Senhor Primeiro Ministro

política do PS sobre educação

Senhor Primeiro Ministro. Com respeito mas com firmeza

A frase que intitula este texto acabou por ser famosa quando escrevi uma carta aberta à anterior Ministra da Educação. Era minha para ela. Mas, desta vez, a frase continua a ser minha para ser usada por si.

É sabido que governa em minoria e de todo não tem tido nenhuma ideia sábia na nomeação dos ministros do Ministério da Educação. O que aconteceu que a anterior ministra, já é parte da História, nem vale a pena lembrar mais, está em todos os blogues, sítios da Internet, da nossa curta cadeia de comunicação. Era mais fácil e rápido telefonar e dizer-lhe as minhas palavras. No entanto, a palavra escrita perdura, enquanto as faladas as leva o vento, ou são manipuladas ou esquecidas. O respeito e a firmeza não são palavras minhas para si. É uma frase para o Senhor Primeiro-Ministro nunca esquecer: respeito pelos seus eleitores e firmeza nas suas decisões.

Respeito pelos seus eleitores, parece-me que tem, apesar de muitos falarem mal de si, especialmente os seus colegas dos partidos da esquerda portuguesa, e ainda mais os seus rivais que lhe disputam o poder, do CDS-PP e do PSD. Dá-me a impressão que nenhum deles tem visto, nem está muito interessado, o que acontece na educação no nosso País. Bem sei, pelos meus antigos estudantes, hoje deputados da nossa Assembleia, que visitam os seu eleitores, sobretudo, em períodos pré-eleitorais, mas sei também que os melhores informadores dos deputados são os jornais que lêem, os jornalistas que comentam e os noticiários da rádio e das televisões. Foi Mário Soares quem inaugurara o que passaram a ser as Presidências Abertas. Bem como Jorge Sampaio. Eram programadas, avisadas atempadamente, e eles ouviam e debatiam ao pé do rio, à sombra das árvores de um mato, e o Presidente enviava o que entendesse à Assembleia. Na maior parte dos casos, eram as problemáticas do povo que tinha depositado neles a sua Soberania, para a Assembleia legislar. Como também faz o Senhor PM. Visita, ouve, está informado, como se fosse um Primeiro-ministro em trabalho de campo, como fazemos nós, os Antropólogos, especialmente os que dedicamos o nosso saber à Educação e à etnopsicologia da infância.

É assim que o PM, como tantos de nós, sabe que a população escolar tem a tendência para diminuir. Este País é cada vez mais de velhos e concentrado em centros urbanos que proporcionam trabalho, como, entre outros, Lisboa, Porto, Braga, Bragança.

A minha surpresa foi grande, como deve ter sido a sua, ao reparar que em sítios como Os Vales, em Alfândega da Fé, ou Cotas, Alijó, Vila Real, as escolas tinham um número mínimo de estudantes que até a professora se aborrecia. Sítios do Norte e do Sul do país, têm a tendência a diminuir a sua população escolar. A professora de Vales tinha 8 estudantes, de diferentes graus de ensino básico e devia repartir-se entre os mais novos que não sabiam ler e escrever, e os mais crescidos, que precisavam da história, da matemática e da geografia. No sítio em que fiz e faço o meu trabalho de campo em Portugal, Vila Ruiva, Concelho de Nelas, nos anos 80 do Século passado, havia pelo menos quatro docentes para uma população escolar de mais de quarenta estudantes de diversos ciclos, enquanto na Vila de Senhorim, da mesma Freguesia, havia um infantário com oito pequenos e pequenas e uma escola com quatro estudantes. Vila Ruiva tem 12 aldeias e nem todas têm escola. Como, aliás, acontece em vários sítios do país. Facto que me faz lembrar o desenvolvimento da Espanha, nos anos 70, quando estudava as formas de pensamento das crianças das Paróquias galegas. O Ministro da Educação do Ditador, Fraga Iribarne, teve a sagacidade de concentrar em Agrupamentos Escolares as crianças de todas as pequenas aldeias na vizinhança de Vilatuxe, como em outras Paróquias. Dividiu o país em Agrupamentos até cem estudantes que cursavam, desde o ensino básico até ao secundário, no mesmo local, vindos desde as suas distantes aldeias, para a mais central, a de Vilatuxe. Ou no Chile, onde, também, estudei crianças que frequentavam o ensino desde a primeira classe até finalizarem o Secundário. A regra nestes países, era calcular as distâncias, nem longe nem perto, dando origem à organização de um segundo mapa desses países: o mapa académico. Esta concentração escolar obrigou as autoridades a construírem vias de asfalto necessárias aos autocarros que transportavam os estudantes. A jornada de estudos começava às 8 da manhã e terminava às 15. Os que moravam mais distantes, podiam optar pelo regime de internato, os almoços eram da responsabilidade das escolas, um comer proporcionado pelo Estado, o que baixava os custos do lar destinados à educação.

É aí onde, Senhor Primeiro-ministro, deve ter firmeza. Em Portugal, nesta nova etapa, cada vila ou aldeia vai disputar a primazia para acolher o agrupamento escolar. Haverá as que, pouco preocupadas, sem sítios nem condições para dar as aulas o reivindicarão. O seu dever é dividir o mapa escolar do país conforme as distâncias e a população a servir.

Atenção Senhor PM: não se deixe amedrontar. O investimento não é em submarinos nem em TGVs: é para aumentar o saber das nossas crianças, o futuro da nossa nação, o investimento mais importante do Estado

Crianças que devem estudar para aprenderem e orientarem os destinos da nação e não serem apenas passadas de um para outro ano escolar, sem serem examinadas. A minha querida Ana Benavente, quando foi Secretária de Estado para o ensino básico, criou um sistema no qual todos passavam para o ano seguinte, com exames no fim desse ciclo. Grande fracasso: o que se sabia no último ano, era o que se lembrava. O resto, era História.

Deve ter respeito e firmeza no processo que eu denomino ensino – aprendizagem, com debate entre docentes e pais dos estudantes. A sua Ministra é uma excelente escritora, mas para a educação…!!!! Porquê sempre senhoras que de educação nada sabem e não planificadores, economistas, arquitectos, engenheiros, para construírem a base da nova forma de ensinar com entusiasmo e prática?

Não se amedronte, Senhor Primeiro-ministro: estude os exemplos fornecidos, nomeie uma comissão parlamentar de terreno, não de Assembleia, capaz de se deslocar aos sítios e responsável para delinear uma nova escolaridade, com docentes e cientistas da Educação a orientarem.

Esse é o seu dever. Se assim o não fizer, o seu governo vai cair e os seus rivais da direita, vão investir em prédios e pouco em profissionais. As universidades têm cursos de Antropologia e Sociologia da Educação: tome essa vantagem.

Boa sorte para si e tenha a força suficiente para consultar docentes e especialistas em educação para um novo mapa do país: o da Educação.

O seu constituinte

Professor Doutor Raúl Iturra

Catedrático ISCTE-IUL

Entopsicólogo

Criador da Antropologia da Educação em Portugal

Este texto pode ser lido no Jornal O Interior da Guarda e Covilhã e no blogue Estrolabio, onde apareceu primeiro publicado

Comments

  1. António Ferreira says:

    Digníssimo Professor Doutor Raul Iturra,

    Concordo com V. Exa em quase tudo o que refere na sua carta. Eu não tenho nenhuma ideologia política porque não acredito na política (leia-se políticos).
    No que “quase” não concordo é que esteja a dizer ao PM para ter firmeza nas sua atitudes. Porque se reparar bem, o PM tem sempre bastante “firmeza” nas atitudes que toma. Já reparou que os pobres estão mais pobres e os ricos mais ricos? Já reparou que com a “firmeza” do PM a nossa classe média – tão sabiamente chamada de trabalhadora – passou a chamar-se “classe mais que pobre” ?
    É claro que me preocupo com a Educação das nossas crianças. Preocupo-me com o facto de se deslocarem professores para sítios remotos do nosso Portugal, mas preocupo-me mais com o facto de essas nossas crianças terem de se deslocar quilómetros para aprender a ler e pouco mais!!! Sendo V. Exa um ilustre estudioso das gentes, compreenderá que será mais fácil “Maomé ir à montanha que a montanha a Maomé”. Essas crianças a quem desejam “deslocar” são, na sua maioria, oriundas de famílias desfavorecidas. Famílias que se levantam às 4 e 5h da manhã, para levar as crianças à escola (a pé) que fica a uma distância considerável e depois voltarem a casa para irem trabalhar e fazerem o percurso de volta à escola ao fim do dia, a buscar as suas crianças. Afinal, queremos as nossas crianças instruídas não é? Então porque não dar trabalho aos tantos professores que precisam de trabalhar e que por causa da política “firme” do Governo não conseguem colocação?
    Digníssimo Professor Doutor, queria eu ter sido breve mas acabei por me prolongar.
    Para terminar deixe-me que lhe diga que eu não fui uma dessas crianças, até tinha uma escola a meros 500 metros de casa e no meu tempo a professora tinha que ensinar pouco mais de 40 crianças desde a 1ª até à 4ª Classes e nunca se cansava de nos dizer para aprendermos depressa e bem para que o nosso futuro fosse melhor que o dos nossos pais (isto antes do 25 de Abril) – Obrigado professora Estrela. Hoje, com 46 anos de idade, sou aluno universitário porque tive vontade de aprender um pouco mais.
    Bem aja.


  2. Obrigado pela atenção;Eu não queria ser Primeiro Ministro,nunca!Em minha modesta opinião,de todos os Primeiros Ministros,o actual deixou todos os antecessores em ultimo lugar.Quem é que gostava que a mãe fizesse o aborto e o deitasse no contentor do lixo?Qual é o resultado de casamentos de seres do mesmo sexo?Qual é o ser vivo mais perfeito no Mundo?Em tempo de crise em parte provocada pelos anteriores Ministros,que agora dizem que não foram eles,que se fartaram de trabalhar,e que a culpa é do Snr Ministro Sócrates.Para que se compraram dois submarinos,foi para estarem em exposição no Alfeite?Quem é o Ministro que paga todos os meses a duas guarnições dos submarinos?Vendam-nos ,porque só estão a dar prejuizo aos portugueses.Para que compraram tantos aviões?Para que são precisos tantos generais e almirantes?Para que são precisos tantos deputados?A crise de emprego,quem é que quer investir?Só se for o Estado!São precisas traineiras modernas,é preciso reparar a Rede Ferroviária,é preciso construir carruagens modernas de dois pisos.É preciso gastar menos em armamentos.Eu quando chefe de combóio chegava a trabalhar 24 horas seguidas,sendo responsável pelas vidas dos passageiros!O Fiscal do Governo,era só para passear de combóio,e grandes petiscos.Fico por aqui já é um comentário grande!Mauricio Arrais.Ebrantes.

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