retirar ideias dos factos para os adultos entenderem o seu dever de educadores, processo que decorre a par e passo do crescimento mútuo, dentro de uma vida social em comum.

Este tem sido o debate do meu Seminário de Antropologia da Educação, debate que me tem permitido criar novos conceitos, os quais me fizeram crescer a par e passo com os discentes. Tudo isto, porque os sinos não dobram apenas para quem aprende, eles dobram também para o Catedrático que com eles debate e envelhece. Pode dizer-se que queremos crescer sem modelos, tal como os autores invocados procuram na sua pesquisa e dizem nos seus textos. Para sabermos sempre quem são os outros para quem também os sinos dobram, porque os sinos não dobram só para mim.

Ernest Hemingway baseou o seu livro de 1940, Por quem os sinos dobram, numa ideia do seu amigo e companheiro de luta, John Dos Passos, que tinha escrito em 1930 a frase ninguém é uma ilha, todo o ser humano é um Continente, pelo que não é preciso perguntar por quem os sinos dobram, porque quando dobram, dobram por ti.

Somos seres sociais, não existimos sós, formamos parte de um lar, mais tarde reparamos na existência de outros parentes, para continuarmos pelos amigos com os amigos de rua, mais tarde os íntimos, até ficarmos com a pessoa mais perto da nossa afectividade e, na base da mesma, somos capazes de reproduzir. Parece ser que o destino do ser humano é não ser indivíduo: é ser um ser social. Já Daniel Defoe em 1719 tinha experimentado, com base na vida de Alexander Selkirk, o náufrago que viveu só e isolado numa ilha do Pacífico, criar a figura do indivíduo, capaz de ser autónomo e de se servir e sustentar a si próprio inserido na natureza. No entanto, a realidade foi mais forte e, após várias páginas de aventuras e descobertas heroicamente isoladas, Defoe teve que criar outro ser humano, Sexta-Feira, nativo da ilha sem o qual Robinson não subsistia. Os detalhes não nos são entregues pelo autor, mas pelo nosso imaginário milenar que pode pensar o que o curto imaginário do Século XVIII da Europa permitia pôr em papel: sem a amizade íntima de Robinson e Sexta- Feira, nem um, nem outro teriam sobrevivido. Tal como aconteceu na Espanha de 1939,

durante a guerra civil da qual Hemingway e Dos Passos fizeram parte activa: o segundo já sabia, porque era mais velho, que a morte fratricida é também a morte dos que ficam vivos. Robinson foi o carisma de Sexta-Feira e vice-versa, como Dos Passos de Hemingway, e vice-versa. Carisma, esse processo social que imprime o carácter de um no carácter do outro, um sacramento social, diria eu. Especialmente se essa impressão de ideias, emoções e comportamentos, é a transferência efectuada pelos adultos às crianças. A criança está a entender, já sabemos, enquanto o adulto tem a capacidade de optar entre várias alternativas sintetizadas normalmente entre o bem e o mal, para simplificar. Bem e mal heterogéneo. O bem dos poderosos é o meu mal; o meu mal, é a mais-valia dos proprietários de bens e do poder de definir a lei. Dafoe tentava criar, no Século da subordinação absoluta de grupos sociais apenas a um outro – a aristocracia -, uma figura capaz de definir o que mais tarde aconteceria devido à criação do denominado mercado livre: o dito homo economicus, solitário perante a opção do investimento que procura a salvação do lucro. É perante este desenho das actividades humanas que a criança é colocada. É a criança estudada por Sigmund Freud, Melanie Klein, Françoise Dolto, Alice Miller, Daniel Sampaio, Manuela Ferreira, Ana Nuno de Almeida, Eduardo Sá, eu próprio e a minha equipa, entre outros, na Europa e noutros Continentes.

Nenhum destes investigadores configura o comportamento da criança dentro de modelos. Todos procuram entender a importância da figura carismática que a criança imita durante o seu crescimento, saiba ou não, seja consciente o adulto, ou não. Como sabemos – porque se não soubéssemos, não teríamos trabalhado com empenho em Antropologia da Educação, nem na Epistemologia da Criança e da Puberdade -, o adulto sofre da problemática de tentar ajustar a vida da criança à sua, às suas ideias, formas de vida, horários, emotividade, ritos e mitos. Mitos, essas ideias da realidade, ditas de forma metafórica, como as que são usadas por Alice Miller ao referir a vida de Jesus, José e Maria de forma paradigmática, como um grupo doméstico com objectivos específicos para serem parte do mundo e assim, colaborar nos objectivos pessoais e históricos escatológicos dos outros. Sintetizada a História, com o sincretismo cultural da vida de outros seres humanos que fizeram arder a vida social – Hitler, Mao-tsé-Tung, Staline – ou tiveram que calar perante uma infância reprimida – como Charles Chaplin, Buster Keaton, Pablo Picasso, esta forma de comparar usada por Alice Miller, denota a existência de figuras carismáticas, que a criança imita e acaba por resultar no tipo de personalidades referidas. Miller não cria um modelo: luta contra os modelos que medem o comportamento da infância para analisar, de forma dialéctica, as figuras que imprimem carácter no inconsciente da descendência. Inconsciente, o qual a vida social não está capacitada para entender, para planificar o seu dia-a-dia conforme a idade dos mais novos. Planificação que é preciso fazer apenas durante um tempo, durante o processo de entendimento da criança, desde o desenvolvimento inicial. Se existe uma obrigação para sermos adultos de carisma positivo, é a de explicar com paciência e palavras adequadas à epistemologia dos mais novos, o que acontece durante a História do tempo em que eles vivem como grupo. Ser figura carismática, impõe um dever no adulto de aprender a vida de uma forma nova, enquanto cresce junto aos seres humanos por eles reproduzidos. Alice Miller não determina: procura retirar ideias dos factos para os adultos entenderem o seu dever de educadores, processo que decorre a par e passo do crescimento mútuo, dentro de uma vida social em comum.

Este tem sido o debate do meu Seminário de Antropologia da Educação, debate que me tem permitido criar novos conceitos, os quais me fizeram crescer a par e passo com os discentes. Tudo isto, porque os sinos não dobram apenas para quem aprende, eles dobram também para o Catedrático que com eles debate e envelhece. Pode dizer-se que queremos crescer sem modelos, tal como os autores invocados procuram na sua pesquisa e dizem nos seus textos. Para sabermos sempre quem são os outros para quem também os sinos dobram, porque os sinos não dobram só para mim.

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