Todos contra a Barragem 0,1% – Depoimentos sobre o Douro e o Tua. 7 – Manuel Monteiro

«Para se fazer uma viagem a Bragança no ano pouco remoto de 1903 escolhia-se o Verão, seguia-se pela linha férrea do Douro, fazia-se um transbordo na Estação do Tua e subia-se pela via reduzida, aberta na margem esquerda deste rio. Pelo arrostar ofegante e moroso do comboio através da penedia britada a golpes de dinamite sobre a corrente coleante, profunda e torva, chegava-se a Mirandela ao cair da tarde. Aqui jantava-se mais reputada hospedaria de Trás-os-Montes, a do Zé Maria, que presidia pessoalmente com as suas barbas bíblicas às refeições dos seus hóspedes.
Pelo começo da noite assaltava-se a diligência e, num instante, o interior regorgitava de sacos, agasalhos e passageiros que, após os primeiros momentos de silencioso perscrutar, se familiarizavam lentamente, compleidos pela violenta resignação e camdradagem ante a inevitável tortura de uma noite de solavancos, entre torvelinhos de pó, naquela estreita e espessa atmosfera, breve trescalando a petróleo e a fartum. Fora, os mais felizes, enroupados em grossos capotes de cabeções erguidos oara as orelhas ou couraçados com sólidos cobertores de papa, como se se tratasse duma travessia pelas estepes siberianas, enfileiravam-se em sucessivos planos desde a almofada do cocheiro até aos pináculos da imperial onde se confundiam com a massa das bagagens que alastravam pelo tejadilho.
Esta montanha, quando já não havia um recanto ou flanco onde arrumar e pendurar mais carga, despegava-se e, oscilando, desaparecia na treva. Passadas as onze horas arribava a Macedo para preencher as lacunas do que havia alijado no trajecto, deixando o excedente de malas e viajantes à espera de lugar e vez para a noite imediata. Depois, de novo abalava, para de novo poisar, já noite alta, num lugarejo com a sua taberninha de interior denegrido, que uma luzerna de azeite alumiava, e onde um vulto feminino distribuía vinho, aguardente e aniz aos intrusos que desciam a desentorpecer-se.
Alfim o veículo retomava a caminhada até que, na serra de Nogueira, pelas alturas de Rebordãos, despontavam timidamente os primeiros alvores do dia. Então, entreabriam-se os olhos, bocejava-se e respirava-se a plenos haustos na pureza virginal da manhã. A paisagem, ainda adormecida, oferecia-se na monotinia dos pastios e das terras ceifadas, cobertas do restolhiço dos trigais e centeios e rindo-se apenas de vez em quando no alegre verdejar dum telhado de vinha; nos campos a amanhar, viam-se os rebanhos acocorados na clausura das cancelas junto dos carros de leito fechado com toldo onde se acoitavam os pastores. O sol entretanto explida no horizonte dourando os cimos envolventes; ao longe divisava-se o casario; dentro em pouco transpunha-se uma corrente – a do Fervença – serpeando entre hortejos e árvores esguias e chegava-se finalmente a Bragança.
A traquitana parava solene ao meio da rua, depois de ter despertado os habitantes que acudiam às portas e janelas ou esburacavam os caixilhos com as cabeças desgrenhadas, para pasmarem com as carantonhas de quem acorda em sobressalto, da intrepidez dos viajeiros».

Manuel Monteiro, Douro

Outros textos:
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4 – Miguel Torga
5 – Pedro Homem de Mello
6 – Daniel Deusado

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Comments

  1. marai celeste ramos says:

    Desde 1986 a “palavra de ordem” é destruir – para quem não sabe nada nem quer saber e sobretudo é desonesto, e se sente acosado e/ou vittima, tem de encontar o culpado” – Hoje em jornal diário eis depuutado do PS que fazia a pior das figuras (que me nauseava) em peograma da TV que foi substituído por um equivalente – e que como prémio foi secretário de EStado da Administração Interna (e justiça ??) está (também) bem sediado em Ilhéus no Brasil. tendo declarado só em 2006 80.959.5 euros de rendimentos e am 1995 declarou 75.125 – e até pagou com dinheiros públicos ape5trechos de maçonaria com dimheiros públicos- CM de 16 janeiro 2012-pág 6


  2. As taboas deixavam o frio urdir-nos chagas no corpo, a viagem era lenta, fumarenta e cruel, das ideias postas a amadurar era a ideia de quem num todo edilico (num tá escrito idílico) a puericia mandante, amiga de exibicionismo construiu num fim de mundo carris curvos e monumentaes que já começam a endoidar bestuntos que perdem as terras, por este centro de crystalização do progresso industrial, que nada de novo nos traz, nem nova cidade comercial, nem centro fabril que tanto urge.
    Prolongar carris que nada trazem nem ninguém levam, numa rotunda de rotundos endinheirados e de pobres gentes que vão servir a classe conselheiral e cretinoide, nesta miséria que dizem estética (devia estar esthetica ma…) Luis Chaves 1912


  3. deve ter sido a melhor análise que ele fez pois 100 anos depois continua actual


  4. refiro-me ao Luis Chaves não ao Monteiro-Mor


  5. Para os que se dizem seguidores de TORGA e apoiam a destruição das torgas…

    TENHAM VERGONHAM

    http://vento_norte.blogs.sapo.pt/12452.html

    Miguel Torga despede-se de Vilarinho da Furna
    Gerês, 6 de Agosto de 1968 — Derradeira visita à aldeia de Vilarinho da Furna, em vésperas de ser alagada, como tantas da região. Primeiro, o Estado, através dos Serviços Florestais, espoliou estes povos pastoris do espaço montanhês de que necessitavam para manter os rebanhos, de onde tiravam o melhor da alimentação — o leite, o queijo e a carne — e alicerçavam a economia — a lã, as crias e as peles; depois, o super-Estado, o capitalismo, transformou-lhes as várzeas de cultivo em albufeiras — ponto final das suas possibilidades de vida. E assim, progressivamente, foram riscados do mapa alguns dos últimos núcleos comunitários do país. Conhecê-los, era rememorar todo um caminho penoso de esforço gregário do bicho antropóide, desde que ergueu as mãos do chão e chegou a pessoa, os instintos agressivos transformados paulatinamente em boas maneiras de trato e colaboração. Talvez que o testemunho de uma urbanidade tão dignamente conseguida, com a correspondente cultura que ela implica, não interesse a uma época que prefere convívios de arregimentação embrutecida e produtiva, e dispõe de meios rápidos e eficientes para os conseguir, desde a lavagem do cérebro aos campos de concentração. Mas eu ainda sou pela ordem voluntária no ócio e no trabalho, por uma disciplina cívica consentida e prestante, a que os heréticos chamam democracia de rosto humano. De maneira que gostava de ir de vez em quando até Vilarinho presenciar a harmonia social em pleno funcionamento, sem polícias fardados ou à paisana. Dava-me contentamento ver a lei moral a pulsar quente e consciente nos corações, e a entreajuda espontânea a produzir os seus frutos. Regressava de lá com um pouco mais de esperança nos outros e em mim.
    Do esfacelamento interior que vai sofrer aquela gente, desenraizada no mundo, com todas as amarras afectivas cortadas, sem mortos no cemitério para chorar e lajes afeiçoadas aos pés para caminhar, já nem falo. Quem me entenderia?
    (Miguel Torga, Diário XI

  6. Silvério Coutinho says:

    “Quando de fala do Alto Douro pessupõe-se, em regra, que se trata do grandioso vale por vezes também designado o País do Vinho e que vai desde o estrangulamento de Barqueiros até alturas de Barca de Alva, ou seja, até àquele ponto em que o rio, afastando-se da bela via panorâmica que é a via férrea, se torna, por assim dizer, incógnito, metade protuguês e metade espanhol, misteriosamente desaparecido -pois toda a Ignorância é irmã do Mistério – entre dois formidandos paredões, em muitos sítios cortados, de um lado e de outro, quase a prumo.
    A falar com rigor, o Alto Douro é precisamente esse profundo e longuíssimo corredor erosivo, de uma boa centena de quilómetros, pacientemente escavado pelo esforço milenário daquele possante Bicho Hídrico, rastejante, nascido, sabe-se lá com que tremendos arranques sísmicos ou parturientes, das entranhas da Meseta Ibérica, ao dealbar da era de relativa pacificação geotectónica da Península.
    E dizemos, medindo bem as palavras, “em rigor”, pois é nesse troço que o rio é verdadeiramente alto, ao transitar dos oitocentos metros da plataforma salamantina para os quinhentos e cinquenta de canhão mirandês e, a seguir, deste para os sucessovos estrangulamentos de Picote, Lagoaça, Mazouco e Penedo Durão.
    Mais poderosa que duas ou três linhas Siegfried juntas, essa escavação profunda do rio foi, pode dizer-se, durante oito séculos, um dos escudos defensivos mais seguros (e politicamente menos dispendiosos) que Portugal possui na sua longa linha de contacto com a nação vizinha.
    Quantos portugueses conhecerão, de visão directa, essa ignota réplica da celebrada Linha Defensiva, dada de mão beijada pelo homérico Afonso Henriques aos seus indefinidos herdeiros?
    Cremos bem que, em cada mil, nem cinco.”

    Sant’Anna Dionísio, Alto Douro Ignoto, Preâmbulo, Porto, 2ª Ed.1977


  7. Relato da viagem do Dr. Amadeu Cardoso do Porto para Macedo de Cavaleiros, na década de 90 do século XIX, pág. 33:

    “Era um local recôndito mas havia pior. Fora comodamente de comboio até ao Tua pela linha do Douro. Mudara para um outro, de via estreita, que lhe pareceu penetrar num reino diferente de contos e histórias, de fragas antigas e medos terríveis, a subir por desfiladeiros a cujas paredes as carruagens se agarravam a custo.
    Em Mirandela esta imagem tinha-se-lhe apaziguado, a terrinha parecia até com movimento. Simpatizou com ela e havia de lá voltar algumas vezes, teve mesmo de lá voltar bastantes vezes porque mais tarde veio a ser médico da Companhia Nacional, que explorava este ramal de caminho-de-ferro. Era o términus da linha, a estação era grande, tinha gente.
    Deu uma volta pela beira-rio, entrou num ou noutro boteco, ensinaram-lhe o Zé Maria das Barbas, patriarca da boa mesa, descobriu o Totó onde se comia bem e se era servido pelas muchachas de Chaves e de Verin. Gastou meia hora nesta deambulação. Retornou à estação para acomodar as suas bagagens na diligência que partiria defronte. Carroças e carros de todo o tipo estacionavam pelas ruas, empedradas de calhaus do rio, malcheirosas e muito sujas.
    Uma boa parte do distrito convergia para Mirandela para despejar coisas e gente para o comboio e receber coisas do comboio. Era, até, tudo muito animado. A terra ganhara foros de maior importância por ter tido visita real aquando da inauguração do caminho-de-ferro(1887). Que não passará daqui durante uma vintena de anos e que, por isso, era um lugar de convergência de e para o Trás-os-Montes profundo. ”
    (a linha foi continuada 20 anos depois para chegar a Macedo em 1905 e Bragança em 1906)

  8. Ricardo Santos Pinto says:

    Obrigado a todos pelas sugestões. Todas serão tidas em conta.


  9. Faltou referir, no texto que transcrevi acima, que foi tirado do livro “Um tiro na bruma” de Manuel Cardoso.


  10. lutar contra os bárbaros?

    uma linha de comboio é mais natural que um espelho de iàgua?

    bom ok…os bárbaros não eram mais naturopáticos que os greco-romanos que deitaram florestas abaixo e terreplanaram pântanos?


  11. Os Bárbaros destroem a civilização e seus avanços simplesmente por barbarismo e ignorância, como uma criança que desmonta um relógio.
    Outros, de pior consciência, destroem e saqueiam a riqueza de uma região e um povo por um punhado de dinheiro, depois passam a outra região, deixando atrás de si um rasto.
    Todos seremos avaliados pelas obras que deixamos.

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