UGT: Usurpação das Garantias dos Trabalhadores

No Público de hoje pode ler-se:

Em troca [da meia hora de trabalho], [o Governo] acabaria por negociar um maior número de dias de trabalho, seja por via da redução de férias – cujo período é encurtado em três dias (de 25 para 22), seja pela redução do número de feriados. Além disso, cada empresa passa a poder gerir um banco de horas de 150 horas anuais por trabalhador – uma medida que permitirá a cada trabalhador trabalhar menos num dia e compensar com horas a mais noutro – sem que esse acréscimo seja pago como horas extraordinárias

Em troca da meia hora de trabalho diário, a UGT conseguiu assinar um acordo em que os trabalhadores podem, em média, vir a trabalhar mais de meia hora por dia, para além de ter, orgulhosamente, garantido que o 5 de Outubro continuaria a ser feriado. João Proença, esse grande humorista, explicou que o acordo “é favorável aos trabalhadores só e apenas porque a meia hora seria mais penalizadora”, o que poderia ser comparado a um torturador que dissesse à vítima que, afinal, em vez de ser empalado, iria ser esquartejado. O que seria mesmo interessante saber é o que obteve a UGT em troca deste acordo ou se esteve em contacto permanente com o Largo do Rato, topónimo que ganha cada vez mais sentido pelo que faz lembrar aqueles que são os primeiros a abandonar o navio.

A análise do chamado acordo só serve para confirmar que cabe aos trabalhadores pagar a crise que outros criaram e para que todos saibam que, afinal, os direitos e a democracia são valores relativos, dependentes da generosidade dos que detêm o capital e dos governos que os servem.

Entretanto, o Álvaro, na mesma notícia, usando o tom ridiculamente épico com que os medíocres disfarçam a miséria, congratula-se com a assinatura daquilo a que chama um acordo, porque Portugal mostra virtudes “ao mundo, aos mercados”, afiançando que está aqui a solução para a crise, ao arrepio do que diz Joseph Stiglitz, Nobel da Economia.

Volto a lembrar: em 2015, lá surgirão umas benesses eleitorais e umas promessas que também não serão cumpridas. Não se esqueçam de votar neles, outra vez.

Comments

  1. Ricardo Santos Pinto says:

    Ou então Unidos a Gamar os Trabalhadores…

  2. ainda penso says:

    Muito Bom este texto. Congratulo-me em perceber que ainda existem democratas e portugueses com consciência critica neste país.
    Claro como a água, só não vê quem não quer.

  3. MAGRIÇO says:

    A UGT cumpriu com os objectivos com que foi criada: dividir os trabalhadores e fazer o jeito ao poder. Ao defender que os salários baixos não promovem a produtividade porque não estimulam nem incentivam os trabalhadores, Soares dos Santos presta um melhor serviço aos trabalhadores do que João Proença. Um caso para os sindicatos filiados nesta Central meditarem com ponderação…

  4. marai celeste ramos says:

    Deviam oferecer um charuto aos trabalhadores para se extasiar com a meia hora extra, ou para levar para casa e festejar o dever cumprido

  5. kirk says:

    (Off topic) ou nem tanto

    Hoje é dia 18 de Janeiro. Passam 78 anos sobre o levantamento da Marinha Grande em 1934.
    Há cada vez mais motivos para relembrar datas como essa.
    Não esqueçamos!
    Kirk

  6. kalidas says:

    O sr Alvaro sabe muito bem quem foi Thomas Carlyle e qua a sua frase mais emblemática é; ” A Economia é uma ciência maligna”

    A razão porque assim falou não o disse, mas sabia do que falava, é que pouco tempo depois o almirante Matthew Pery, pegou numa caneta para assinar um acordo comercial, exactamente uma armada que rumou à Ásia o obrigou os países da região a abrirem, a bem ou a mal, os seus portos ao comércio internacional. Acontece que trezentos anos antes, já os portugueses ali comerciavam.

    Quer dizer então que os portugueses tinha um modelo económico e os americanos outro?
    As canetas, essas eram diferentes!
    Com que tipo de caneta assinou o sr Alvaro este acordo?

  7. Bruno says:

    Uma vergonha a ugt e o proença. Mas fez aquilo para a qual foi criada pelas rosas e laranjas. Quem perdeu bastante foram os trabalhadores e não o grande capital. Obrigado proença. Que os teus netos um dia de agradeçam na pobreza monetária, pois tu já a tens na cabeça.

  8. António Santos says:

    Não sendo admirador de Torres Couto, um dos fundadores da UGT, hoje parafrazeio-o, devido às suas palavras relativamente à posição da UGT na (Des) Concertação Social…
    É preciso nunca esquecermos que a UGT foi criada exactamente para ter este papel, e “partir” os trabalhadores do país, nomeadamente através da habilidades (…) como a introdução dos partidos no meio sindical, quando na verdade o lugar deles numa democracia, é nas Autarquias e no Parlamento, nunca em Sindicatos!
    Quem ainda fez cair a tal meia hora…, foi a grande mobilização dos trabalhadores em geral, através da variadas manifestações, que a UGT sozinha nunca conseguiria!
    Não será por acaso que a UGT é pouco mais do que um nome. É alimentada pelo Sindicato dos Bancários do Sul e Ilhas, que há muitos anos lhe está a dar mensalmente qualquer coisa acima de 200 000,00 € => 2 400 000 €/ano, E, nem assim tem conseguido crescer em sindicatos filiados, nem tem grande poder de mobilização, como se sabe. Mas cumpre a função para que afinal foi criada…
    No entanto, com mais esta postura de traição, “poderá hoje mesmo (dia da assinatura) o seu golpe de morte”, pelas mãos de João Proença.
    Torres Couto, em 16/01/12.
    Por mim, aplaudo desta vez, Torres Couto!

  9. Armelindo says:

    Deviamos, os que trabalham, fazer uma manisfestação de apoio ao Proença. Era lindo e original. Uma manifestação pelo bem que nos tem feito. Eu mostrava o meu agradecimento.

  10. kalidas says:

    Toda a gente sabe da especulação financeira levada a cabo pelos Hedge Funds e ao desastre a que isso conduziu.

    Pois bem, hoje o agiota-mor sr Dallara está na Grécia a dizer que os gregos vão ter de pagar os juros, a bem ou a mal.

    A Crise do Subprime é a Peste Negra do sec. XXI, os Hedge Funds é o vírus transmissor da doença, cujos hospedeiros foram os ratos pretos, da espécie dallara.

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