Há bancos a precisar do FMI em Portugal?

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Veio a público, aqui, a notícia do agravamento da dependência da banca portuguesa em relação ao BCE. A dívida externa do Estado é tema comum de notícias, debates e conversas, no dia-a-dia. Todavia, a parcela da dívida externa privada, titulada em boa parte pela banca, não é discutida por muita gente; mesmo pelos mais entendidos comentadores, economistas e “tudólogos” televisivos, a saltitar e doutrinar de canal em canal.

Omitida ou esquecida, a verdade é que a banca do País deve ao BCE 40,8 mil milhões de euros, ou seja próximo de 24% do PIB – ignoro se o Santander Totta, cujo presidente, Nuno Amado, é o primeiro da esquerda na fotografia, se integra entre os devedores, dada a dependência de Espanha.

Também é curioso saber que os bancos das três personagens centrais – Ricardo Salgado do BES, Faria de Oliveira da CGD e Carlos Santos Ferreira do BCP – concederam há pouco tempo um empréstimo de 250 milhões de euros a empresas de Luís Filipe Vieira para financiar projectos imobiliários: um “resort” no Algarve e uma urbanização na ultrajada zona da Expo, em Lisboa.

Ao falar de Luís Filipe Vieira, ressalvo  que não se trata de qualquer rancor clubista. Com efeito, nem sou benfiquista, portista ou sportinguista, nem confundo inchaço com gordura. O que me surpreende, e de certo modo revolta, é haver dinheiro para emprestar a este tipo de gente e destinado a projectos de mérito discutível. E simultaneamente, a  excelentíssima banca nega financiamentos a empresários e actividades de maior interesse para o crescimento económico do País.

Também desconheço se o consórcio bancário, BES-CGD-BCP, recorreu a financiamento do exterior para, em concreto, utilizar o dinheiro na operação realizada com o Sr. Vieira. Torna-se evidente, isso sim, que, para ele ou alguém semelhante, tem recorrido em força ao BCE, fonte em risco de se esgotar. Das dificuldades no horizonte, talvez se possa vislumbrar que, para obter fundos no mercado internacional, haja utilidade  na vinda do FMI para Portugal. Tanto mais que os custos decorrentes se repercutirão, em especial, nas contas públicas e naturalmente na vida dos cidadãos mais desfavorecidos.

Entre nós, há a ideia razoavelmente generalizada de que o FMI vem para Portugal a custo zero ou próximo disso. Veja-se, então, o caso da Irlanda; paga a taxa de juro de 5,8% para os 85 mil milhões de euros recebidos do referido Fundo. Sempre é mais baixo do que os 6,716% impostos ao governo de Sócrates pela recente emissão de dívida a 10 anos, mas a diferença não é tão substancial como alguns, mesmo políticos, supõem ou querem fazer acreditar. A aparente vantagem da presença do FMI em Portugal, para os banqueiros, reside na mudança de imagem e em aceder ao financiamento externo sob condições de maior agilidade e a custos mais baixos. Possivelmente ficarão a salvo de maior deterioração nas classificações de agências de “rating”.

Por tudo isto, parece-me, pois, pertinente perguntar: “Há bancos a precisar do FMI em Portugal?”.

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  1. […] e outras – o actual PR foi quem, como PM, inaugurou a moda em Portugal. Outros seguiram-no. Já aqui, em Janeiro passado, chamávamos a atenção para o facto de haver banqueiros interessados na […]

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