a couvade. gravidez masculina

denominada também gravidez de simpatia

Para o meu próximo neto/neta britânicos, ainda sem nome, do seu avô português

Parece brincadeira, mas não é. A foto que mostro no texto é a imagem da psicologia dos pais quando as suas mulheres estão grávidas. Pode-se pensar que acontece apenas em sítios como na etnia Bororó[1], entre os Sambia[2] da Nova Guiné, ou, ainda, entre os Picunche do Chile[3] Seria um grande engano para a população.


[1] Tribo indígena brasileira do estado do Mato Grosso. A sua língua falada toma o mesmo nome. O seu tronco linguístico é o Macro-Jê, auto-denominada Boe. Os Bororós também são conhecidos por “Coroados” ou “Parrudos”.

[2] Analisados pelo Antropólogo Norte-americano David Herdt no seu trabalho de campo, do qual resultou o livro: The Sambia. Ritual and Gender in New Guine, 1987, editado por Holt, Rinehart and Winston, Chicago e Londres, onde diz: O modelo biológico do masculino e do feminino é válido para a definição celular; mas seria ilusório pensar que a identidade sexuada poderia ser definida a partir do biológico, a despeito das esperanças daqueles que nele quisessem encontrar uma solução para os problemas de identidade: isso seria ignorar que o essencial da sexualidade humana reside na sua dimensão inconsciente.

Quando tentamos definir em bases “sólidas” os termos masculino e feminino, encontramo-nos numa situação bastante incómoda. De facto, poucas palavras condensam conteúdos tão pesados e tão difíceis de precisar quanto masculino e feminino. Falar, como se faz frequentemente, em “características femininas”, como a graça, ou “masculinas”, como a coragem, é ater-se a definições tautológicas, limitadas a um sistema binário que repete indefinidamente, ainda que de formas variadas, as mesmas cópias. Com efeito, as mulheres da idade da pedra possuíam a graça e o recato daquelas que Cervantes descreve no seu Don Quixote? Referido in passim, entre as páginas 67-97 do mencionado livro, ou no artigo em: http://www.ceccarelli.psc.br/artigos/portugues/html/aconstrucao.htm.

[3] Estudados por mim entre 1997-2004. O resultado está em três livros, especialmente no de 2000: O saber sexual das crianças, Afrontamento, Porto, ou no que está guardado no repositório do ISCTE-IUL, ligação: http://repositorio.iscte.pt/ e no repositório nacional e internacional, ligação http://www.rcaap.pt

Livro intitulado O saber das crianças e a psicanálise da sua sexualidade, Março 2009

Malinowski no seu livro A Vida Sexual dos Selvagens[1] define a síndrome da couvada[2], que retoma largamente no seu livro de 1944[3]A síndrome referida acontece amiúde entre todos nós. Eu próprio, no dia em que a minha mulher ficou grávida da nossa segunda filha, tinha dores de corpo, feridas nas emoções e por tudo e por nada, desmaiava. Foi preciso ir ao analista e em quatro sessões ficou esclarecido para mim que eram ciúmes de ser a minha mulher o centro das atenções e não eu, bem como todos amavam já o pequeno bebé em útero ainda, enquanto eu, o pai de família, era relegado para segundo plano. Mal entendi, o analista disse-me que eu seria um bom psiquiatra: não é, pois, estranho que, na minha ciência da antropologia, tenha dedicado o meu saber a estudar crianças e criar a especialidade de Etnopsicologia da Infância.

A couvade, como síndrome: … consiste na apresentação de comportamentos similares a uma mulher grávida por parte de um homem, perto da data de nascimento do seu filho, incluindo dores.

Também conhecido por gravidez por simpatia, o fenómeno é pouco compreendido embora frequente e não existe uma base fisiológica conhecida. Podem estar presentes sintomas como indigestão, apetite aumentado ou diminuído, ganho de peso, diarreia, obstipação, dores de cabeça, etc.[4].

A Síndrome de Couvade não é uma doença, mas um conjunto de sintomas que podem aparecer nos homens durante a gestação. O pai exprime-se psicologicamente ao assumir a gravidez apresentando sensações semelhantes aos da companheira grávida. Os futuros pais podem engordar, sofrer com enjoos, desejos, crises de choro ou mesmo depressão. Para que isso não traga nenhum desconforto ao casal, é preciso estar atento a esses sinais e, cada vez mais, orientar os futuros pais e mães“, explica Alberto D´Auria, ginecologista, obstetra e director da Pro Matre Paulista[5].

A nossa cultura de Pater Famílias, definida pelo Código Civil Napoleónico de todos os países de hábitos latinos, coloca o homem em primeiro plano: ele manda, diz, fica enraivecido se as coisas não acontecem como quer. Mas, uma mulher grávida é digna de todo o respeito e cuidado, não deve trabalhar nem andar por todos os sítios apenas para ganhar poucos cêntimos mais, normalmente para o pressuposto familiar. Respeito que o neo liberalismo não aceita, fazendo a mulher trabalhar como mais um homem até ao final da gravidez.

As Senhoras, as nossas Amigas, sem as que não conseguimos viver, aceitam-no, como comento num texto meu[6]. Defendo que devem ser tratadas com a maior dignidade, como as mulheres das etnias citadas.

O que tenho observado dentro da nossa cultura, é que, mesmo grávida, a mulher deve servir o homem, quer em casa, quer no trabalho, lavar a sua roupa, acarinhá-lo como a um bebé. Quanto mais mulheres grávidas hajam, mais couvadas existem. Vergonha para o homem que não simpatiza com a mãe dos seus filhos, passando a ser uma espécie de bebé adulto, cheio de pêlos e com mau cheiro.

Muito haveria para dizer, mas não há espaço. As mulheres devem-se defender das loucas ilusões dos maridos, que chegam a bater nelas por estarem grávidas….

Para saber mais, pode ler o meu livro de 200 páginas: O saber das crianças e a psicanálise da sua sexualidade, texto e(m) português, como eu.

Haja deus que um homem puna e abuse da sua mulher engravidada por ele…meter-lho-ia em tribunal, por merecer punição…por maricas.


[1] Editado em 1927 pela Routledge and Kegan Paul, Londres, texto que define couvada como: um conceito usado para referir um grupo de homens relacionados pelas práticas masculinas conectadas ao nascimento de crianças, especialmente em sociedades primitivas, mas muito praticada entre nós, na Europa. O Ritual couvade e o síndrome couvade, são debatidos no texto como o desejo do homem de ter mais participação na gravidez da sua mulher, com a teoria proposta por eles é que o ritual couvada é uma analogia primitiva do desejo dos homens de hoje em dia de ter um papel mais activo e importante no nascimento dos seus filhos.

[2] Livro que pode ser lido em francês, em: http://classiques.uqac.ca/classiques/malinowsli/vie_sexuelle/vie_sexuelle.html Há uma versão portuguesa em formato de papel (1979 1ª edição), 1983, Editora Francisco Alves, Rio de Janeiro, edição que eu uso por ser melhor que a 1ª edição.

[3] Malinowski defina largamente a síndrome de couvade, no Capítulo 4, página 28 em frente, até a página 94, no seu livro de 1944:Uma teoria científica da cultura, que pode ser lido em: http://classiques.uqac.ca/classiques/malinowsli/theorie_culture/theorie_culture.doc.

[4] Retirado da minha análise com as palavras de rede de psicologia com., em: http://redepsicologia.com/sindrome-de-couvade-gravidez-por-simpatia

[5] Comentado no Jornal em Linha, O Progresso, ao qual pode-se aceder em: http://www.progresso.com.br/not_view.php?not_id=41981

[6] Mulher a crescer, machismo a tremer, in Jornal “a Página” , ano 9, nº 94, Setembro 2000, p. 25.

Comments

  1. graça dias says:

    prof muito nos conta com a ” a couvade”, manifesto a minha ignorância. obrigada pela sua explicação.

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