A procura do luto

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Los fuzilamientos del 3 de Mayo no Madrid Bonapartista. Como os do Chile entre 1974 e 1989, que Sónia Ferreira estudou no sítio, orientada por mim.

Há lutos e lutos. Pela perda de um ser querido, por salvar à Pátria, por se rebelar contra militares assassínios, como no caso do Chile, que Sónia Ferreira estudou, com profunda tristeza, acompanhando as viúvas e mães que não conseguiam encontrar maridos e filhos. Tinham sido assassinados mas não perdiam a esperança…

“Avelino, hágame una hojotas” gritou a filha da patroa ao inquilino. Hojota, essa sola feita, hoje em dia, de pneu, antigamente de couro de animal e atada aos pés com corriones ou atacadores enrolados na perna para a sola não se depreender do pé e assim poder caminhar por cima de pedras, lama, areia, barro, terra. Por caminhos feitos entre os espinhos e as amoreiras que picam, o litre, esse arbusto que infecta a pele, hojota que permite andar rápido para cumprir com os inúmeros deveres que um inquilino deve realizar e cuidar do seu posto de trabalho. Trabalho de escravo, remunerado por um pedaço de terra trabalhada pela família, um pão amassado de um quilo de peso ou galleta semanal para ser consumido em casa e durar esse tempo todo.[1] Duro, seco, comido com um chá preto para mergulhar troços e estar alimentado e com forças para fazer as ojotas da rapariga e outras da família patronal e para a família própria. Hojotas, aprendidas dos Inca antes da aparição dos Conquistadores de Castela no País do Frio ou Chili, como define a língua Quechua esse cumprido e estreito território entre a Cordillera de los Andes o Andaimes e o indómito mar do Pacífico. Sete mil quilómetros de cumprimento, quinhentos de largura na zona Norte, cem na parte mais estreita, entre a Cordilheira e o mar, com milhares de ilhas rumo ao Sul ou Antárctida ou Polo Sul, a dita Costa Desmembrada, com mais de três mil quilómetros de cumprimento até o Estreito de Magallanes ou Magalhães, como devia ser denominado e o não é. Os Castelhanos não gostam de Descobridores Portugueses e adaptam os nomes à sua língua, denominada, de forma enganada, Español . Como Avelino pensava que era, descendente de espanhóis. A sua cara cor de cobre, o seu andar leve e a saltitar, o seu silêncio observador, a sua submissão à patroa e a sua filha, mostravam um inquilino habituado a servidão escrava dos conquistadores que lhe tinham outorgado o nome de chileno, quase quatrocentos anos depois de terem sido subjugados e as suas terras terem passado  a serem geridas pelos huinca ou estrangeiros, nome para designar aos proprietários que mandavam em ele e as suas famílias, antes da patroa existir e depois da patroa não estar mais. Um inquilino sem lei para o proteger, sem sindicato para o defender. Avelino, forte, cheio de músculos, olhos verdes na tez de cobre, jovem de cabelo preto e teso, fornecia ojotas e outros favores mais íntimos, se a patroa ou a sua filha. Mandavam. Inquilino, metáfora que oculta uma realidade de escravidão sem salário em moeda, apaga a noção de índio, vergonha de conceito para um País Europeizado e os seus cidadãos. Avelino corria entre a madrugada e a noite na casa patronal a servir, de dia, na chácara dos senhores, de noite, na intimidade de um u outro quarto. Sem protestar. Não era o seu direito. Como os da sua mulher, cozinheira do lar proprietário, servente pessoal do patrão. Era, acontecia e continuou a ser durante séculos. Até. Até uma data. Até um 4 de Setembro de 1970.[2]

 Até esse dia, quando o mundo parou para os huinca. Ou assim parecia. Assim se tinha dito. Assim se murmurava entre os inquilinos desse campo e os seus parentes da cidade. A terra era dele, não dos huinca. As minas trabalhadas pelos seus pares, tinham o rendimento garantido pela propriedade outorgada pelas novas leis desse Setembro que durou trinta e cinco meses. Trinta e cinco meses que fizeram de Avelino um homem em caos: trabalhar e gerir o que era agora dele e dos seus. Muito trabalho, trabalho difícil esse de fazer contas. Mas, trabalho para si e não para a patroa ou a sua filha. Não parecia haver mais gritos de ordem de “Haz esto, corre, calla y obedece, te voy a latigar, puedes ser enviado fuera de la tierra, tu família es inútil, eres analfabeto, vergüenza de chileno!”. Avelino começou a saber o que era ser chileno: tinha posse, era protegido pela lei, entendia o que a lei era: os compañeros da cidade explicavam e adorou estar vivo, partilhar a vida com a sua mulher, fazer filhos próprios e não guachos do patrão no corpo da sua señora nem o temor a engravidar a patroa ou a sua filha, facto punido com prisão. Prisão sem provas, normalmente, resultado de uma sentença judicial que o acusava da roubar, de não trabalhar como a lei huinca mandava. Nunca pelos gritos de prazer que causava na mulher do patrão ou na filha, ou, eventualmente, nos filhos mais novos. Os Avelino do Chile eram escravos. Os Avelino do Chile, eram mestiços. Os Avelino do Chile, na indústria ou no campo, eram carne barata para a produção das minas possuídas por huincas de outros países em sociedade com os nacionais. E as suas mulheres, carne de canhão para servir nas casas dos outros o se ajudarem na prostituição do seu corpo em troca de dinheiro. O ofegar do cavalo do capataz, já não estava trás o seu pescoço. O apito da indústria, era combinado pelos objectivos económicos da Junta Coordenadora da Empresa, agora dos Mestiços. Trinta e cinco meses de começar a entender a riqueza, a sua produção e a sua distribuição equitativa entre todos conforme as suas necessidades, tal e qual era dada à empresa a força de trabalho possível, conforme as suas capacidades. Como dissera um dia um Huinca da Europa, esse Marcel Mauss[3] que falava da teoria da dádiva: finalmente, o País e os seus trabalhadores estavam quites porque cada operário recebia salário adequado as horas de trabalho, horas de trabalho necessárias, sem horas de trabalho a mais, como o professor do Huinca francês, um tal Émile Durkheim[4], escrevera para um curso sobre ética profissional: todo operário, em justiça, deve trabalhar apenas as horas necessárias para ganhar o seu sustento e trocar os seus produtos por outros necessários para a sua vida e que a sua falta de tempo e de habilidade lhe não permitiam fabricar. Os Avelino mestiços sabiam, porque os compañeros da cidade e da academia ao serviço das novas leis, ensinavam no que era denominada alfabetização à Paulo Freire: retirar das mentes a realidade conhecida e comparar com uma outra em construção. Trinta e cinco meses de trabalho de produzir, distribuir em processo “quite”, de gerir, de aprender a traduzir em números o que se sabia calcular com as contas feitas com os dedos da mão. Trinta e cinco meses de um esperançado e violento trabalho que acabou.baixo o incêndio do projecto provocado pela morte da nova lei, da instituição presidencial do país e o assassinato do Senhor Presidente da República Mestiça do País do frio e os seus colaboradores, dezenas de milhares. Milhares contados apenas entre os intelectuais que sabiam de genealogia de ideias de justiça, de Aristóteles[5], de justiça cristã – romana ou calvinista ou luterana ou anglicana -, de Tomás de Aquino[6], Tomás Moro[7], Nicola di Machiavello[8],

Frederico de Prússia[9], Diderot[10], Voltaire[11], Rousseau[12], Adam Smith[13],

Hegel[14], Feurebach[15], Marx e Engels[16], Tönnies[17], Durkheim, Mauss[18], Lévi-Strauss[19], Meyer Fortes[20], Goody[21], Bourdieu[22], Freire[23], Castro[24], Allende[25]…. O operariado não foi contabilizado nem procurado para se refugiarem em países amigos a protegerem os Direitos Humanos, brutalmente violados pelos mestiços Picunche, descendentes do Picunche Lautaro do Século XVI, esse Toqui ou chefe tribal que tentou deitar fora do País do Frio aos castelhanos, sem sorte. Outro Picunche, com nome estrangeirado à francesa, tomou as rédeas do poder e matou. Matou. Matou. Sem julgamento, excepto o que começou a ser feito a ele próprio no Londres de 1998, Outubro e que acabou na sentença de Demência no Supremo Tribunal do seu País…Chile.

Já não havia Avelino a andar a fazer contas. O látego foi duro, quem não tiver trabalho era levado a prisão para produzir sem remuneração para as empresas de outras soberanias que geriam o mar, as minas, os campos, as pessoas, as instituições. Os tribunais. E ficaram muitas señoras e filhos de Avelino, desaparecidos, incapazes de saber onde é que estavam os seus, onde é que estavam os seus corpos, como enterrar para poder fazer o luto. Esse luto definido por Sigmund Freud, esse luto, com ou sem Freud a definir, sentido pelas pessoas incapacitadas de chorar aos seus desaparecidos, supostamente mortos mas sem prova por falta de corpo.

Sônia Ferreira sabia de esta História e soube estar no meio das mulheres para chorar com elas e assim entender. Sônia Ferreira foi ao País do Frio, viveu com as mulheres dos Avelino, denominadas as Mulheres dos Detenidos Desaparecidos. E teve a coragem, como todo Antropólogo faz, de sentir para entender. E foi tanto o que sentiu, que foi preciso parar e passar a texto a sua testemunha dos factos, dos quais estas palavras são a introdução solicitada por ela. A risco de ser traída pelo escritor que, como o seu próprio professor inglês em Auchswitz, esteve de passagem no País de Frio, durante vários desses trinta e cinco meses e testemunhou o esforço Freiriano como processa para a liberalização do País, e acabou em um dos Auchswitz do Sul do mundo, antes de retornar ao País do seu velho Professor.

Sônia Ferreira teve que parar a escrita. Era forte demais. Mas, soube não apenas sentir, bem como explicar o que entendeu quando partilhou a vida das não viuvas sem maridos. É com a tristeza de História, cujos preambulos são desconhecidos para o mundo, que tenho a alegria de pintar linhas de impressões vividas faz trisnta anos, e vivas ainda em cada minuto de uma vida que transcorre sem memória social, sem posses, sem infância. O Auchswitz do único Picunche que soube trair tudo e todos, prolongado dentro da noite da vida.

Esse martirio, como o de tantos outros, é a minha prenda de  Natal sem ritual familiar, para a minha amada discípula Sônia Ferreira que, estou certo, será doutora por causa dos Direitos Humanos que fizeram de ela um santuario de luta pela liberdade. E a sua equipa que apoiou esta pesquisa, um grupo de Antropólogas da Universidade Nova de Lisboa.

Obrigado, querida Sônia. Ajudas-te à procura de luto impossível. O mundo está dividido em classes e esse processo não deve permitir mais procuras de corpos para entrerrar como deve ser, com o ritual purificador do pranto do descanso de saber que quem amamos, está já protegido dentro dos nossos mitos.

Raúl Iturra,

Catedrático de Antropologia do ISCTE.

Membro do Senado da Universidade de Cambridge, UK,

Amnistia Internacional

 Natal de 2002

Reescrito a 22 de Outubro de 2011

lautaro@mail.telepac.pt


[1] Retirado das minhas notas de trabalho de campo financiado pelo ICCTI Português e CONYCIT Chileno, entre a etnia Picunche de la Cordilheira dos Andes, para os meus textos de 1998: Como era quando não era o que sou. O crescimento das crianças, Profedições, Porto, e 2000: O saber sexual da infância. Desejo-te, porque te amo, Afrontamento, Porto.

[2] Retirado de: De Las Casas, Bartolomé, (1552) 1965: Breve relación de la destrucción de las Indias, FCE, México. Há versão portuguesa, Antígona, 1990, Lisboa; Ercilla y Zúñiga, Alonso, (1569)1982: La Araucana, Editorial Andrés Bello, Santiago, Chile; Ovalle, Alonso de, (1644) 1969: Hiftórica Relación del Reyno de Chile, Instituto de Literatura Chilena, Santiago, Chile; Guzmán, Jorge, 1993: Ay Mama Ines, Crónica testimonial, Editorial Andrés Bello, Santiago de Chile.

[3] Mauss, Marcel, 1923-24: “Essai sur le don. Forme et raison  de l’echange dans les sociétés archaïques”, in Année Socioloquique, Nouvelle Série, Paris, Félix Alcan. Há versão portuguesa em 1986 e 2001, Edições 70, Lisboa.

[4] Durkheim, Émile, (1886-U de Bordeaux, 1903 U de Beirut) 1957: Leçons de sociologie physique des moeurs et du droit, PUF, Paris. Há versão portuguesa pela Editora Rés, Porto, 1984, Segunda Parte do Livro. Tenhoi usado a edição inglesa de Routledge and Paul, Londres.

[5] Aristóteles, (323) 1992: Étique  à Nicomaque, Presses Pocket, Paris.

[6] Aquino, Tomás de, (1267-1273) 1958: Summa Theologica, 5 Volumens, BAC, Madrid.

[7] More, Sir Thomas (1516) 1985: De optimo reipublicae statu deque nova insula Utopia, Bâle, Antwerp. Há versão portuguesa, Guimarães, Lisboa.

[8] Machiavello, Nicola di, (1513) 1983: El Príncipe, Planeta, Barcelona.

[9] Prússia, Frederico II de, (1786) 2000:O Anti-Maquiavel, Guimarães Editores. Texto escrito pelo El-Rei, em conjunto com François Marie Arouet de Voltaire.

[10] Diderot, Denis (1754) 1992: Sobre la interpretación de la naturaleza, Anthropos, Barcelona.

[11] Voltaire, François Marie Arouet de, (1760) 1985: Dicionário Filosófico,Akal, Madrid; e (1660) 2000:Memórias, Teorema, Lisboa

[12] Rousseau, Jean Jacques, (1758) 1967: Lettre à d’Alembert, Flammarion, Paris.

[13] Smith, Adam, (1759) 200: The theory of moral sentiments, Prometheus Books, Nova Iorque.

[14] Hegel, Friedrich, (1807) 1988: Fenomenologia do Espírito, Vozes, Petróplis.

[15] Feurebach, Ludwig, (1851) 1988: A essência da religião, Papirus, São Paulo.

[16] Mark, Karl e Engels, Friedrich, (1848) 1977: Le manifeste de communrad , a pedido da Liga dos Communard organizada por Grachus  Babeuf em 1792, mais tarde denominado O Manifesto Comunista, versão de MacMillan, 1977.

[17] Tönnies, Ferdinand, 1887: Gemeinschaft und Gesellschaft, Leipzig. Tenho usado a versão inglesa de 2001: Community and Society, CUP, Grã-bretanha.

[18] Já citados, mas inseridos por causa da continuidade da linha de pensamento em procura da igualdade, liberdade e fraternidade.

[19] Lévi-Strauss, Claude, 1949: Les structures élémentaires de la parenté., PUF, Paris.

[20] Fortes, Meyer, 1987: Religion, morality and the person. Essays on Tallensi Religion, CUP, Grã- Bretanha.

[21] Goody, Jack: “Religion and ritual: the definitional problem” in The British Journal of Sociology, Vol. 2, Routledge and Kegan, Londres.

[22] Bourdieu, Pierre, e Passeron, Jean-Claude, 1968 : La reproduction, Minuit, Paris. Há versão portuguesa, Editorial Vega, s/d, Lisboa.

[23] Freire, Paulo, 1975: A pedagogia do oprimido, Afrontamento, Porto. Ver também: Iturra, Raúl, 1998: “Pedagogia do oprimido. As minhas memórias de Paulo Freire” in Educação, Sociedade e Culturas. Nº 10, Afrontamento, Porto.

[24] Castro, Fidel, 1985: Fidel e a Religião, Conversas com Frei Beto, Editora Brasiliense, São Paulo.

[25] Moulian, Tomás, 1997: Chile Actual. Anatomía de un mito, Lom, Universidad Arcis, Santiago de Chile.

1998: Conversación Interrumpida con Allende, LOM, Universidad Arcis, Santiago de Chile.

 

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