à descoberta da verdade é uma grande gargalhada

grande gargalhada descoberta da verdade

Sobre a utilidade social da Antropologia.

Todos começaram a rir! Às gargalhadas! Éramos vários cientistas a vender o seu peixe aos caloiros. Não era na praça do mercado, antes fosse, facilitava o debate. Era dentro de um grande anfiteatro, com três académicos em cima de um estrado e mais de trezentos caloiros sentados na plateia do auditório. Os peixes cheiravam segundo a pronúncia e a voz de quem falava. No meu caso, era a mar de rosas que sempre cheirava: o meu sotaque pesado, especialmente, para os mais novos não habituados a ouvir a sua língua materna, falada de forma britânica, galega, castelhana ou afrancesada. Os vendedores de peixe (académicos), muito sérios, usavam palavras caras nas suas intervenções. Caras, pelo rigor do vocabulário e a dificuldade do conteúdo. Quando chegou a minha vez, perguntaram-me para que servia a Antropologia. Sintetizando, devido ao meu modo de falar, (denominado por alguns alunos pelo termo carinhoso de Iturrês) lentamente respondi: “Na Antropologia nunca perguntamos quantas pessoas vão à Missa aos Domingos, nem fazemos inquéritos a um número proporcional de crentes; interrogamo-nos sim, sobre as causas que ditaram o dia da semana para a consagração da Missa”. Com esta abordagem, começava as explicações para aquele universo de alunos que tinha à minha frente, que vivendo dentro de um país Fatimizado, nada sabia de catequese. A gargalhada foi geral pela raridade da resposta e por fatimizar o país,

como se fosse um assassínio maciço. Fatimizar Portugal? Mas, quem é este académico estrangeiro que nem sabe que Portugal é terra sagrada, pelo facto de ter aparecido na vila de Fátima a Nossa Senhora? Fiz cabeça de turco e pedi explicações. Estas não paravam. Havia os que por sentimento de fé diziam, os que por simpatia narravam, os que por colaborar no saber histórico provavam, e o debate acontecia vivamente…! Tinha vendido o meu peixe, imensos caloiros passaram para o curso de Antropologia do ISCTE, nos anos 80 do Século passado, como anteriormente tinha acontecido com o meu sotaque castelhano na Grã-Bretanha, ou antes ainda, com o meu sotaque britânico na Galiza. O elo era sempre alcançado: começava, sem saber como e por onde, a interacção.

Interacção, como fatimizado? Não será intercalado? Não, interacção era e é, esse diálogo que abre as portas à intimidade com desconhecidos, que, amavelmente, gostamos de colocar dentro da nossa história pessoal, porque ao virem de fora nada sabem de nós.

Com ar sério, mas sempre surpreendido, o diálogo rompia entre os que sabiam muita ciência ou essa lógica metódica para avaliar o saber empírico, e os possuidores do saber empírico, alvo do cientista social. Saber empírico que se pode definir como o cálculo feito com os dedos; lei, ainda que não escrita, se pratica, como esse morgadio desaparecido da ciência do direito mas não de entre os habitantes de uma aldeia ou vila, a economia baseada na poupança do cêntimo, estruturada na colaboração do angariar força de trabalho para semear e plantar, força de trabalho que deriva do parentesco e das histórias de vida ou, simplesmente, da vizinhança, mas nunca de Adam Smith ou Milton Freedman, saber doutoral que não tem cabimento dentro do saber empiricamente lógico que acredita nas experiências como principais formadoras das ideias, discordando, assim, da noção de ideias inatas, definidas pelo saber doutoral.

O saber do Antropólogo é a procura do saber da economia empírica, utilizando, para isso, os saberes disponíveis, nomeadamente o académico, através do PIB ou Produto Interno Bruto, a base da riqueza de uma nação, do saber matemático dedilhado e dos teoremas retirados da reciprocidade (saber empírico). Essa base obrigatória de colaborar uns com os outros. Especialmente, quando dentro de uma nação há diversas formas de ser, várias etnias e saberes e racionalidades que, parece, não se encontram facilmente, sendo, pois, dever do Antropólogo conhecê-los, interpretá-los e explicá-los a si próprio e, depois, transferi-los para as palavras simples e quotidianas do saber da já referida interacção social. O povo português, como todos os outros, não é uma só estirpe, são várias ao encontro da Nação; não é uma só classe social, mas tantas como nem Marx imaginou. Saberes em desencontro que o Antropólogo tem o dever de explicar aos seus contemporâneos e aos mais novos para que possam ser cidadãos de utilidade social e não apenas operariado urbano ou rural. O elo central da Antropologia é a descoberta dessas palavras, teorias e conceitos culturais ou costumeiros, para os explicar aos formadores nacionais e decisores políticos, com palavras usadas no dia-a-dia e transferir as ideias empíricas para as ideias académicas, tendo em vista o encontro dos vários saberes em circulação.

O insucesso escolar muito se fica a dever aos modelos impostos de querer organizar uma população que pense como os doutores. O dever do Antropólogo, após a interacção no terreno, de trabalhar, suar e produzir na vida quotidiana de um grupo social, é transformar o saber adquirido em conhecimento erudito, simplificado, e assim organizar o saber para educar e desenvolver a lógica da pesquisa dentro da lógica empírica. É por isto que, muitos de nós, vão morar com habitantes de outras terras, outras nações, outras classes sociais para aprendermos o que eles sabem. Não para guardar o saber em livros ou em aulas universitárias, mas para explicar aos membros do saber doutoral que existe um saber paralelo dentro da lógica da mesma nação, que deve ser incorporado no, que eu denomino, saber doutoral. Todo o ensino é especial e deve ter duas vertentes: a da filosofia dos cientistas e a da filosofia do empirismo, esse saber pragmático que permite acumular bens, armazenar usos e costumes, não escritos, para não desaparecerem. Toda a ciência tem um saber especial para traduzir a lógica da cultura, que, no nosso país, é orientada pelo saber religioso pragmático. Existe a semiologia que explica o significado de uma palavra; a economia doméstica que produz e acumula património; o saber lógico da religião que orienta pragmaticamente a interacção social e, especialmente, o saber da educação usado no ensino dos mais novos. Saberes (todos) que devem ser usados como ponto de união entre duas culturas da mesma nação: a heterogénea do povo, dividida entre vários conhecimentos, e a hierárquica, arrogante (na maior parte das vezes) e difícil do denominado saber doutoral, esse que vive e mora entre quatro paredes, uma biblioteca e distanciado não permitindo ao povo entendê-lo. Pierre Bourdieu, que viveu a infância e a juventude entre os Kabila da Argélia, costumava dizer-me: “Nós não somos o que pensamos ser, nós somos o que os outros pensam de nós”, saber que, nos nossos debates, era sempre marginalizado ao ser menosprezado pela cultura doutoral que, paradoxalmente, inclui pessoas do saber empírico, as quais, como Pierre dizia, eram trânsfugas do seu saber pelo orgulho e anseio de serem doutores, não permitindo a acumulação do capital social do saber popular que, doutores ou não, vive dentro de nós. Saber que pode ser apreendido com o método aplicado por Paulo Freire e por mim próprio, ao retirar o conhecimento costumeiro, esse que parece não pensar, levantando-o às palavras e consciência do marginalizado povo, esse que é o nosso, mais uma vez, capital social.

Telefonei um dia a uma amiga minha, pertencente ao grupo do saber doutoral, para lancharmos juntos, não podia, aguardava os membros da sua equipa e os dados para ela analisar. Era simpática e amiga, não era Antropóloga: explicava a empiria através de estatísticas. O Antropólogo tem a utilidade social de interpretar a cultura para descobrir o saber popular e acumular esse saber empírico em interacção entre iguais e fornecer a descoberta do capital social do país na reciprocidade do tu trabalhas para eu comer, eu oiço como uma árvore, surda, cega e muda, para entender e explicar-te a ti e aos meus colegas, o que nós somos. Daí o saber médico do povo, da médica doutora Berta Nunes, daí o saber botânico da Amélia Maria Frazão, daí os saberes educativos de tantos, entre eles Ricardo Vieira, que auxilia o nosso Ministro de Ciência, como eu tenho feito, para converter esse capital social em formas de ensino entendidas por todos, ao ser retirado do saber da acumulação social a mais valia que configura o saber social. É este papel, não reconhecido ao Antropólogo entre os doutores, que tentamos resgatar, por ser de utilidade social auxiliando as denominadas ciências académicas, com palavras simples do saber popular. Uma aluna sintetizando dizia-me: a Antropologia é a ciência comparada, ou do saber comparado, dos diferentes. Logo descobrir a verdade não é gargalhar, é aproveitar as gargalhadas para saber, qual de entre todos os saberes comparados, é o verdadeiro.

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