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Bem sei que tenho andado desaparecido. Peço desculpas aos meus leitores, especialmente aos que comentam os meus textos, poucos, mas bons.

Tenho andado desaparecido por boa causa, penso eu. Primeiro, ainda ontem acabei mais um novo livro: Yo, Maria de Botalcura, a psicanálise de uma senhora que viveu todas as tragédias da vida e acabou por sarar. Livro escrito em 2007 e reescrito esta semana. Entreguei a vós em excertos. Essa entrega estava cheia de gralhas e não tive nenhum comentário, como é natural: ou escrevo textos complexos, ou textos que ninguém acaba por entender e aceitam, agradecem, mas nenhuma palavra de apoio a minha escrita aparece. O livro, reescrito, ficou muito melhor e em castelhano, língua que todos os portugueses entendem, por ser castelhano chileno, castiço, que ainda guarda as palavras e formas de se exprimir do Século XVI. Assunto que acontece por ser o Chile um país isolado, uma faixa costeira no fim de mundo, entre o deserto de Atacama ao norte e a Antárctica, ao sul, sítio que tem seis meses de noite e outros seis de luz de dia. Mas, a temática era-me tão interessante, que não parei em detalhar esses doze mil quilómetro de cumprimento, entre a Cordilheira dos Andes e o mar, e esses

quinhentos de largura, o único sítio mais largo do país. Geografia louca, como diz um escritor chileno, Benjamín Subercaseaux, en 1961: Chile, una loca geografia, ensaio que refere a vida social do país e vida política, publicado pela Editora Ercilla, Santiago do Chile. Geografia tão louca, que, ao comparar a vida social com as formas da terra, é possível ver que a parte mais estreita do pais são cem metros de largura entre os Andes e a Cordilheira do mar, en Paine, centro do Chile: foi preciso escavar um túnel para a auto-estrada Pan-americana poder passar: porque a linha do comboio ocupava todo o território. Chile, é o país dos terramotos, entre duas cordilheiras e o amplo Oceano Pacífico, a ponto de se deslizar dentro do mar. A vida social e política, reitero, é como a forma do país durante estes duzentos anos de vida independente. Independente da coroa de Espanha, mas não independente dos países poderosos ao norte do continente e do continente velho, que se apropriam de todo o que o país produz, a preços baixos e são vendidos aos próprios chilenos, a preços altos. Chile carece de indústrias transformadoras, é apenas capaz de vender bens en estado brutos. Como a vida histórica do pais que é uma loucura de renzilhas pelo poder e que apenas hoje em dia, tem-se estabilizado, após receber um terramoto social que matou a um Presidente da República. Foram precisos cento e oitenta anos para retirar ao país da sua louca geografia… um país lindo, que admiro, amo e adoro. Quem me dera tornar a esse sítio e falar, mais uma vez, a minha língua, da forma em que descrevo no meu novo livro: Yo, María de Botalcura
Um segundo motivo teve-me longe de vós. A vida passa como um pestanejar. Ainda lembro os anos dos meus quinze de idade, passados com os amigos da mesma idade, trocando carros para usar os de rodos, mas sempre colados e juntos. Comentávamos: o que será de nós quando tenhamos cinquenta anos. Os anos passaram, estamos ainda todos vivos, mas sempre a lutar por um Chile livre e espontâneo, amigo e acolhedor… quando não há terramotos sócio políticos ou de terra…
Aparecem não os cinquenta, mas sim os setenta, já não temos nenhuma utilidade e somos enviados à rua sem sermos advertidos e sem dinheiro para o nosso futuro. Choramingar não adianta. O que ganha, é lutar pelos nossos direitos apartados da vida real. Essa é a actividade que me tem tido ocupado estes dias: recuperar os meus direitos da louca geografia da instituição em que trabalho, que nem querem falar comigo, por causa dos seus erros que custar-lhes iam ou muito dinheiro, ou um aceitar que a carga de água que caiu sobre mim vem da instituição e não das minhas constantes lutas para viver certo e seguro os derradeiros anos da minha vida. Assunto que não acontece, assunto para o qual no sou ouvido durante mais de vinte anos de solicitar esses direitos, que queiram ou não, a lei manda cumprir.
A minha vida académica começou aos dezassete anos, com grande sucesso até o dia de hoje. Passei pelas melhores Universidades do mundo para estudar e, mais tarde, para ensinar. Porque esse número 50 na imagem deste texto? São os anos de pesquisa, de escrever, de investigar e, o que mais amo, de ensinar. Um terramoto caiu sobre a minha vida por estar sempre a fundar, a criar, a transferir saber, até o meu corpo não resistir mais e cair num profundo fosso de solidão e de escrita, o segundo maior prazer da minha vida. Prazer que preenche os meus dias.
A minha vida académica, até o ano 2007, foi extremamente activa: Edimburgo, Cambridge, ISCTE-IUL, Compostela na Galiza, Barcelona, Collège de France, École des Hautes Études, outras portuguesas, como Porto e Coimbra. Posso morrer em paz, a minha tarefa está cumprida, acrescentando os sessenta e cinco livros publicados en vários países, en línguas que nem eu ser ler ou entender.
Cumprimento aos que se têm esquecido de mim, agradeço aos que me acompanharam e estou certo que este engano será tratado.
A minha maior tristeza, é não poder ensinar, nestes poucos anos que me restam de vida e de essa solitária criação literária, acompanhado apenas pela mulher que amo e trata do meu português.

Estes cinquenta e quatro anos de vida académica passaram como esse pestanejar que menciono ao começo do texto, sem um segundo de descanso porque a vida é curta e o que podemos saber, tão cumprido como essa louca geografia do meu país natal: O Chile, a quem ofereço esta azarada vida de aprender, fundar, criar, orientar e a minha literatura… Ser académico é a maior das alegrias, a segunda a segui a amar e ser avô…

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