Depois de Vós, Nós


Viveu para servir. Há setenta anos, naquela linha da frente interna alemã, choviam bombas dia e noite, prodigamente despejadas pelas forças aéreas do EUA e do Reino Unido. No forçado exílio, a Infanta D. Maria Adelaide acorria em auxílio dos feridos e moribundos, destemida no meio do inferno de chamas que incineravam corpos e cidades. Fez parte daquele círculo de aristocratas que foram sem qualquer dúvida, os mais corajosos e empedernidos adversários do nacional-socialismo que submetera a Alemanha. Finda a guerra e pela primeira vez pisando o solo português após a abolição da iníqua Lei do Banimento, dedicou o resto da sua vida ao serviço daqueles que jamais tiveram voz. Num país silenciado e onde “o outro” era nada, incógnita, sem os subsídios que hoje tanto pesam numa crise que se arrasta sem fim, D. Maria Adelaide de Bragança obrou prodígios com aquele saber improvisar que é tão característico da nossa gente. Jamais se espantou com vestidos roçagantes, jóias ou festas e se algumas teve, talvez a derradeira, precisamente aquela que no passado dia 31 de Janeiro comemorou o seu Centenário, tivesse sido a mais feliz. Muito mais que a República que finalmente a ela se dirigiu, foi o reconhecimento de um povo pouco habituado a desinteressados actos de benemerência e dedicação à causa que a todos devia ser comum: a da Pátria, simplesmente sintetizada em Povo.

Não viveu em vão. Esta manhã partiu uma Grande de Portugal.

“A minha fé facilita muito o fim da vida, porque o caminho é claro” (Infanta D. Maria Adelaide)

Comments

  1. Tito Lívio Santos Mota says:

    foi pena não ter sido esta senhora a ir à Síria, em vez do estupor do sobrinho.
    Talvez tivesse adiantado mais para as pobres vítimas dos bombardeamentos do amigo do Duarte Nuno.

    Todas as famílias têm as suas vergonhas escondidas mas o que vale é que a maioria dos seus membros é gente de bem.
    Nos Bragança, é o contrário, têm esta senhora e o resto são os “sírios” que se sabe.

  2. Nuno Castelo-Branco says:

    Tito, deixe-se de oitocentices… Bom, tem mesmo a certeza acerca daquilo que se está a passar na Síria? É claro que o regime é péssimo, tal como praticamente todos os outros regimes árabes. Por muito que isto custe a muita gente, é a verdade, mas no entanto, tirar de lá o Sr. Assad e colocar a Al-Qaeda, não me parece ser uma boa ideia. D. Duarte lá foi, como ponte dos seus primos reinantes e o regime sírio. Convém dialogar antes de “mandar” bombas. Deve ser assim, não lhe parece? Há uns anos, o Dr. Soares também se ofereceu como “medianeiro” – aqui as ambições são outras, não lhe chegava auscultar! – no Médio Oriente e os nossos media entraram em delírio. No que deu? Zero-zero, Zero, agente 000. Lembra-se?
    Já agora, D. Duarte Nuno faleceu em 1976 e era um excelente homem, bem ao contrário de certos presidentes activos ou passivos que andam por aí. Sob o ponto de vista humano, era incomparável.

    • Tito Lívio Santos Mota says:

      sô Nuno, deixe-se de vilafrancadas 🙂
      Ninguém vai tirar de lá ninguém nem pôr seja quem for.
      Lá porque cai um ditador árabe não quer dizer que lá fique logo a Al-Queda.
      Tese velha de velhos manhosos que já serviu a pôr o Pinochet no poder e quase nos metia pelo buraco do gonçalvismo abaixo.
      Era essa a tese que serviam por todo o lado os americanos para fazer crer que Portugal era incapaz duma democracia.
      Há alguma Al-Qaeda na Líbia ou na Tunísia? Continua-se à espera dela.
      Houve uma viragem quase de 180°? claro, tal como em Portugal em 1975.
      Depois os povos pensam, discutem e resolvem os seus problemas, contando que não haja “obras paroquiais” que venham meter o bedelho onde não são chamadas.

      Por outro lado, qual a diferença entre o Assad e o Bin-Laden?
      Sabe qual ?
      Assad sempre financiou o terrorismo, tanto na região como no mundo inteiro.
      Se for para lá algum barbudo isso muda alguma coisa?

      E que falta de respeito pelos povos, caramba, parece os amigos ingleses da minha família depois do 25 de Abril. Essa gente é anormal por acaso?
      Que pouca vergonha esta agora de considerar que a religião muçulmana é cripto-fascista e a católica um paraíso de compreensão e igualdade entre os seres humanos.

      Devem andar a brincar com as pessoas.
      A ditadura de Salazar baseou-se na Encíclica Rerum Novarum e sempre teve o apoio da igreja, mesmo após Vaticano II.
      Idem para Vichy e Mussolini.
      Pinochet alguma vez foi atacado pelo Vaticano? E os generais argentinos?

      E as afirmações criminosas do papa sobre o preservativo e a SIDA?
      E sobre a sexualidade em geral?
      E sobre os direitos das mulheres?

      Barbudos há em todo o lado, ora essa.

      os países árabes sofreram e sofrem ditaduras infames não porque sejam de religião muçulmana, tal como nós não tivemos que gramar o Salazar por sermos “todos” católicos.
      Salazar e Franco ficaram pela mesma razão que a dinastia dos Assad e o resto da cambada lá da zona. Porque tal convinha às potência ocidentais e à URSS no quadro da, então, anunciada guerra fria.

      O que se passa nos países árabes tinha que acontecer mais sedo ou mais tarde.
      Ainda bem que acontece.
      O que dali sairá só tem a ver com religião na medida em que as religiões servem precisamente, para ajudar a oprimir os povos.

      E se fizéssemos o que fez a Alemanha de Brandt e a França de Mitterand com Portugal?
      E se dessemos um pouco de crédito à inteligência desses povos?
      Não sei se resolvíamos o problema, mas, pelo menos, daríamos uma bela machadada na mentalidade colonialista ocidental que também é a nossa.

  3. Nuno Castelo-Branco says:

    Vamos então, por partes:
    1. O Tito Lívio tem andado distraído precisamente com aquilo que se passa na Tunísia, Líbia e Egipto. Observe aquilo que os partidos islamitas, maioritários após as eleições, defendem quanto á sociedade civil: a lei sharia, nada mais, nada menos.Na Túnisia a situação é má e precisamente as organizações femininas, apontam a dedo o que se prepara à descarada. Sabe o que está a acontecer no Egipto? Como pode também mencionar a Líbia, quando as primeiras declarações das novas autoridades foram precisamente no sentido da aplicação dessa sharia ? No que respeita à Síria, país cujo absurdo regime herdeiro dos gloriosos tempos em que a URSS ditava a lei na zona – o sistema Baa’s é uma relíquia da guerra fria -, conserva contudo, alguns princípios que nos farão reflectir: separação formal – pelo menos na prática – da igreja e do estado, uma muitíssimo menor discriminação da mulher, protecção das minorias religiosas, sobressaindo a liberdade de que ali gozam os cristãos, por exemplo. Uma sociedade civil rica em iniciativas culturais, com cinema, música, teatro e até, pasme, ópera! Onde vê isso no Irão, por exemplo?
    Há ainda que destacar um facto indesmentível. Nas sociedades muçulmanas, é impensável a total separação, sendo o islão invocado como base da sociedade e do próprio edifício estatal. Desmente isto? Pois, não pode nem deve fazê-lo porque é a realidade bem visível de Casablanca a Islamabad.
    A Síria tem promovido o terrorismo? Tem. Assad é diferente de Bin Laden? É, sem dúvida e em múltiplos aspectos, aliás acima mencionados. Por isso mesmo, o sucessor de Bin Laden apela abertamente ao apoio das milícias revoltosas, muitas das quais provêm de outros países, tendo estado presentes nos acontecimentos da Líbia. Qual é o interesse dos americanos nisso, é coisa que não sei dizer-lhe, dada a ziguezagueante política que os EUA prosseguem por todo o mundo. Claro que a substituição de Assad por uma espécie de regime talibã, muda muita coisa e disso não tenha a menor dúvida. No que respeita ao cripto-fascismo islâmico, a verdade é que os sectores organizados não têm nada de cripto, são-no abertamente! De Londres a Paris, de Estocolmo a Berlim, é mesmo esse o tipo de militância, sem quaisquer subterfúgios. Em França, por exemplo, os radicais dominam completamente o discurso nas comunidades magrebinas e isto, de forma total e impune. Quero acreditar – quero, mas isso nada significa – numa grande maioria avessa a esse tipo de aventura belicista, mas a verdade é que essa gente está receosa e presa no complexo de não poder manifestar-se contra os radicais, sob pena de ser acusada de “colaboracionismo” com… quem os acolheu, precisamente a França! Em suma, fugiram da opressão e da miséria e eis que os vemos agora calados por quem pretende recriar na Europa, precisamente aquilo que deixaram para trás há uma ou duas gerações. É a verdade, Tito. O caso britânico e ainda mais estapafúrdio.

    Quanto à colocação do catolicismo no mesmo plano, não, não “é tudo a mesma coisa”. Não consegue ver a diferença, caramba? Deixe-me que lhe diga que “acredito piamente” termos atingido este patamar de liberdades precisamente devido a esse legado cristão e não “apesar dele”. Ora, o mesmo não se passa além-Mediterrâneo, na margem sul do mesmo Mar. Como você diz, o que dali sairá – das revoltas que apearam os ditadores – ninguém sabe. Ou já desconfiamos com muitas certezas? Infelizmente acredito na última hipótese.

    2. A questão Franco, Salazar e Mussolini. Três casos completamente distintos e quanto ao português, o que mais nos interessa, não podemos ter a certeza absoluta de ter sido a igreja a manipular o Estado, pois foi precisamente o oposto! O regime da 2ª República teve muitas cambiantes, sem que nenhuma delas fosse a dominante, pois Salazar estava completamente no centro do sistema, habilmente gerindo todas as tendências. A génese dos três regimes – italiano, português e espanhol – foi diferente, assim como diferentes foram os esteios. Se na Itália a questão das massas nos empurram para uma leitura muito em consonância com aquilo que é típico nos regimes autoritários das esquerda – Mussolini foi , não em vão, directo do Avanti! e distinto socialista -, a isto acrescentando-se toda a legislação Del Lavoro e a retórica fascista, levada ao extremo durante a República de Saló, profundamente anti-capitalista e inimiga declarada da plutocracia. Em Espanha, Franco geriu os ímpetos fascizantes da falange, moderando-os com os sectores mais conservadores do tempo da Monarquia de Afonso XIII e claro está, recorrendo aos tradicionalistas da igreja, aliás com vivo realce para o sector basco . De Portugal, decerto conhece bem o imbróglio. Assim sendo, estes regimes não eram homogéneos e embora partilhassem aspectos comuns, estavam longe, muito longe de serem idênticos ou gémeos. A isto, há a acrescentar a sempre velha e bem presente premissa do “inimigo do me u inimigo, meu amigo é”, ilustrando bem o caso chileno e argentino. De facto, não funcionou jamais o princípio das câmaras estanques, impossíveis em sociedades modernas.
    Na URSS, o PCUS instrumentalizou abertamente a Igreja Ortodoxa e quanto a isso, não existe hoje a mais pequena dúvida. O grande ponto de viragem terá ocorrido quando da Guerra, onde o os popes apelaram abertamente à defesa da mãe-pátria, brado que Estaline oportunamente aproveitaria, invocando Alexandre Nevski, Kutuzov e até alguns czares.

    Claro que acredito na inteligência NESSES povos, não DESSES povos. Aplica-se o mesmo a portugueses, alemães, franceses ou outros. A questão é saber se essas inteligências terão aquela necessária força anímica para imporem uma “outra democracia”, mesmo que bastante diferente do conceito por nós olhado como natural. Sinceramente, duvido muito e assim continuarei, até que um feliz acontecimento me demonstre estar totalmente errado.

    • Tito Lívio Santos Mota says:

      sabe uma coisa?
      não me canse a repetir a verborreia que se ouve dias a fio na televisão que até já enjoa.
      francamente também que se ha-de esperar dum monárquico se não que não tenha ideias próprias.

      nem lhe respondo porque não vale a pena.
      você não pensa mas julga que sabe.
      e discutir com convencidos por via catódica não leva a nada.

      Bem me basta aqui a Le Pen que já me nos dá trabalho que chegue

      Passe bem e siga o seu caminho

  4. Nuno Castelo-Branco says:

    Típico… uma reacção a tresandar a rendição incondicional. Já agora, olhe bem para o que está a acontecer. Está em francês, talvez entenda qualquer coisa, pelo menos no seu sentido geral:http://www.polemia.com/article.php?id=4532

    Ideias próprias não me faltam e já agora, até gastaria algum do meu tempo para destrinçar as suas, mas isso ficará aos eu critério.

    Quanto ao catolicismo, fique desde já informado que apenas sei o Pai Nosso e a Avé Maria. Ensinaram-me na escola e as pessoas devem ser livres de seguirem – ou não – uma religião. Não é o meu caso, pois sou bastante avesso a dogmas e cerimoniais. Tente pelo menos compreender isso e já não é pouco.

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