Diz-me se queres trabalhar, dir-te-ei quanto tens de pagar

Portugal é o país em que o conceito de utilizador-pagador está a ser levado a cumes nunca antes escalados. Há pouco tempo, Manuel Ferreira Leite reformulou o grito de Ipiranga, quando, chegada ao terreiro da hemodiálise septuagenária, vociferou “Pagamento ou morte!” Também a formação contínua dos professores, o negócio da TDT ou a infindável dívida das SCUTs, entre muitas outras sobrecargas, podem servir de exemplo para mostrar que o cidadão português está reduzido a ser um contribuinte compulsivo, mesmo depois de já ter pago o que há-de voltar a pagar. O trabalhador português, por ser um utilizador do trabalho, está sujeito, também, a pagar por isso.

A manchete do Jornal de Notícias de hoje poderia ser um título criado pela equipa do Inimigo Público, mas não há humorista tão inspirado que se possa lembrar de que é possível que o seguro de um bombeiro não contemple queimaduras. Como se isso não bastasse, ainda ficamos a saber, também pelo JN, que há militares da GNR que são obrigados a adquirir o fardamento (e só isto já devia ser considerado um disparate) a empresas que não estão certificadas para o fazer, o que é quase o mesmo que dizer que há agentes de segurança que, para cumprir a lei, têm de fugir à lei.

A esta hora, o Inimigo Público deve estar a ponderar uma queixa à Alta Autoridade para a Comunicação Social: a realidade anda a fazer concorrência desleal aos humoristas.

Comments

  1. Fátima sousa says:

    Em Gaia, junta à escola Secundária Almeida Garrett, já tudo foi tomado de assalto pelos parquímetros!Resultado: os professores que são riquíssimos, cheios de privilégios e com subsídios ilimitados, vão ter que pagar para trabalhar. Não há exceções, nem contemplações. Querem trabalhar, paguem! Como são todos dos quadros e todos têm horários completíssimos e ordenados chorudos, paguem, gentalha!Mais nada!
    (para quem esteja distraído…usei e abusei da ironia…)

    Por isso, tens toda a razão António…este é só mais um exemplo.
    Abraço!


  2. Aquela tirada da MFL é execrável!


  3. A situação política nacional cada dia me faz mais lembrar mais uma personagem do Jô Soares que representava um detentor do poder que gritava:
    – Este povo que eu piso, esta terra que eu amo…
    – O que é que eu sou, o que é que eu sou? O que é que eu sou?
    E o bobo da corte gritava: Sois Rei…Sois Rei, Sois Rei…

  4. Maquiavel says:

    Sejamos intelectualmente honestos!

    Os portugueses aplaudiram (ou melhor, continuam) a construçäo de auto-estradas inúteis, cujo tráfego previsto já era inferior aos 10.000 carros/dia que normalmente säo usados como critério mundial para construir uma auto-estrada. 10.000? Muitas delas nem 5.000 carros/dia tinham de tráfego previsto. Alguém as teria de pagar, né?

    Falaram no estacionamento…
    Os portugueses aplaudiram quando fecharam 1/2 das linhas férreas em 01/01/90. E continuam a aplaudir enquanto väo fechando os restantes 1/3. Afinal, todas as famílias têm um ou dois (ou três) carros, que o carro é um bem essencial para o tuga, mais essencial até que a alimentaçäo.

    Os portugueses enchem os passeios das cidades e vilas com as suas preciosas latas. E os peöes que andem na estrada! Transportes públicos é para os pobres. Queixam-se de quando os bilhetes sobem 5% mas nunca quando o combustível para o bólide sobe 10%. Queixam-se de pagar pelo estacionamento mas näo pelo dinheiro gasto a reparar passeios esmagados pelos popós.

    Em Lisboa e Porto näo é felizmente necessário ter carro. Já cá vivo há 12 anos, já me nasceram 2 filhos, e nem assim vejo razäo para comprar carro próprio. Quanto muito, táxi, ou aluguer. Por isso näo tenho dívidas, mas viajo bastante mais que a média portuguesa.

    Sejamos intelectualmente honestos!

    É execrável o que diz a MFL ou os ministros deste “governo”, a léria da TDT, tudo isso, como também é execrável o supracitado comportamento ovino-asinino da maioria dos portugueses (acabando na eleiçäo dos “iluminados”), que levou a isto.
    Quem sofre mesmo com isso säo os reformados que, lembre-se, ganham 300€ (se tanto) e agora é escolher entre mais um medicamento ou a única companhia nocturna que têm. “Que vivam com os filhos que até têm TV Cabo”, dirá a nojenta MFL.
    Os novos? Os que contrairam “crédito fácil” para comprar TVs novas, carros novos, casas maiores no cú de judas onde nem um autocarro passa? Desses näo tenho pena.