Ideias feitas

Marcelo Rebelo de Sousa, como tudólogo que é, resolveu perorar sobre educação, num colégio católico. Em pouco tempo, reuniu a habitual colecção de lugares-comuns da direita: o Ministério dominado pela FENPROF, a superior qualidade de ensino dos colégios privados, a liberdade de escolha e a importância de competição entre escolas.

Já se sabe que, na maioria dos assuntos, falamos sem pensar, porque não há tempo ou não dá jeito. Marcelo Rebelo de Sousa, que ganha a vida a falar, prescindirá, demasiadas vezes, de pensar.

Como muitos ignorantes no que respeita à Educação, Marcelo baseia-se apenas em resultados e, provavelmente, em rankings. Como de costume, esquece ou escolhe esquecer que os colégios são frequentados por alunos privilegiados em termos económicos e/ou culturais, o que não lhes retira mérito a eles ou aos respectivos professores, mas não deixa de constituir uma vantagem. Um professor igualmente competente numa escola em que os alunos provenham de meios desfavorecidos dificilmente obterá os mesmos resultados, o que também não lhe retira mérito.

Tudo isto torna a liberdade de escolha e a competição entre escolas em falácias, porque a liberdade de escolha começa na importância dada pela família à escola e a competição baseada em resultados de exames levará a que as “melhores” escolas rejeitem alunos com piores resultados ou com mais hipóteses de alcançarem piores resultados

A verdadeira competição não deverá ser entre escolas. A escola deve competir, isso sim, contra as insuficiências de cada um dos seus alunos, a par de verdadeiras políticas sociais, com base em planeamento e não em ideias feitas. É claro que palavras como estas soam muito a socialismo ou outras coisas peganhentas de esquerda, quando o que está a dar são os mercados e a concorrência, selvajarias que tantos católicos gostam, estranhamente, de incensar.

Comments

  1. Luís says:

    Marcelo é o principal comentarista (Anestesista) político do regime.
    Bem falante, desvaloriza o essencial e empola o acessório.
    É extraordinária a forma como defende a ganância da banca tocando “en passant” na desgraça de milhares de famílias portuguesas que ficaram sem casa porque não tinham condições para as comprar ao mesmo tempo que sobressai a “dívida” do Estado a essa mesma banca.
    No Domingo passado ultrapassou todo os limites da desvergonha, quando referiu que os juízes do tribunal constitucional teriam de ter em conta o “estado de emergência” do país para não considerar anticonstitucional o roubo dos subsídios aos funcionários públicos pelo governo.
    Para este professor “jurista”, os direitos constitucionais são perdidos pelos cidadãos por razões tão obscuras como o chamado “estado de emergência” que ninguém declarou.
    Esta da “emergência” faz-me lembrar outra relativa à nacionalização do BPN a que chamaram “risco sistémico”.


  2. marcelo ??? perder tempo a falar dele ?? nem pensem – profissional do falaricar – mas que bom emprego – abrir a boca e pôr as palavras a correr a 100 à hora e estampar-se – pena – chamam-lhe “o” professor ??? depois de acabar de debitar palavras a tal velocidade nem me lembro do que disse – é altamente didático – pra que serve – quanto ganha do meu IRS ?? poderei reclamar por ter de pagar para o ouvir ??? mas que enxurrada de palabras de que ninguém beneficia – como serrá a dar aulas aos “seus “alinos ?? aulas ?? de velocidade vocal ?? perceber não é preciso

  3. Carlos Sampaio says:

    Boa tarde, caro António,

    Uma das principais críticas feita pelos sindicatos e professores ao antigo modelo de avaliação residia no facto de serem professores da mesma escola a avaliarem uns aos outros. Os argumentos usados eram, na minha opinião, bastante válidas: subjectividade na avaliação em virtude de simpatias ou antipatias pessoais, inquinava as relações entre colegas, não havia distanciamento para fazer uma avaliação imparcial, entre outros.

    Mas a verdade é o modelo que os professores rejeitam para si próprios, é muita vezes aplicado pelos professores aos seus alunos quando no final de cada período lectivo promovem heteroavaliações entre alunos da mesma turma. Pelos vistos, para os professores o modelo é injusto mas para os alunos já é justo.

    Ou seja, os professores acham que é incorrecto que colegas que convivem diariamente se avaliem uns aos outros. Mas quando toca aos alunos esquecem-se de tudo isso e toca a avaliarem-se uns aos outros. Já pensaram que isso também pode inquinar as relações entre alunos. Esse simples facto teria toda a legitimidade para que esse professor ( e são a maioria) se indigne quando querem fazer o mesmo a ele. Quando no final de cada período vejo no caderno do meu filho o sumário ” Auto e Hetero-avaliação”, fico a pensar que muitas vezes os professores dão aos alunos aquilo que nas ruas e avenidas deste país andaram a combater. A verdade é que aquilo que não queremos para nós também não devemos impôr aos alunos.

    Bem sei que muitas vezes os professores olham primeiro para o seu “umbigo” e só depois para a “Educação”. Mas um pouco mais coerência entre os actos e as palavras e menos egocentrismo talvez não ficasse mal.

    Abraço,

    Carlos Sampaio.

  4. Carlos Sampaio says:

    **

    Boa tarde, caro António,

    Uma das principais críticas feita pelos sindicatos e professores ao antigo modelo de avaliação residia no facto de serem professores da mesma escola a avaliarem-se uns aos outros. Os argumentos usados eram, na minha opinião, bastante válidaos: subjectividade na avaliação em virtude de simpatias ou antipatias pessoais, inquinava as relações entre colegas, não havia distanciamento para fazer uma avaliação imparcial, entre outros.

    Mas a verdade é que o modelo que os professores rejeitaram para si próprios, é muita vezes aplicado pelos professores aos seus alunos quando no final de cada período lectivo promovem heteroavaliações entre alunos da mesma turma. Pelos vistos, para os professores o modelo é injusto mas para os alunos já é justo.

    Ou seja, os professores acham que é incorrecto que colegas que convivem diariamente se avaliem uns aos outros. Mas quando toca aos alunos esquecem-se de tudo isso e toca a avaliarem-se uns aos outros. Já pensaram que isso também pode inquinar as relações entre alunos. Esse simples facto é suficiente para tornar ilegítimo que esse professor ( e são a maioria) se indigne quando querem fazer o mesmo a ele. Quando no final de cada período vejo no caderno do meu filho o sumário ” Auto e Hetero-avaliação”, fico a pensar que muitas vezes os professores dão aos alunos aquilo que nas ruas e avenidas deste país andaram a combater. A verdade é que aquilo que não queremos para nós também não devemos impôr aos alunos.

    Bem sei que muitas vezes os professores olham primeiro para o seu “umbigo” e só depois para a “Educação”. Mas um pouco mais de coerência entre os actos e as palavras e menos egocentrismo talvez não ficassem mal.

    Abraço,

    Carlos Sampaio.

    • António Fernando Nabais says:

      Que eu saiba, hetero-avaliação refere-se à avaliação que os professores fazem dos alunos.
      A avaliação por pares ou com quotas nunca será justa, evidentemente,

  5. José Galhoz says:

    De facto, a exploração da falácia da excelência das escolas privadas (com relevo para as católicas) é indigna de um douto professor. É claro que as ideologias obscurecem, por vezes, as mentes dos melhores (católicos incluídos), embora sejam estes que mais negam as ideologias. Não será por acaso que apenas se ouçam as vozes do bispo das Forças Armadas e do ex-bispo de Setúbal (tudo o resto são lágrimas de crocodilo pelos pobrezinhos). Para mim, as ideologias é como o caso das bruxas, que não existirão, mas…
    Já o apelo ao Tribunal Constitucional para fazer vista grossa às inconstitucionalidades das leis do governo, isso é um caso muito mais sério, embora o “estado de emergência” que ele (e muitas outras doutas personalidades) invoca seja o que me deixa mais perplexo – será possível que o país tenha entrado em guerra sem que se desse por isso?


  6. 2º comentário do mesmo tema sobre escolas públicas e privadas – não vejo razão para que se afirme como verdade axiomática que o ensino privado seja melhor do que o público
    Até creio que o privado é que está muito interessado em fazer render as mensalidades que recebe e a angariação de mais alunos e tornar-se famoso embora possa ter melhores instalações e pessoal de apoio que o públoco pode não ter
    Por caso ensinei no público e no privado (verdadeiro supermercado do ensino e muito mais caro – caríssimopara os alunos e mal pago para professores e discriminatório) e por acaso nem os meus colegas professores pareciam professores, nem lhes reconheci grandes saberes – É claro que o que escrevo e digo não faz lei – mas no público é mais difícil um professor arriscar ser “mau” – até porque em cada ano não sabe onde vai ser colocado (ensino secundário) e tem todo o interêsse em ficar perto de casa e da família e não ter vida de cigano, o que nem entendo porque é que tem de ser assim
    E o que é que no privado é melhor do que no público – os professores estudaram nos mesmos locais – a Escola onde se ensina depende de quem a dirige embora tenha amigas que se queixaram do mau ambiente que certos colegas provocam a outros
    ENSINO ??? (estudei no privado e público – ensinei no privado e no público e criei até, de raíz, a 1ª Escola Profissional do pais em Monte de Caparica em 1992
    Saúde – tenho direito aos serviços públicos e seguro de saúde para o privado – a única diferença é que no público é caótico e espera-se muito mais tempo para se ser atendido mesmo com pressa, mesmo em urgências (há dias estive no F.Xavier 5 horas – xatiei-me dei 3 berros e desisti, mas em 2011 tinha esperado 13 Horas no F.Xavier (04H às 17H) e tive mesmo que esperar)
    Mas há 2/3 anops é quase igual já que o privado está convencionado atender o público pelo que o privado se tornou assim INSUPORTÁVEL – cada estrutura tem um limite para poder funcionar bem mas é pena que o privado não tenha URGÊNCIAS – mas algo ou alguém destruíu o SNS que eu achava o melhor do mundo e nunca me queixava dele, e em certas circunstâncias usava o privado que, igualmente, era bom e em tempo desejável
    No entanto talvez a estrutura de funcionamento do privado seja um pouco melhor, mas mais nada, e nem todos os públicos funcionam mal – depende de quem dirige e coordena – só sei que o público funcionava muito bem há mernos de 6 anos ou menos – agora é caótico – nos locais onde posso ir eque depende do bairro que habito
    Este ano já esperei muitos 2 meses até conseguir marcação de consulta na CUF da mesma forma que esperei muitas horas no dia da consulta no privado (oftalmologia-CUF) e paguei 50 euros de consulta – creio que algo se desmantelou
    e não sei se nas EScolas acontece o mesmo já que~abandonei o ensino em 2000 mas amigos continuam a queixar-se do ambiente e funcionamento do ensino público e algumas decidiram reformar-se antes do tempo que lhes competia fazer – mas não aguentaram
    Algo anda a desmantelar-se e só se dá por isso quando precisamos de algo específico

Trackbacks


  1. […] base nesta notícia, será possível ler e ouvir comentários simplistas semelhantes ao título deste texto. As causas do insucesso escolar são conhecidas, sobretudo […]

Deixar uma resposta