Contra o Acordo Ortográfico: o que não interessa

A discussão sobre o Acordo Ortográfico (AO90) não está esgotada. Hoje, e ao longo de mais sete textos, procurarei dar o meu contributo para o debate, sabendo que será praticamente impossível ser original, tal a quantidade de contendores que tem versado o assunto. Procurarei, ainda assim, sintetizar, divulgar e organizar muita da argumentação entretanto produzida.

No debate sobre o AO90, tem havido demasiado ruído para que esse mesmo debate seja efectivo e, portanto, consequente. Entre a confusão de declarações importa definir, antes de tudo, de que é que não falamos, quando falamos sobre o AO90.

Há, por exemplo, quem afirme que não devemos adoptá-lo porque somos os donos da língua e que, portanto, a haver sujeição, deveriam ser os outros países a acatar o que lhes quiséssemos impor. Tudo indica que tais afirmações terão origem num complexo resultante de um desejo de regressar aos tempos colonialistas.

Entre os que defendem que devemos aceitar o AO90, muitos afirmam que o devemos fazer porque não somos os donos da língua. O Português pertencerá, com certeza, aos falantes de todos os países lusófonos, mas fica por explicar em que é a recusa do AO90 corresponde a um sentimento proprietário. Este argumento faria sentido se Portugal resolvesse impor aos outros, por exemplo, a ortografia europeia.

Alguns críticos do AO90 baseiam as suas críticas no facto de ser imposto pelos brasileiros ou por ser uma ideia dos brasileiros. Não vejo qual seja o problema de adoptar uma boa ideia, independentemente da sua origem. Que sentido faria recusarmos a cura de uma doença só porque tinha sido encontrada por cientistas brasileiros?

Entre os defensores do AO90 temos aqueles que declaram que Portugal deve sujeitar-se aos ditames brasileiros por causa da dimensão do país, o que faz tanto sentido como decidir que devemos passar a produzir queijo mineiro e deixar de fabricar queijo da Serra ou, para usar uma escala mais global, erradicar o cozido à portuguesa em favor do hambúrguer, alimento decerto mais consumido pela maioria dos habitantes do planeta.

O AO90 é, ainda, visto como um instrumento fundamental para a internacionalização da língua, fenómeno que, pelos vistos, acontecerá devido à uniformização ortográfica pretensamente alcançada. Tendo em conta o número de falantes a nível mundial, a internacionalização da língua portuguesa é, afinal, um facto. A divulgação da língua e da cultura portuguesa ou mesmo lusófona dependerá da qualidade das suas produções. Mesmo no meio de uma crise endémica, a verdade é que, ao longo dos últimos anos, graças a conquistas colectivas e a valores individuais, Portugal ganhou alguma projecção, sem necessidade de nenhum acordo ortográfico.

A sobrevivência da língua é apontada como um dos factores que tornam necessário o AO90. Trata-se de um argumento vago e inexplicado, porque não é possível demonstrar que exista uma relação de causa e efeito entre a inexistência de um acordo ortográfico e o enfraquecimento ou a extinção ou outra qualquer hecatombe da língua portuguesa tal como é falada e escrita na Europa.

No que se refere a estes dois últimos casos, continua a notar-se a manutenção de um complexo adolescente, próprio de quem precisa da aprovação dos seus pares ou está disposto a tudo para poder emparceirar com os mais crescidos ou os mais ricos ou os mais populares, seja a que preço for. Se no meio está a virtude, não se defende o regresso a um “orgulhosamente sós” paralisante, mas isso não significa que um país continue a ser uma Maria que vai com as outras.

Diz-se, ainda, que o AO90 afecta uma percentagem insignificante das grafias. Se o acordo for bom, não interessa se afecta muitas ou poucas palavras, como não interessa saber se uma mudança para melhor é mais ou menos incómoda. De qualquer modo, se essa fosse uma questão importante, interessaria saber se as palavras afectadas são muito ou pouco utilizadas: que se saiba, o adjectivo “imarcescível”, que a maioria dos falantes nunca utilizará, não sofrerá alterações, ao contrário de “acção”, “reacção”, “concepção” ou “corrector”, termos de utilização frequente.

Neste debate, outros argumentos sem importância surgem frequentemente, como o que desvaloriza a resistência à novidade como sendo coisa passageira ou o facto de o AO90 ser um facto consumado, afirmações insuficientes para demonstrar a virtude ou o defeito seja do que for.

É, ainda, comum defender e atacar o AO90, lembrando a importância dos especialistas intervenientes. Convém, no entanto, não esquecer que até Homero dormitava, pelo que devemos limitar-nos, no mínimo, a factos e, no máximo, a argumentos sólidos. O tamanho do currículo não chega para provar que o AO90 tem virtudes ou defeitos.

Finalmente, a ocorrência regular de princípios de intenções dos participantes no debate não é digna, caindo-se, frequentemente, em insinuações acerca de quem argumenta, fugindo-se, afinal, aos argumentos.

Quais devem ser, então, os territórios que devemos percorrer nesta polémica? Parece-me óbvio que nos devemos ficar pelo debate linguístico, pelas consequências (desejadas ou imprevistas) do AO90 e pela consistência do próprio texto, incluindo a Nota Explicativa.

Procurarei, ao longo desta série, ser o mais claro possível para um público leigo, pelo que tentarei evitar a sobrecarga de termos e instrumentos científicos (no que se refere a este último caso, prescindirei, por exemplo, de usar símbolos fonéticos).

Os que estiverem verdadeiramente interessados em debater com conhecimento de causa poderão consultar os seguintes materiais:

Página do Professor António Emiliano  (aqui, é possível aceder ao texto do Acordo e à Nota Explicativa);

Página de Francisco Miguel Valada;

Blogue de Francisco Miguel Valada;

Página da Iniciativa Legislativa de Cidadãos Contra o Acordo Ortográfico.

Texto 1 de 8. Contra o Acordo Ortográfico.

Comments

  1. jorge fliscorno says:

    Excelente sumário. Venham daí os argumentos.

  2. Carlos says:

    Fico à espera, interessado.

  3. marai celeste ramos says:

    É ainda pior do que fazer mais uma rotunda nas belas estradas de portugal – só para quem não sabe fazer nada e por não saber conduzir acha uma “boa” mas estampa-se na mesma
    Está a ruir de tal forma a ponte romana de Tavira que nem os peões já podem passar – mas que bom seria fazerem obras na ponta e em todas as pontes de Entre-os-Rios em vez de andar a brincar e gatar biliões com o brasilês r por alguma razão nem que seja apenas económica os países lusófonos que falam um português admirável (que já fala) como será então levar o barsilês à machambas ?? – quem não sabe fazer mais nada faz rotundas e custam bem caras

  4. Carlos says:

    Parece prometedor. Venha então essa série :).

  5. manuela cerca says:

    Amigo! Venham daí os argumentos, que acredito plenos de reflexão e portanto carregados de razão! Muito á flor da pele, porque como sabes, resta-me muito pouco tempo para refletir. continuo muito renitente em relação ao “citado”acordo. Recuso-me, mesmo a adoptá~lo, por enquanto! Quero ler-te para, com o trabalho feito, decidir, o que me parece, para já decidido!


  6. pois, mas apar d’essas razões, da arte risonha de bolear palavras, em termos de fazer resahir duas pilastrilhas de advérbios, de dar emfim ao edifício a physionomia pedante do architecto de 1900, da verve o dono, uma aleluia opipara para vossa senhoria, chimeras alguma vêz vi?

    interceder pela belleza de um período prenhe de reedificações é assis…

  7. Maria Eduarda Lemos says:

    Absolutamente de acordo. Esperemos que haja vontade política para repensar o decidido! Parece-me que o AO vem facilitar a vida de todos aqueles que escreviam com erros ortográficos, nomeadamente muitos políticos!… Mas não só!

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