De Bangkok

Bem ao contrário daquilo que se quis fazer crer, o golpe de Estado que anteontem chegou ao fim, tinha contornos muito mais escusos do que a eterna luta entre “ricos e pobres”. Financiado por um conglomerado capitaneado pelo bilionário Thaksin, o chamado movimento “red” constituiu uma frente de descontentes. Se existiam grupos que realmente pugnavam por mais reformas democráticas – aliás em acelerado curso pelo moderado governo de Abhisit -, outros tinham como principal móbil, a garantia dos seus direitos de cacicagem local. De facto, durante o consulado de Thaksin, procedeu-se a um extensivo plano de consolidação de um poder pessoal que encontrava ramificações nas elites empresariais provinciais. Paradoxalmente, contaram com a colaboração do ultra-minoritário e há muito amodorrado PC Tailandês, um braço maoísta local. Precisamente seria este reduzido grupo de uma grande solidez ideológica e capaz de organizar as milícias bem armadas e treinadas à maneira dos Vietcong, quem acabaria por ditar a evolução dos acontecimentos. O fim da ocupação da capital tailandesa, era nada mais, senão a queda do regime e a nepalização do país, na senda daquilo que a China e os seus aliados de Wall Street têm promovido por toda a região. É uma luta de interesses geoestratégicos, precisamente no momento em que tomado o Nepal, controlando o Laos, influenciando fortemente o Camboja e a Birmânia, falta à China o controlo da passagem entre o Índico e o Pacífico. Neste momento, está aberta a passagem para a Índia, controlando o exército chinês as alturas dos Himalaias as nascentes dos grandes rios que nascendo nessa cordilheira, desaguam no Golfo do Sião, no Pacífico ocidental e no Índico. Pequim pode utilizar a água como garrote imposto aos países seus vizinhos.

O golpe de Bangkok falhou e ao contrário de todas as expectativas, as baixas foram num número infinitamente mais reduzido do que aquele que se previra. A Tailândia jamais foi colonizada – os locais não suportam ingerências estrangeiras -, as instituições são sólidas e para grande espanto dos observadores “bem informados” de Bruxelas, não houve um levantamento rural, não houve um levantamento operário, não houve um levantamento de estudantes e muito menos ainda, a solidariedade dos intelectuais. O país percebeu o que estava verdadeiramente em causa e condicinou fortemente o governo a agir, coisa que o executivo não podia de imediato fazer, dadas as condicionantes existentes. Escudos humanos em grande quantidade e milícias armadas e aptas a criarem a maior destruição possível, tal como se verificaria.
Habituados como estamos à ocidental e imediata rotulização dos mvimentos através de cores e de algumas palavras de ordem, os acontecimentos de Bangkok não foram contudo susceptíveis de excitar a esquerda europeia, decerto conhecedora da verdadeira natureza do grupo que abusivamente tomou como refém uma capital com dez milhões de habitantes. Plutocracia exacerbada ao paroxismo, cacicagem como forma de estrutura de Estado, feudalização do Sião relativamente ao imperialismo chinês, eis os dados que foram evidentes para os observadores mais atentos. Uma coisa dizia-se em siamês, quando aos microfomes se discursava. Outra era propagandeada nas faixas que se destinavam a “esclarecer” as cadeias de televisão ocidentais: quando gritavam a destruição do Estado e pugnavam pela criação do Estado Novo (!) Tailandês, de partido único e com Thaksin como Grande Líder, os oradores confiavam que os farang (estrangeiros) que os escutavam, acreditavam nos lemas que liam: democracia, igualdade, justiça, paz, etc. A velha técnica maoísta atingiu os requintes do refinamento, seguindo fielmente a cartilha bem conhecida: promoção do divisionismo nas forças de segurança (não conseguiram), procurar a sublevação de amplas camadas da população urbana e rural (não conseguiram), provocar o maior número de incidentes que conduzissem ao caos (tiveram um grande sucesso, comos e viu) e finalmente, fazer aumentar a parada de exigências até ao impossível. Quando o governo de coligação parlamentar propôs eleições para 14 de Novembro (o five points road map), a liderança “red” aceitou, para logo no dia seguinte exigir a prisão do vice-primeiro ministro e a queda de Abhisit, responsabilizando-os… pelos acontecimentos que levaram ao confronto de Abril! Inaudito e talvez eficaz nos anos setenta, mas não hoje.

Numa só noite, Bangkok perdeu os maiores centros comerciai da Ásia, equivalendo este desastre à perda simultânea do Colombo, Amoreiras, Vasco da Gama, Allegro Tejo, Continente, etc. Arderam dezenas de edifícios públicos e privados, perderam-se dezenas de milhar de postos de trabalho e este desastre de proporções incalculáveis, apenas pode ser comparável ao 11 de Setembro nova-iorquino.
Na Europa, a informação roçou a abjecção, excluindo-se apenas um ou dois honrosos casos. Habituados como estamos à intoxicação copy-paste através da rotulação fácil de movimentos, quase ninguém vislumbrou uma clara, evidente e omnipresente realidade deste alvor do século XXI. A concentração capitalista da globalização, encontrou na forma de organização maoísta, o perfeito instrumento de controlo das massas: partido único, imprensa controlada ou submissa, concentração de capital em grupos oligárquicos ligados ao Partido e exploração extensiva da mão de obra barata, abundante e disponível. Daí à clara aliança entre os já identificados grupos de Wall Street-Pequim/Thaksin/sectores da UE, foi apenas o natural passo que faltava.

O golpe falhou e este revés foi penoso para os derrotados que caíram sem dignidade e em assolapada fuga e sobretudo, para o povo tailandês. Pior do que as perdas materiais e os cinquenta mortos contabilizados, foi o perder da face relativamente ao resto do mundo, habituado a ver na Tailândia, um país de sorrisos, vibrante e riquíssima cultura, paisagens inesquecíveis e paraísos balneares de excepção.
Abhisit é um homem formado segundo rígidos cânones ocidentais (Oxford), é um moderado e em dois anos de mandato, triplicou o investimento do Estado nas zonas mais deprimidas do país. Acabou com a eliminação selectiva ou indiscriminada dos opositores que Thaksin facilmente acusava de drug-dealers (executou 2.5000!) e regressou às práticas conformes ao Estado de Direito. Se o exército não liquidou a subversão nos momentos imediatos à ocupação da cidade, tal se deveu ao conhecimento da escabrosa prática de escudos humanos, de que a liderança thaksinista se serviu para condicionar a resposta da Lei. Falharam. Em Portugal, apenas uma voz se ergueu para inconscientemente apoiar um movimento claramente teleguiado pela plutocracia internacional: o estoriador Fernando Rosas, quiçá saudoso dos seus tempos maoístas nos idos anos setenta. Onde vê um trapinho vermelho, lá está ele, ancho, solidário e risonho. Esquece-se é que o movimento de Hitler também era vermelho e até, socialista. Há coisas que não mudam. Estranha, esta aliança entre o capital e os Grandes Timoneiros? Bem vistas as coisas, não é.
Para a perfeita compreensão do ocorrido, sugerimos a atenta leitura deste artigo da autoria de Thanong, no The Nation Bkk. Esmagador.

Comments


  1. Olha que os tais maoístas do Nepal ganharam as eleições. E parece que na tua análise à Tailândia te esqueceste de um golpe de estado.

  2. Nuno Castelo-Branco says:

    Caro José, vamos por partes:
    1. Nem valendo a pena comentarmos mais o defunto projecto de “regime Thaksinista”, a questão do golpe de Estado remete-nos para 2006. Após esse golpe de Estado, voltaram a fazer-se eleições que foram vencidas novamente pelo partido do dito caudilho. Com maioria relativa, cerca de 36& dos votos, acabou por perder o poder, mercê de uma moção parlamentar e aformação de uma nova coligação composta pelo Partido Democrático e outros partidos menores, entre os quais alguns que abandonaram a aliança com o Pueh Thai. A imprensa internacional, sempre disposta a apoiar qualquer coisa que se inclua nos seus mitos ou afazeres empresariais – é o caso Berlusconi/Murdoch etc, etc -, tende a não querer ver este caso típico do jogo parlamentar. Embora tal seja improvável, não é ilegal a formação de um governo alternativo PSD,CDS,PCP e BE. Se o nosso país tivesse uma democracia normalizada – já aconteceram episódios semelhantes antes de 1906 -, tal conjunção de forças seria possível.
    Ora, o que está em causa é a questão dos dinheiros desviados pelo caudilho do almejado “Estado Novo” thaksinista. durante o seu governo, além de ter escandalosamente depredado os bens públicos com a liquidação de numerosas E.P’s (tradicionais naquela zona do globo, sem que para isso tenha de existir “comunismo”), essa venda de património foi fortemente contestada nas ruas, precisamente pela população. É que o fruto dessa negociata, acabou no desmembramento e liquidação das empresas do Estado e a passagem de um imenso caudal de dinheiro para as contas de Thaksin, da sua mulher, do seu cunhado – “apenas” vice-1º ministro – e restante clientela do seu Partido. onde é que já vimos isto? Pois…

    Agora, esgrimem com a “ilegitimidade” de Abhisit que não terá sido maioritariamente eleito. grande coisa… tal ia acontecendo há uma semana no reino Unido e se não se passou como Gordon Brown tentou, tal se deveu ao desacordo com Os Liberais. Apenas isso. Neste momento, no Grande Reich alemão, já se AVENTA a hipótese de uma inversão de alianças e o estabelecimento de uma coligação da CDU com os Verdes. A extrema-direita vai ocupar a Unten den Linden, o Reichstag, a Siegesaulle e o Tiergarten? Vai entrincheirar- com camponeses da Baviera, e vai construir paliçadas e possuía RPG’s, AK-47 e granadas de todos os calibres, além de espingardas de assalto Made in USA? Seria normal? Não. Mesmo se tentasse a aventura aliando-se aos maoístas – a mão de Pequim – os panzer da Bundeswehr esmagariam a brincadeira em menos de um dia. O exemplo do putsch da cervejaria de Munique (1923) ainda está bem presente. Não tenhamos ilusões. O que se passou em Bangkok seria suprimido em horas em qualquer país europeu, para nem sequer falarmos de Moscovo ou Pequim!
    Lembras-te da forma como o sr. Aníbal Cavaco Silva liquidou o assunto da Ponte em 1995? Pois é…

    2. Nepal. Neste momento, os maoístas andam aos berros nas ruas, tentando derrubar o governo do PC (clássico) que está no poder. A China precisa urgentemente de controlar os Himalaias (as alturas que abrem caminho para as planícies da destestada rival Índia “democrática”, a água dos rios da Indochina e Birmãnia). Vamos a ver no que o confronto inter-comunista dará. Dentro de um ou dois anos eespero novidades e não me parece que Pequim vai sair com uma vitória total. No quirguistão o mestre Putin antecipou-se ao avanço em direcção à Ásia Central. fantástico talhe de foice, em Pequim devem estar aos berros uns com os outros. Ao mesmo tempo, os russos convidam a US Army, o exército do R.U., o exército polaco e o francês a desfilarem em Moscovo no 9 de Maio. para o ano talvez já lá esteja a Alemanha e os italianos. Estás a ver o redesenhar do esquema defesa? Eu imagino-o….

    Uma vez mais, a Rússia é uma aliada aflita e o ocidente tenderá a aproveitar a oportunidade.

    Quanto à Tailândia, repito: jamais foi uma colónia, sente-se uma igual perante qualquer nação branca e não tolera artifícios mais ou menos descarados como aquele a que assistimos.

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