Laila

adão cruz

Laila nunca fora feliz. Nem muito nem pouco. A felicidade não engraçara com ela, talvez por ser feia. Feia não era. Até era muito bonita por fora, o que não acontecia por dentro. Tinha sempre a alma do avesso e os sentimentos fora do corpo. Nunca atravessava a rua pela passadeira, entrava nas portas sempre às arrecuas e não beijava o Senhor na visita do compasso. Puxava o manto do Senhor dos passos na procissão da Paixão e fazia caretas às zeladoras do Coração de Jesus. Assistia à missa de costas para o padre. Não rezava nem comungava. A bruxa já havia dito que algum mau-olhado caíra sobre ela quando era criança ou que o diabo lhe cravara as garras na gola do casaco.

Também as horas do dia foram sempre trocadas. Jantava à hora do almoço, e à hora do jantar fechava-se no quarto a dançar, em lágrimas, até cair exausta. De noite fazia que dormia, mas só dormia de manhã e com as mãos embrulhadas num pano de flanela. O psiquiatra não lhe via diagnóstico de jeito. Pensava que o mal de Laila era não ter sonhos, não os sonhos de dormir mas os sonhos do acordar. E achou por bem inventar-lhe um sonho. Um sonho que lhe pusesse a alma às direitas e os sentimentos dentro do corpo. Para isso tinha de voltar a ser criança. Começar tudo de novo.

Mas Laila não queria voltar a ser criança por nada deste mundo. Nem morta nem viva. Qualquer pessoa só é criança uma vez. Além disso, Laila só voltaria a ser criança se não houvesse um padre a meter-lhe a mão pela saia acima e a obrigá-la a mexer naquilo. Se não houvesse um padre que lhe dissesse que só assim a alma ficaria direita e os sentimentos bem dentro do corpo. Só se não houvesse um padre a ameaçá-la com os demónios do inferno se abrisse a boca. Só se nunca mais houvesse uma mãe, empregada de padre, a dizer-lhe que o Sr. Prior era o deus do céu e o anjo do seu sustento.

Não havia sonho possível, concluiu o psiquiatra. Pensou, pensou e começou a entender e a encontrar as peças de um modesto diagnóstico. Um diagnóstico foleiro, de trazer por casa, um diagnóstico meio porco, mas de qualquer forma, um diagnóstico. Antes a alma do avesso e os sentimentos fora do corpo, antes o jantar pela hora do almoço, antes dormir acordada do que acordar a dormir, antes a dança em lágrimas do que a paralisia da mente, antes a feiura que viam nela do que a beleza dum tantum ergo.  O psiquiatra não via forma de a moldar à feição dos outros. E começou a acreditar que a sua psiquiatria andava pelas ruas da amargura. Na verdade, a haver alguma imponderável cura, ela nunca estaria nos remédios ou nos sonhos, mas tão só no remoto acaso de os outros se moldarem à feição de Laila.

Comments


  1. Magnifico texto de alma cheio…obrigada

  2. clara says:

    Adão
    É sempre um prazer imenso ler os seus textos.
    Magnífico.
    Abraço.
    P.S. Mesmo que não comente, por preguiça, leio sempre

  3. Adão Cruz says:

    Um beijinho às duas. É uma felicidade ter comentários destes.


  4. Excelente

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