Argentinos de Alfama e uruguaios da Ribeira

Há uns anos, Manuel Vasquez Montalbán, um dos maiores escritores espanhóis e adepto do Barcelona, queixava-se de que era muito difícil rever-se na sua equipa como em tempos mais antigos, devido ao facto de que a maioria dos jogadores, de várias nacionalidades, nada tinha a ver com Barcelona e com o catalanismo. O equipamento era o mesmo, o espírito já era outro. Provavelmente, nos dias de hoje, teria menos razões de queixa, porque o próprio Messi é muito mais catalão do que argentino e porque uma boa percentagem do plantel advém dos escalões de formação, a ponto de a selecção espanhola ser, em boa parte, catalã.

Mais ou menos por essa época, em conversa com responsáveis pelos escalões de formação do Futebol Clube do Porto, fiquei espantado com o óbvio: a equipa sénior de então tinha, praticamente para cada posição, dois jogadores formados no clube. Era o tempo em que pontificavam jogadores como Vítor Baía, Jorge Costa, Fernando Couto ou Domingos, por exemplo.

Nesta época de defeso, as notícias das supostas contratações que os clubes andam a fazer referem-se, quase todas, a jogadores vindos, sobretudo, da América do Sul. É certo que só um décimo dessas contratações serão confirmadas, porque o importante é vender jornais, mas será mais provável confirmar a compra de mais um brasileiro do que assistir à integração de dois juniores.

Ora, o que é evidente nem sempre deixa de ser estranho. Há pouco tempo, assistia a um jogo do Benfica, e, após um golo de Cardozo, assisti às comemorações: primeiro, chegou um argentino, depois, um uruguaio, outro argentino, dois brasileiros, e, quando já não se esperava, um português que nem sequer vinha directamente dos escalões de formação (salvo erro, era Rúben Amorim). Se se fizer o mesmo exercício no Porto, os resultados serão, evidentemente, semelhantes. O Sporting é uma excepção, mesmo sabendo que, entre azares e disparates, não tem conseguido aproveitar os talentos que vêm da formação.

Não há aqui ponta de chauvinismo ou xenofobia. Há, apenas, desconsolo. A formação dos grandes clubes portugueses deve estar pejada de dezenas de futebolistas talentosos, ansiosos por vestirem as cores dos clubes de que são adeptos desde a infância. A maioria acaba a cumprir a sua vocação em clubes menos cotados, não por falta de talento, mas porque os negócios das contratações de jogadores estrangeiros dão mais dinheiro a muita gente.