Desejosamente…fugazmente viva

(pormenor - adao cruz)

 

Dizem as noites sem olhos que estás morta, excessivamente morta, provisoriamente fugazmente morta.

O electrocardiograma parece uma linha isoeléctrica, mas o coração pulsa. Há corações vivos que não pulsam!

O pulso do morto é o pulso de quem palpa o pulso do morto, todo o médico e enfermeiro sabe disso, mas ninguém lhes tira da cabeça que a morte ainda há-de oferecer, um dia, a alguém, um cálice de Porto.

O salto da neurobiologia ao pensamento está dentro da biologia evolucionária, e a morte que se acautele, porque o pensamento poderá libertar-se e marimbar-se para as suas ameaças.

Não esquecer, contudo, que a prenhez do pensamento pode tornar-se um suplício quando o défice do “ser” ultrapassa o voluptuoso incremento do “parecer”.

Dizem as madrugadas sonhadas que estás viva, fugazmente viva, provavelmente não excessivamente morta.

O orgulho da própria morte pode transformar-se numa embriaguez perigosa, que faz trocar a “velhice” dos vinte pela “juventude” dos cinquenta.

Traumatismos e superações são rosário de todas as vidas, plasticizadas ou não.

Pena é que o facilitismo da gestualidade se sobreponha à interpretação das matrizes da vida e redunde em arremedos de paraíso.

Dizem as manhãs acordadas que estás morta, excessivamente morta, desejosamente…fugazmente viva.

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