Que rumo para a nossa democracia?

 

(Uma espécie de cólica num momento de indignação)

Deixa-me rir.

Que rumo dar ao que não existe!

A direita aí está, escarrapachada, retinta.

A direita aí está, varrendo para o lixo os restos da democracia.

A direita aí está, abocanhando o prato dos outros.

A direita aí está, cuspindo na Constituição, porque ainda não pôde rasgá-la aos bocadinhos.A direita aí está, usando a Justiça e os buracos da lei como o seu mais seguro tira-nódoas.

A direita aí está de portas escancaradas a todos os Passos e Portas que sejam as portas e os passos para a descarada mentira de todas as promessas.

E a maioria silenciosa lá vai engolindo, como incontornável destino, o fel da traição.

Sem Constituição a democracia é um barrete.

Sem Justiça a democracia é um duplo barrete.

Sem povo, ou melhor, sem cidadãos a democracia é um triplo barrete.

Sem cidadãos, a democracia não existe.

Por isso a direita não quer cidadãos.

A direita só quer povo, se for uma direita com rótulo. Se não tiver rótulo, se for artesanal, nem de povo precisa.

E eu não acredito no povo, isto é, eu não acredito no povo despido da sua dignidade de cidadão, no povo que beija a mão aos que o fazem povo, aos que o utilizam como povo e não como gente ou como sociedade de cidadãos.

Um imenso lençol de mortos jaz debaixo da terra carcomidos pela exploração e pela injustiça, e um imenso mar de vivos (mortos-vivos?) deambula à flor da terra. Os de baixo expiraram. Nós, os de cima, ainda inspiramos alguma coisa, mas não conseguimos respirar, asfixiados que estamos pelo garrote do poder. O povo, em vez de abrir a janela de par em par para respirar ar puro, vai aceitando como esmolas e caridades, as máscaras de oxigénio que a direita lhe estende.

Por isso eu não acredito no povo. Só acredito em cidadãos.

Sem cidadãos a democracia é um barrete.

O país está infestado de ratos. Os ratos roeram os embriões da democracia, os ratos roeram tudo, os ratos roeram o país, os ratos deixaram o país em buracos. Mil e tal milhões de buracos, sessenta milhões de buracos, trinta milhões de buracos, vinte milhões de buracos, dez milhões de buracos… Os ratos comeram tudo e também os olhos do povo. O povo de Abril sempre teve um frasco de raticida na mão, mas em vez de o atirar para cima dos ratos deitou-o pela retrete abaixo.

O povo cegou, e quanto mais cego, menos o povo é capaz de ver quem o cegou.

O povo sempre foi avesso à cidadania, ou melhor, a direita, que não quer cidadãos, sempre procurou secar as fontes onde o povo pudesse beber a fresca água da cidadania. E ao povo sempre foi vedada a luz da cultura, do conhecimento e da lucidez mental com que se faz um cidadão.

Por isso eu não acredito no povo que quer como amigos os seus inimigos. Só acredito em cidadãos, e os cidadãos não são muitos e não acreditam nos inimigos. A direita e o capitalismo selvagem não sobrevivem com cidadãos. Se houver muitos cidadãos a direita impõe uma ditadura. Sempre assim foi. Como não sobreviveriam se o conhecimento e a cultura fossem o sangue da sociedade.

O país cheira mal que tolhe. Cheira a fraude, cheira a corrupção, cheira a merda por todo o lado. Quando ao fim de quatro anos a fossa está cheia, a falsa democracia pede ao povo para a despejar, e o povo, em vez de a lavar bem lavada e encher de água limpa, oferece-a de mão beijada a uma nova equipa de cagadores. Em vez de lhes atirar com a trampa à cara, varre-a para debaixo do tapete e com o ar mais cândido diz: não é merda o que fizeram, senhores, são rosas!

Por isso eu não acredito no povo. Só acredito em cidadãos conscientes.

Os que antecederam Cavaco, desenraizado personagem de divina comédia, nada-tudo-nada deste pobre país, andaram por aí, por essa Europa, a tentar fazer disto um cemitério. Cavaco adiantou-se como coveiro, começou a abrir a cova para enterrar Portugal, e os ”boys” que o povo foi acariciando carregaram o caixão às costas, alternando com outros “boys” de outras equipas desta fossa democrática. E o povo ingénuo, sempre a pensar que ia numa procissão do Senhor dos Passos, com a Igreja à frente aspergindo água benta! Deo Gratias! Gloria in Excelsis Deo!

Por isso eu não acredito no povo.

Por isso eu não acredito no barrete desta democracia.

Por isso me farto de rir, amargamente, é certo, quando me perguntam qual o rumo para a nossa democracia.

Comments

  1. ainda penso says:

    Parabéns pelo excelente texto. Só é pena corresponder a uma realidade amarga.


  2. Uaaaaaaaauuuuuu! Bendito vómito, caro Adão, que a merda já enjoa! Que a podre ditadura de democracia vestida, regendo este país de pobres de espírito, encontre limpeza pelo menos na mente de alguns! E benditos estes alguns que se não calam!

  3. marai celeste ramos says:

    O desfazer escavacar ignorar olhar para o lado rir-se não reponder não estar cá a ver censurar – o que resta de democracia empobrece – humilha – deixa gente ibfeliz com lágrimas – com sofrimento – com conformação – outros com falta de consciêcia e com ridos alarves – outros deixa-os indiferentes deixa outros aos gritos – outros deixa-os morrer sem amparo e até consegue contaminar a própria Igreja
    A ignorância é uma infelicidade e mata – a maldade naquele patamar de que se usufrui leva ao empobrecimendo intelctual e moral e até lexical – leva ao crime mesmo dos que sabem ler e escrever e até sabem distinguir o bal do mal . mata almas

  4. coeh says:

    Nos locais de trabalho há menos democracia e isso explica a forma como a exploração avança! Dá muito jeito milhares de desempregados famintos de um trabalho a qualquer preço!


  5. O nosso país parece um paquete de luxo sem rumo, em que a tripulação e os passageiros preocupam-se mais com o gozo das férias, do que com os gastos da viagem…
    Ainda por cima, o comandante e os subalternos preferem fazer favores aos amigos do que verificar a rota do barco…
    Depois, acontece-nos como ao «Concordia»…
    Estamos encalhados no lodo, só porque queriamos mostrar a beleza da terra Natal a um engate de ocasião…


  6. E nós completamente tramados… da Silva!!


  7. Por isso eu não acredito em povo. Só acredito em cidadãos.
    Bravo.


  8. “Como não sobreviveriam se o conhecimento e a cultura fossem o sangue da sociedade.”
    Excelente.


  9. Belíssimo texto…a amarga realidade de um país sem rumo!

    Bjs.


  10. o problema que a democracia tem e exactamente esse, o exagero de ideiais, esquerda, direita, centro, pessoas que defendem ideais que sabem errados apenas por se terem colocado de um dos lados.

    A politica, a democracia devia ser uma procura da solucao, e nao uma maneira de se defender ideias ultrapassados

    Bjinhos
    Paula

  11. maré says:

    Reflexão justa esta posta.
    Isto talvez ajude a explicar porque é que tanta gente, de nível económico baixo e muito baixo, vota na direita.


  12. Direita , esquerda, direita, esquerda, esquerda direita..

    Para mim , já com alguns anos .. é tudo uma falta de respeito pelos cidadãos— em prol de interesses pessoais ou de corporações…

    recebi por email ..

    MAS NADA HÁ ENCOBERTO QUE NÃO HAJA DE SER DESCOBERTO; NEM OCULTO, QUE NÃO HAJA DE SER SABIDO” (LUCAS 12:2-3)!!!!!!!!

    Há verdades que vão aparecendo. Ora vejam aqui
    http://clip2net.com/s/1tawi

    carta de Rosa Coutinho a suplicar a Agostinho Neto


  13. direita esquerda..

    vale a pena rever o filme de Fernandel.. D Camilo .. que está a passar na RTP memória..

    23H 00 de hoje


  14. A aparência anda de mãos dadas com o egoísmo no país dos mortos-vivos e … ratos!
    Texto realista e muito objectivo. PARABÉNS!!!

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