O Brasil em Lisboa


No verão e antes da praia, os passeios fazem-se à beira Tejo, aproveitando para conhecer melhor as magníficas perspectivas que a cidade de Lisboa apresenta quando é vista do sempre esquecido, ou desprezado rio. Para oriente, as decrépitas edificações que a gente da Câmara Municipal quer alienar em benefício do betão dos condomínios estrangulados por rodoviárias e carris de um indesejado TGV que qual charrua, arará várias léguas de terra construída há séculos. Pouco importará a liquidação de Xabregas e antigos vales pontilhados de quintas onde ainda se descobrem palácios que viram dramas familiares e festas de estalo. Para os senhores do momento, as festas são outros e os estalos, esses, merecê-los-iam nas suas luzidias faces.

Para ocidente, as antigas glórias da expansão. Dúzias e dúzias de vezes os mesmos percursos, e os mesmos edifícios onde há sempre algo de novo que pensei jamais ter visto.

No tempo fresco do inverno, a brisa húmida e alguns chuviscos, emprestam algum paradoxalmente agradável desconforto, dando-nos a sensação de algo que pode chegar ou se adivinha. Foi precisamente o que se passou esta manhã, quando um passeio a pé tendo as docas como ponto de partida, me conduziu uma vez mais, ao portal dos Jerónimos. Não me movem sonhos de grandeza passada ou de irrealizáveis desejos de um renascimento de um Portugal que de facto, já não existe. Tal como os egípcios de hoje – que mais propriamente deveríamos denominar de “misritas”, ou gente do país Misr -, apenas ocupamos uma terra que pertenceu a um outro povo, embora partilhemos muitos genes comuns que um tanto ou quanto abusivamente, ainda nos garantem o direito de nos denominarmos como portugueses. Passando adiante de considerações desnecessárias por tão óbvias serem, uma visita nos Jerónimos, proporciona sempre a eterna visão dos fiéis que indefectivelmente chegam para a missa e perdem-se do contacto com aqueles que também ali estão pelas mais variadas razões. Se são portugueses, aproveitam a bica e o pastel de nata ali bem próximos e fazem o roteiro cultural da praxe, descobrindo-se de vez em quando, um ou outro interessado em ver pormenores até então descurados.

Mas há outros portugueses. Aqueles que tendo nascido muito longe e jamais se imaginando como tal, chegaram à Europa em demanda de dias melhores para os seus. Refiro-me hoje, a uma família de brasileiros. Gente simples que talvez já até tivéssemos visto num restaurante ou ao balcão de uma loja, mas sem que deles déssemos conta, de tão comum o atendimento adocicado e deferente se tornou entre nós. Simplesmente, estivemos durante demasiado tempo habituados a um outro tipo de tratamento, onde o dedo na sopa,as frases rosnadas e o olhar de enfado, tornava menos agradável o mais modesto repasto na baixa.

Um casal e dois filhos ainda pequenos, alunos da escola primária. Coincidimos nos passos pelo monumento e não pude deixar de escutar os comentários acerca das maravilhas que iam descobrindo. Tudo eram magnificências e brilhos, talvez aparentemente exagerados por tão nossos conhecidos serem. A meia voz dentro da igreja, subira de tom no claustro, para voltar a um quase murmúrio na Sala do Capítulo. Palavras como cipós e lianas, surgiam naturalmente e talvez definiam a intenção de muitos daqueles que na grande obra trabalharam, numa por vezes indefinível transição da corda da faina marítima, para o elemento vegetalista. Cipós, é isso mesmo! A magia da liberdade interpretativa que deleitaria os desconhecidos que martelando o calcário, conseguiram aquela orgia de elementos susceptíveis de muitos e diversos olhares e sentires, quase como perante uma abstracção. Prosseguindo, a senhora dizia aos filhos e marido aquele sonoramente encantador “nossa… pensar que nossos antepassados estiveram aqui construindo esta beleza!”.

Os seus antepassados que construíram os Jerónimos. Olhando com ainda mais curiosidade para esta família brasileira já um tanto ou quanto lusitanizada, apercebi-me de uma já considerável distância relativa aos recordados antepassados que há tanto tempo teriam saído da terrinha e cuja descendência se cruzou com o património genético índio e africano que é bem distinto naqueles quatro seres. No entanto, os pequeninos já mesclam o acento da sua nacionalidade, com dizeres e expressões em português da Europa, o natural caminho que a língua tomou, quando estas crianças se inseriram no meio escolar lisboeta.

Uma simples frase atreve-nos à ousadia da intromissão num pacato passeio familiar. É fácil “meter conversa” com os brasileiros, sempre dispostos a pacientemente escutar e aproveitar para um bate-papo. Assim, com eles deambulei uma boa hora, mostrando-lhes alguns sinais de iniludível presença do Novo Mundo austral que os pedreiros de D. Manuel deixaram bem lavrado por todo o edifício. As catatuas brasileiras, as cordas que afinal para eles podem ser cipós amazónicos e obsessivamente, aquela esfera armilar que durante séculos foi para muitos, o sinal distintivo de um Principado que chegaria a Império. O medalhão de Pedro Álvares Cabral, perfeitamente recortado na pedra amarelecida pelo tempo e por um ainda recente restauro, consistiu no motivo para uma interminável sessão de fotos de família, destinadas quem sabe?, a fazerem parte de um e-mail para aqueles que do outro lado do mar ficaram. Os “nossas!” continuavam e a alegria pela descoberta do Cabral nos Jerónimos, complementou o visível orgulho pelo D. Pedro I e IV no Rossio. Afinal de contas, para alguns, tudo acaba por “ser a mesma coisa”, mesmo que de facto, não seja.

Não quis insistir na minha presença e antes de me despedir e desculpar por qualquer incómodo, apenas conclui aquela breve passagem pela ilusão daquilo que bem poderia ter sido uma realidade, dizendo-lhes que o Mosteiro dos Jerónimos é tão deles, quanto nosso. De facto, quantas vezes ouvi “portugueses de Portugal” rosnar a propósito de Mafra, da Batalha, de Belém, Queluz ou das Águas Livres, os típicos …”gastavam rios de dinheiro em pedras, enquanto o povo morria de fome”, além de outras anormalidades que o nosso tempo padronizou como verdades.

Quanto à política do dia a dia, nem uma palavra, pois o sortilégio de uma derrota ou de uma vitória, parece ser tão efémero.

Pelos vistos, nem tudo está perdido.

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