Contos Proibidos – Memórias de um PS Desconhecido. As Eleições Legislativas de 1976

continuação daqui

Apesar do difícil relacionamento, Felipe González demonstraria grandes qualidades de estadista ao compreender quer a amizade pessoal de Soares com os dirigentes do Partido Socialista Popular, quer a diferença de pontos de vista derivada da diferença de idades entre ambos. Também sabia que dentro do PS português tinha inúmeros amigos e que as bases simpatizavam com ele, como a própria cimeira do Porto demonstrara.
Estas delicadas questões tinham já sido abordadas numa reunião que tivera lugar em Lisboa, em Junho de 1975, entre o PS e uma delegação do PSOE chefiada por Nicolas Redondo. Quando então nos pediram para clarificar a situação, derivada do entusiástico apoio a Santiago Carrilho e da nossa tão ambígua posição, Mário Soares pediu a Nicolas Redondo que informasse o seu partido de que o PS «reconhecia o PSOE enquanto parceiro na Internacional Socialista, não obstante laços de amizade pessoal entre alguns socialistas portugueses e espanhóis não pertencentes ao PSOE».

O resultado eleitoral das primeiras eleições legislativas não corresponderia, contudo às expectativas. Nem às expectativas políticas dos dirigentes do PS, nem às dos amigos estrangeiros que tinham investido no PS. Apesar de terem sido gastos enormes meios financeiros na campanha, apesar de prestigiadas figuras internacionais terem vindo a Portugal exprimir solidariedade ao PS e, sobretudo, após o 25 de Novembro, a «gratidão» revelada pelo povo português neste acto eleitoral não seria aquilo que o futuro primeiro-ministro tinha esperado. O PS baixaria três pontos percentuais em relação às eleições para a Assembleia Constituinte e o PPD baixaria dois e meio. Os comunistas também perderiam terreno e como concluiria Freitas do Amaral «o CDS foi o único partido que subiu», de 7,5 % para 16 %! Qualquer analista poderia concluir que uma grande parte da direita, em 1975, utilizara o PS e até o PPD para travar o avanço do PCP. Mas também se compreenderia melhor a razão pela qual o PS, no dia 26 de Novembro de 1975, alinhara pela tese do major Melo Antunes em relação ao Partido Comunista. Não porque tivesse estado de acordo com aquele militar, quando afirmou ser o PCP necessário «para a construção do socialismo em Portugal», mas porque o secretário-geral do PS pretendera utilizar o PCP para meter medo à direita, convencido, como viria a estar a partir de então, que os socialistas só serviam para combater os comunistas. Esta análise, já viciada desde o acordo de governo assinado com o PCP em Paris, em 1973, motivaria os socialistas portugueses a tratar Sá Carneiro e o seu partido como «inimigos principais», cometendo um erro de estratégia que comprometeria para o futuro a sanidade política da sociedade portuguesa. O general Ramalho Eanes, que apesar de candidato do PS/PPD e CDS à Presidência da República era, até então, politicamente irrelevante, iria ter, graças aos resultados eleitorais, um papel determinante na vida política do País e, em especial, na vida interna do Partido Socialista.
Muitos dirigentes socialistas, contudo, apesar de não possuírem os meios para alterar a situação que o secretário-geral decidira sem auscultar o partido, entendiam que o apoio à candidatura de um militar, «imposto» pelo Grupo dos Nove não fazia sentido no regime democrático que pretendiam construir. O próprio Sá Carneiro via o futuro do País no quadro de um pacto de regime entre o PS e o seu partido, estando mesmo preparado para, dentro de um tal acordo, apoiar a candidatura de Mário Soares à Presidência da República.
O PS, que evidentemente se não poderia coligar com os seus ex-parceiros comunistas, após o 25 de Novembro, ou se coligava com o PPD, que se reclamava da mesma família política do Partido Socialista, ou teria que, com todos os riscos inerentes, governar sozinho. Uma coligação com o CDS, visto pela esmagadora maioria da opinião pública como um partido de extrema-direita e, ainda por cima, o único vencedor das eleições legislativas, seria impensável. Mas o secretário-geral do PS faria ouvidos de mercador aos conselhos de muitos dos seus amigos e, num acto de que se iria arrepender, escolheria a via do «PS sozinho». Estava então convencido, que o general Ramalho Eanes era um militar apolítico às suas ordens, que «estaria sempre, diante de si, como um aluno aplicado».
—————-
A partir de hoje, os «Contos Proibidos» de Rui Mateus passam a ser publicados diariamente no Aventar pelas 20 horas.

Comments

  1. Albano Coelho says:

    “(…) o CDS, visto pela esmagadora maioria da opinião pública como um partido de extrema-direita”…
    Creio que neste ponto se equivoca ou exagera. Ainda estava o longe o tempo do PPopulismo e do convite velado e/ou aceitação acrítica a/de indivíduos claramente conotados com organizações ilegais fascistas nesse partido.

    Mais: nessa época, como muito bem informa, o CDS cresceu eleitoralmente e isso não se deveu a que os portugueses, maioritariamente, o considerassem um partido de extrema-direita mas todo o contrário. Nessa altura o CDS conseguiu enganar bem o povinho fazendo-se passar por partido “do centro”. Lobo em pele de cordeiro como se costuma dizer. Arrisco mesmo dizer que o CDS só era considerado de extrema-direita por certos radicais esquerdistas para quem tudo o que se posicionasse à direita do PS era direita e extrema.

Deixar uma resposta

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.