as minhas memórias-3-a vida rural no Chile

as casa dos trabalhadores rurais são todas de adobe na América Latina

A vida rural do Chile, é mal conhecida fora do país. O que se sabe, é apenas que são sítios agradáveis, com muito calor no Norte e Centro do País e frio e chuva a partir do centro sul, praticamente desde a cidade de Puerto Montt, que dos 794.529, de longitude do Chile continental e antes de começar a chamada costa desmembrada, por outras palavras, o Chile que é apenas milhares de olhas, até a cidade de Punta Arenas, que limita com a Antárctica Chilena, está situada no quilómetro 48.583,6, da placa continental e contínua. A partir desta cidade, é apenas possível transitar ou em barco, ou em ferries, ou pela nova carreteira que foi construída como pontes sobre as ilhas mais larga, ou carreteira de Puerto Aysén. Carreteira que não consegue unir a placa contínua entre Punta Arenas e Puerto Aysén.

São sítios de chuva permanente y fria. A Carretera Austral (Ruta CH-7) é uma rodovia localizada no sul do Chile. Seu traçado actual de 1.240 quilómetros une Puerto Montt a Villa O’Higgins na comuna de O’Higgins, sendo a principal via de transporte terrestre da Região de Aisén e da Província de Palena na Região de Los Lagos, permitindo a ligação destas com o resto do território chileno.

Devido às complicadas características geográficas do território, no qual predominam os Andes Patagónicos, lagos, turbulentos rios e a presença de campos de gelo, a rodovia está em permanente manutenção. Por outro lado, grande parte da rodovia carece de pavimentação.

Sua construção iniciou-se em 1976 por ordem do Regime Militar, sendo um dos projectos mais caros e ambiciosos de todo o século XX no Chile. O trabalho dos membros do Exército do Chile habilitaria os diferentes trechos da rodovia ao longo dos anos 1980 permitindo a conexão da Patagónia chilena com o resto do país após anos de isolamento. A rodovia ainda não está completa e vários trechos são percorridos através de balsas, principalmente na parte setentrional da província de Palena, entre Hornopirén e Caleta Gonzalo. Fonte: Dirección de Vialidad: Carretera Austral, nome alternativo à Carreteira de Puerto Aysén, que, ao todo, tem 1240 quilómetros de extensão. A seguir a cidade de Puerto Montt, existe a de Llanquihue, com um clima frio mas amenos, por estar resguardada pelas duas cordilheiras, dos Andes e da Costa, e em sítio baixo, onde o vento frio não entra.

A partir de Puerto Montt, todo o território está habitado por cidadãos alemães, que, ainda que nascidos no Chile, não abandonam essa dupla nacionalidade, alemães que no sabem castelhano e falam na sua língua nativa. Este facto deve-se ao programa do Presidente Manuel Bulnes Prieto que governara o país entre 1841 e 1846. Em 1853 foi a Presidência de Manuel Montt Torres, entre 1851 e 1861. Era a época dos decénios, em que os Presidentes podiam ser reeleitos. Os dois repararam em dois factos: as guerras civis nos países germânicos e na unificação italiana com Garibaldi. Estimou que os alemães eram mais civilizados, fez um convénio com vários estados monárquicos, com uma larga população, e os convidou a habitar o Sul do Chile. A sua desculpa era que o clima dos sítios mencionados, era semelhante aos dos seus sítios de origem; o segundo facto, era que essa parte do Chile estava abandonada, sem população, sendo o limite do país a cidade de Puerto Montt. Pensou também que eram pessoas para trabalhar no duro e capazes de criar indústrias, como nos seus estados. A imigração alemã foi uma mais-valia para o Chile. 1848 foi um ano de grande imigração de alemães e franceses, a imigração de alemães foi patrocinada pelo governo chileno para fins de colonização para as regiões meridionais do país. Esses alemães (também suíços e austríacos), significativamente atraídos pela composição natural das províncias do Valdivia, Osorno e Llanquihue foram colocados em terras dadas pelo governo chileno para povoar a região. Porque o sul do Chile era praticamente desabitado, a influência desta imigração alemã foi muito forte, comparável à América Latina apenas com a imigração alemã do sul do Brasil. Há também um grande número de alemães que chegaram ao Chile, após a Primeira e Segunda Guerra Mundial, especialmente no sul (Punta Arenas, Puerto Varas, Frutillar, Puerto Montt, Temuco, etc.) A embaixada alemã no Chile estimada que entre 500,000 a 600,000 chilenos são de origem alemã: um alto número de estrangeiros de apenas uma etnia, para um país de uma população estimada em 17.000.000 de habitantes. Praticamente, as províncias mencionadas antes são de origem alemã, por ter nascido lá e aparecidos no Chile a seguir, o por ser descendentes cós, diria eu, os primeiros colonizadores do sul do Chile.

A vida rural de todos, chilenos, alemães, italianos, mapuche, desenvolve-se em paz e calma, especialmente o centro do Chile, que possui a maior parte da população, estimando-se que apenas en Santiago, a capital da República, moram perto de 6 milhões de pessoas. Santiago do Chile, é quase um país, é quase todo Chile! Nas áreas rurais, moram menos pessoas, por causa do cultivo das extensões de terra, que podem chegar a ser de quase mais cem hectares de terra preta, boa para o cultivo, especialmente para as videiras. As províncias de Colchagua, San Fernando, Paine, Pelequén, produzem os melhores vinhos, bem cotados no mercado internacional, especialmente o distinto de Santa Cruz, de pequenos proprietários mas que formam uma cooperativa para juntar os cultivos de plantas que necessitam de grande espaço para ser cultivadas. Tive a grande sorte de estabelecer amizade com uns dos proprietários, o Senhor Celestino Correa, e as suas filhas. Não apenas me recebiam na sua casa nos dias de trabalho de campo ou investigação em terreno, em tempos em que comecei a ser Antropólogo, além de já exercer a advocacia no Chile, antes de me casar e correr para as Universidades britânicas, nas que completei os meus graus com um Magister em Educação e Antropologia, na Universidade de Edimburgo, para transferir-me, a seguir a de Cambridge, e completar outro Mestrado em Etnopsicologia de Infância e o meu doutoramento. Espero que este comentário, santo e puro como é, não torne a por furioso a quem comentou o meu texto Os trabalhos que custa ser académico… Mas é a realidade, uma realidade pela que muito se trabalha para a ensinar a outros. Em Santa Cruz, nos anos sessenta, éramos um grupo imenso de profissionais a ensinar a ler e escrever aos trabalhadores e a colaborar a firmar sindicatos agrícolas.

A característica do trabalho rural, era a de não contratar ninguém e assim não pagar impostos pela mais-valia produzida pelos jornaleiros que eram melhor trabalhadores quando não sabiam ler nem escrever ou analfabetos, com uma taxa estimada em 4% entre a população com mais de 15 anos de idade. Os mais novos, é razoável que sejam analfabetos, estão a preparar os seus estudos e não contam para as estimativas mencionadas. Mas, os mais velhos, se forem analfabetos, ganhavam menos dinheiro que os que sabiam ler e escrever. Os letrados podiam ser capatazes, transferir-se a outras terras ou outros trabalhos nos que não se usava o corpo para criar bens.

Os produtores rurais, eram de vários tipos. Havia as famílias herdadas junto com a terra, para os próximos proprietários, como narro no meu livro escroto em Castelhano: Yo, Maria del Totoral, no prelo. Havia os trabalhadores jornaleiros, que se juntavam a outros da mesma fazenda ou apareciam uma vez e nunca mais voltavam – daí a palavra a palavra jornaleiro, uma jorna apenas. Os inquilinos estavam praticamente adscritos à terra, recebiam casa, terra para ser trabalhada pela família, como referi no capítulo 2 das Minhas Memórias. Como sempre referi, os inquilinos é apenas uma metáfora de escravo: estavam para todo serviço, conforma a vontade do proprietário. Eu tive, nas terras do meu pai, um inquilinos cujo dever era transportar-me em braços se eu estava cansado, e preparar o meu cavalo para eu usar ou acompanhar a mãe do meu pão, nas suas quotidianas saídas para vigiar os trabalhos, sentada à Senhora, numa sela com apenas uma estribeira para o pé esquerdo, enquanto o direito era cruzado por cima de uma algibeira, parte da sela, para se assegurar. Era um terror, a Avó Lucrécia: sempre de fuste em mão para bater nos trabalhadores a sua vontade. Não consigo esquecer a raiva que todo isto me causava, comecei a ser amigo do meu escravo, nunca mais permiti levar-me ao colo nem trata-se do meu cavalo: se ele é capaz, eu também sou, pensei um dia. Assim conquistei a minha liberdade, os anos passavam, o outro Raúl, esse que me levava no colo antigamente e cinco anos mais velho que eu, ganhou confiança comigo e começamos as falar do que sempre se fala na vida rural: de sexualidade, das mulheres, de que teria engravidado a essa senhora e outras conversas picantes que excitavam os nossos genitais, até eu perceber que levava a mão ao bolso e mexia no seu pénis, acabando num suspiro de prazer. Tentei fazer como ele, mas eu não tinha sémen e o que em Portugal se chama bater uma punheta, em calão e no Chile correrse la paja. Incitado pelos inquilinos, aos meus treze anos tive a minha primeira mulher, uma Paula em folha, filha de um inquilino e caseiro do meu pai. Como é evidente, todos os inquilinos festejaram a minha perca de virgindade. Desde que a Avó e os pais não soubessem, todo era possível com as raparigas inquilinas, formava parte dos costumes. Eis porque vi tantos folhos/as de inquilinos com cara e cor picunche e olhos azuis. O meu avô e o meu pai tinham olhos azuis….Mas, é uma história que não me pertence e paro aqui.

As hostilidades da Donha Luca, minha Avó, indignaram-me e pedi tratar as pessoas como seres humanos, porque eram trabalhadores e não animais. Ela riu e levantou a fuste contra mim: se não fosses o meu neto e pequeno patrão, de uma fustigada enviava-te a trabalhar. O se bate em eles ou ficam a dormir. Ideologia com a que a minha senhora mãe e eu não concordávamos, mas nada era possível fazer para mudar os humores da Avó…Penso que desde esse dia me fiz socialista, até o dia de hoje, a lutar para sermos todos iguais, porque, na minha ideologia, a propriedade separa, como Marx escreveu no Manifesto Comunista e em Das Kapital, os meus livros mães

O que não consigo narrar, será no capítulo 4 das minhas memórias, já esboçado.

LOS HUASOS QUINCHEROS: Que bonita va

Comments

  1. pedro roxo martins says:

    caro professor

    a cultura também é esta capacidade de mostrar as nossas gentes e a nossa terra ao mundo. Esta sua capacidade de manusear os objectos culturais do Chile, su tierra, é comovente.
    obrigado

    pedro roxo martins

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