no meu corpo mando eu: nem governo, nem médicos, nem…

…para Catarina Almeida, interessada na minha saúde, fez um comentário que inspirou este texto…

Normalmente pensa-se que somos governados, quer pelas nossas células, quer pelas nossas vísceras, ou pelos cidadãos que gerem a nossa soberania.

O primeiro é o corpo. Somos seres humanos e pode criar-nos brincadeiras

denominadas doenças, falta de saúde ou robustez e vigor, não permitindo, no nosso dia-a-dia, trabalhar para os nossos necessários lucros que nos alimentam com prazer. O corpo precisa de ser são a partir da sua própria defesa, daí o cuidado com a alimentação e a necessidade de repousar tantas horas como as que trabalhamos, para, assim, nos mantermos íntegros, justos, sinceros, rectosreto.

O corpo não é apenas esse conjunto de vísceras. As células que o compõem precisam também de uma ordem estética, de uma ética para o comportamento e assim não danificar as vísceras, normalmente atacadas pelo stress. Stress que aparece quando a vida não nos é feliz, como essa crise da economia que estamos a viver, por enquanto. Se a nossa ética não é direita, afecta a nossa saúde, especialmente no nosso país, alimentado sempre por carnes gordas, como o porco, acompanhadas com muito vinho e aguardente. Sempre se diz que a comida portuguesa tradicional, mantém uma pessoa sã. Nunca sabemos.

Há diferentes tipos de comida. O primeiro, é a que não se come por causa da pobreza, é a pior comida que há, é uma não comida. Hoje em dia há tantas pessoas nestas condições que foi preciso reforçar o banco alimentar, e outras organizações, e distribuir sopa entre os mais carenciados, facto de boa vontade e solidariedade com o próximo. Embora não seja um homem de fé, esta atitude é aprendida no seio das confissões como a cristã e a muçulmana (confissão dividida entre islâmicos e ismaelitas), entre outras. Estou certo que todo o ser humano ao longo da sua cronologia aprendeu uma confissão, que é como denomino as religiões do mundo. Enquanto estão bem, a divindade não existe, mas mal se adoece, a divindade é apelada. Não é o meu caso. Sei que não estou bem, mas é natural em mim como noutras pessoas, partilhar a solidariedade recíproca. Se assim não fosse, de onde nasce a irmandade social? Há muitos filósofos que tratam destes assuntos, como Tomás de Aquino em 1267-1273: A Summa Teológica; o seu homólogo Alfarrábio ou Al-Farabi, muçulmano do Século IX de quem Aquino aprendeu Aristóteles e fez das confissões uma solenidade ritual, com ou sem divindade. Aquino chega a dizer no seu texto Suma Contra os Gentios, 1226-1274, que é dever de todo o ser humano não julgar os outros nem com motivo nem sem motivo, porque não há motivo de pretender ser mais e melhor do que outros sem prova nem com prova. Mais tarde na cronologia da vida, o Abade Sieyés escrevia no seu texto sobre os Direitos do Homem e do Cidadão, A Declaração dos direitos do Homem e do Cidadão:

Art.1.º Os homens nascem e são livres e iguais em direitos. As distinções sociais só podem fundamentar-se na utilidade comum.

Texto inspirado na Revolução Americana (1776) e nas ideias filosóficas do Iluminismo, que a Assembleia Nacional Constituinte da França revolucionária aprovou em 26 de Agosto de 1789 e votou definitivamente a 2 de Outubro, sintetizando em dezassete artigos e um preâmbulo os ideais libertários e liberais da primeira fase da Revolução Francesa. Pela primeira vez são proclamadas as liberdades e os direitos fundamentais do Homem (ou do homem moderno, o homem segundo a burguesia) de forma ecuménica, visando abarcar toda a humanidade. Reformulado, numa segunda versão, no contexto do processo revolucionário de 1793, serviu de inspiração para as constituições francesas de 1848 (Segunda República Francesa) e para a actual. Também foi a base da Declaração Universal dos Direitos Humanos promulgada pela ONU. Texto redigido para os inglese por Thomas Jefferson e para os franceses, pelo Abade Emanuel Sieyès, resultante de debates, verificando-se, contudo, que há redactores que, simplificando-o, enviam-no às Assembleias e passa a ser lei. Se são respeitados ou não, é matéria dos tempos históricos e de uma condição humana: a exploração humana e a luta de classes.

Um segundo tipo de comida é a que acabo de escrever. Não material, é imaterial, mas dá ânimo para continuar a viver em calma, paz, serenidade e fraternidade. Não foi em vão que foi adoptado como mote na Revolução Francesa, as ideias de igualdade, liberdade e fraternidade, que a maior parte dos cidadãos sabem respeitar.

Um terceiro tipo de comida, é o respeito pelas pessoas. Por sim ou por não, pobres e ricos, sendo todos iguais, acabam por ter direito ao seu bom nome, à sua fama de honorabilidade, a ser ouvido sem comentário em contradição.

Mais diria eu, mas o espaço permitido para as ideias escritas, é curto demais.

Quanto aos governantes, especialmente em época de eleições presidenciais, sabem ver, ouvir e calar? Lia num jornal de hoje, dia 20 de Dezembro, que os candidatos à Presidência apelavam ao voto dos católicos, denominado por eles com o nome certo: a Doutrina Social da Igreja Católica. Se lêem o Catecismo, especialmente o de Karolus Wojtila (João Paulo II) de 1991 ou o Direito Canónico, é da minha incumbência, pela mentira ou pela verdade, por eu ser parte de quem escolhe. Nunca, até agora, tinha observado na minha vida que, candidatos declarados agnósticos, apelassem ao voto útil. O que observei sim, foi um Salvador Allende, abertamente ateu e maçom, como ele costumava dizer quando se tratava do tema, que foi Presidente de todos os chilenos, sem julgar as suas crenças. É a primeira vez que observo um socialista solicitar o voto católico por motivos de conveniência.

A Igreja Católica, como outras confissões não cristãs, não se imiscuem no saber do povo. Como fazem os Anglicanos, Coptos, Arménios, Ortodoxos Gregos e Russos. Há a livre expressão das crenças e a livre expressão das ideias políticas. O Bloco de Esquerda nunca se atreveria a tanto, os Verde menos ainda e o PCP, não está interessado. Se Alegre usa a religião para a sua campanha, é porque se sente perdido, e se Nobre toma vantagem de uma frase de Cavaco que diz ter-se preocupado sempre com os pobres levam-me a pensar duas ideias: a primeira, que, no seu desespero, Alegre confunde a política com a fé, facto que faz descer imensos pontos sobre o meu ápio a sua candidatura; a segunda, é essa calma com que um homem bem colocado na economia da vida, por heranças ou trabalho próprio, fala dos pobres, reconhecendo assim a luta de classes, que normalmente não aceita, excepto no falecimento do nosso laureado Saramago. Dom José Policarpo adverte que combinar ideias diferentes, é uma convulsão social. Como, diria eu, a própria Igreja Católica faz com a sua doutrina social. As encíclicas de Leão XIII e de Pio IX, como as do Beato Angelo Giusepe  Roncalli ou João XXIII, defendem os trabalhadores, apontam o desencontro entre horas de trabalho e de descanso, o abuso dos ordenados da revolução industrial, as necessidades de greves totais, como nos tempos que correm  pelo injusto aumento de 23% nos impostos, impostos nascidos apenas nestes dias para serem cobrados a partir de 1 de Janeiro de 2011 e outros subterfúgios do Orçamento de Estado, fazendo-me pensar que o governo é um desespero que assim não parecia quando começou a governar.

Quem manda em nós? Onde deposito a minha soberania?

Apenas fica para mim o meu corpo, que estudo, curo, analiso e defendo, o meu e o dos meus. A boa fonte de vida me submerjo se sei como tratar de mim, porque governantes e governados têm como comida, apenas as comidinhas enviadas pela luta cruenta de não saber mandar, pelo terror de perder um cargo ao qual aspiram, com ou sem a vontade do povo…  

Todos mandam em mim, mas no meu corpo mando eu. Como derradeiro bastião da minha vida…

 

 

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