Porque deve a Alemanha aumentar os seus salários?

Porque os baixou. O que se segue, com uma ligeira adaptação, vem de um rascunho inspirado numa cimeira europeia, escrito se não erro em novembro. A visita de Paul Krugman e a sua afirmação de que devemos reduzir os salários comparativamente com os da Alemanha, embora  fosse “preferível subir os salários dos alemães – de modo a estimular o consumo no país e, consequentemente, as outras economias do euro“, fez-me ir ao baú.

Há duas crises na Europa, que se multiplicam: uma, desde 2008, foi provocada pelos mercados à solta com epicentro nos EUA, a outra chama-se Berlim. A Alemanha recuperou da reunificação moldando a Europa, particularmente os países do sul,  aos seus interesses, substituindo um marco que não lhe dava competitividade por um euro feito à sua medida.

A reunificação serviu em primeiro lugar como desculpa para retirar ao trabalhador alemão os seus direitos:

Quando vim viver para cá, há vinte anos, não era preciso trabalhar mais do que oito horas por dia para ter direito a ganhar muito bem. Na primeira empresa em que trabalhei, todos os minutos dados a mais eram somados e convertidos em dias de férias. Todos os minutos.
Agora, os contratos de trabalho são feitos com isenção de horário.  (Helena no 2 Dedos de Conversa)

O Euro “foi o dumping salarial na Alemanha que originou um grande superavite na balança comercial” e quem acusa Angela Merkel de ser a mulher mais perigosa da Europa não sou só eu, é um dirigente da esquerda alemã.

fonte: Classe Política

Seguem as acusações mentirosas e arrogantes do costume: a cambada de calaceiros somos nós, caloteiros são os gregos a quem a Alemanha nunca pagou o que deve e não tem preço. Este gráfico é uma boa demonstração disso (desactualizado, note-se, Passos Coelho já o alterou e os trabalhadores portugueses serão agora aqueles que mais trabalham na Europa: 44,8 horas).

Podia citar a fábula da rã e do escorpião: é da natureza prussiana e por isso incurável. Não vou por aí, pese que os nazis continuam a fazer das suas com toda a impunidade e este testemunho da Helena, uma portuguesa que vive há 20 anos na Alemanha é impressionante.

Prefiro entender a lógica actual: a Alemanha quer tudo nivelado por baixo, porque essa é a forma que permite salvar da crise os bancos que andaram por maus caminhos. Ou pensam no imediato que é. Disse também Krugman  que a culpa desta crise é dos economistas que fizeram previsões erradas. Também é verdade, nenhuma ciência, sobretudo a muito limitada economia, uma jovem com 200 anos, pode fazer previsões. Mas há economistas e economistas. Os marxistas, que têm a vantagem de não separarem os gráficos dos humanos na sua forma social de viverem, não só previram esta crise como avisam do que começa a ser inevitável: nunca um império substituiu outro sem guerra, nem por outra forma as crises profundas do capitalismo foram superadas. Estão avisados.

Comments

  1. Zuruspa says:

    Aplauso este artigo de pé!

  2. Alfredo says:

    Os marxistas!?!?!?

    Ah…..os marxistas….pois.
    Lembro-me bem, por exemplo, da “Gloriosa” (e marxista e tal e não menos saudosa e tal) República Socialista da Roménia, da República Socialista da Albânia e de outras “Repúblicas” que por lá existiam de igual quilate.
    Conheci-as.

    Tenham vergonha.
    Será pedir muito?

  3. Zuruspa says:

    Bem, nestes últimos tempos tenho tido ataques de dislexia de teclado… Com a breca!
    Ele é € em vez de %, ele é s em vez de d. Desculpem-me.

    Aplaudo este artigo de pé!


  4. Incomoda-me muito ver textos meus usados neste contexto demagógico.
    Vamos por partes:

    – A Alemanha entrou no euro obrigada. Era a condição imposta para a França para autorizar a reunificação. Ou seja: estava muito bem com o marco, nenhum alemão queria o euro, mas lá teve de ser – ou isso, ou perdia-se a pequeníssima janela de oportunidade aberta a 9 de Novembro de 1989. De facto, nem houve tempo para pensar, e a actual crise é consequência desse louco embarcar no euro – por parte de todos os países.

    – Não foi a reunificação, mas a globalização que complicou a vida dos trabalhadores alemães. Há por aí muito indiano disposto a trabalhar por 20% do que ganha um informático alemão, os hospitais alemães estão cheios de médicos búlgaros. Etc.

    – O partido “die Linke” (isto a propósito de a Merkel ser a mulher mais perigosa da Europa) é conhecido por se sair com frases bombásticas a que não se dá grande importância. Também é desse partido que vêem frases muito interessantes justificando a posteriori a necessidade de uma polícia política na RDA, a existência do muro para proteger a RDA do capitalismo, etc. Ainda têm de trabalhar um bocadinho nos princípio básicos que devem orientar o seu discurso, se querem ser levados a sério.

    – A Grécia assinou um tratado desistindo das dívidas de guerra da Alemanha. De facto, em termos legais, neste momento a Alemanha não deve nada à Grécia. Claro que podemos perguntar a troco de quê é que a Grécia assinou esse papel em 1990. Vamos investigar?

    – A Alemanha é muito mais que a Prússia. Não se esqueça do sul, não se esqueça da metade católica do país. Dizer que “é da natureza prussiana” é argumentar em termos genéticos, como os nazis.

    – O testemunho que dei sobre a presença dos neonazis na vida quotidiana referia-se sobretudo à região da antiga RDA. A falta de estrangeiros nessa região, a par com o facto de os poucos que havia nessa época serem convidados de honra com tratamento especial que despertava invejas, explicam em parte a xenofobia. O facto de não terem trabalhado, como na Alemanha ocidental, o problema da herança do período nazi também facilita o surgimento de movimentos neonazis: por pura ignorância. E a alta taxa de desemprego, com a falta de perspectivas, juntamente com o que restou da herança comunista (essa ideia de que o Estado tem de tratar de tudo e é responsável por arranjar emprego às pessoas mesmo ao lado da casa onde vivem) também contribuem para o aumento de movimentos extremistas. Nesta região, tanto os partidos de extrema esquerda como os de extrema direita têm um número acima da média de eleitores.
    Finalmente: quando – infelizmente muito tarde – se descobriu que havia um bando de neonazis a matar estrangeiros, o país ficou chocado e reagiu imediatamente. Já se fizeram várias prisões, já houve uma sessão de pedido de desculpas às vítimas no Parlamento, há dias houve uma cerimónia em memória das vítimas. Em suma: a Alemanha não é um país onde os nazis continuam a fazer das suas com toda a impunidade, e é-o cada vez menos.
    Aliás, lamento que tenha pegado apenas neste meu texto, mas não tenha ido buscar aqueles em que falo de manisfestações anti-neonazis com 10 vezes mais manifestantes que os de extrema-direita, ou aquele em que conto como foi o 1º de Maio em Berlim quando os de exprema-direita foram autorizados a desfilar.


    • Essa parte de te incomodar, Helena, aches ou não o meu texto demagógico, deixa-me triste, que eu veja não retirei nenhuma frase do seu contexto. E repito: isto estava escrito desde novembro.

      Quanto ao resto, vamos às partes:

      – A Alemanha entrou no euro obrigada. (…)

      Apetece-me citar o velho Solnado: contrariada mas foi. E depois de ir tomou conta dele, até porque a França se deixou ir. Não ando aqui a criticar países, muito menos povos, mas sim os seus dirigentes políticos numa dada altura da História. Não são os mesmos da década de 90, nem num país nem nos outros.

      – Não foi a reunificação, mas a globalização que complicou a vida dos trabalhadores alemães. Há por aí muito indiano disposto a trabalhar por 20% do que ganha um informático alemão, os hospitais alemães estão cheios de médicos búlgaros. Etc.

      A abertura da UE a leste foi promovida por quem? Não vejo os americanos a queixarem-se do informático asiático, vejo-os a contratarem-nos.

      – O partido “die Linke”

      O Die Linke tem a mesma origem RDA da Merkel. É natural que em coisas que eu diria menores repitam disparates, à medida de cada um. Nunca criticarei a Merkel, ou o novo presidente alemão, por tolices que se entendem nessa origem.

      – A Grécia assinou um tratado desistindo das dívidas de guerra da Alemanha. De facto, em termos legais, neste momento a Alemanha não deve nada à Grécia. Claro que podemos perguntar a troco de quê é que a Grécia assinou esse papel em 1990. Vamos investigar?

      Aguardo provas disso. A questão foi levantada também por historiadores alemães. Esse acordo de 90 tem carácter definitivo? é mesmo um tratado? é que se for, os gregos que resolvam o assunto, julgando por crime de alta traição quem o fez.

      – A Alemanha é muito mais que a Prússia. Não se esqueça do sul, não se esqueça da metade católica do país. Dizer que “é da natureza prussiana” é argumentar em termos genéticos, como os nazis.

      Mentalidade prussiana remete para o séc. XIX. A primeira crise do capitalismo à imagem da qual estas se fazem. Mentalidade nada tem que ver com genéticas, quanto muito com cultura.

      – (…) Finalmente: quando – infelizmente muito tarde – se descobriu que havia um bando de neonazis a matar estrangeiros, o país ficou chocado e reagiu imediatamente. Já se fizeram várias prisões, já houve uma sessão de pedido de desculpas às vítimas no Parlamento, há dias houve uma cerimónia em memória das vítimas. Em suma: a Alemanha não é um país onde os nazis continuam a fazer das suas com toda a impunidade, e é-o cada vez menos.

      Posso estar equivocado, mas peguei no que na altura lá estava. Helena, divergências é uma coisa, má fé outra completamente diferente. Já te leio ( aliás nos lemos) há muito mais tempo do que aquele em que escrevo no Aventar, podemos não pensar o mesmo sobre o mesmo assunto, mas dispensava ataques deste género. E não vais negar que se descobriu agora que a polícia alemã encobriu e deixou andar esses crimes, ao ponto de só por mero acaso se ter descoberto a mesma origem organizada. Uma coisa é um sentimento, muito de mea culpa, generalizado na Alemanha em relação ao seu passado, outra são as actuações institucionais. Num país onde por lei se proíbe o revisionismo (uma perfeita tolice em democracia) lá se deixam os meninos à solta naquilo em que eles são perigosos. Não sei porquê, mas desconfio que aquela “empresa de segurança” que agora foi actuar na Bélgica não é tão inocente como isso nestas matérias.


  5. Alfredo, quem mistura economia política, teórica, com a (má) aplicação de uma outra coisa chamada ideologia política, ainda por cima feita religião em regimes que nunca me viu aqui defender, sendo a coincidência de terem a mesma origem completamente irrelevante, leva com duas respostas:

    1) se é assim tão analfabeto, tente as novas oportunidades
    2) se não tem argumentos para um contraditório, fique caladinho que faz melhor figura.

    pode escolher à vontade.

  6. Tiro ao Alvo says:

    E vivam os economistas marxistas! E morram todos os outros! E vivam os historiadores marxistas! E morram todos os outros, porra!

  7. Alfredo says:

    Sr.Cardoso:

    1 – Não sou (passe a imodéstia) analfabeto.
    2 – Nada tenho contra a ideia das chamadas “Novas Oportunidades” (e muito menos contra os “analfabetos”, muitos dos quais dão cartas a licenciados em muitos aspectos), apenas me me desagrada, sobremaneira, a sua implementação. Devo ainda dizer-lhe que não contava (sinceramente) com um argumento tão……..”elitista/classista”…..da sua parte, mas enfim……….
    3 – Foi o Sr.Cardoso que referiu, em abstracto, os chamados “marxistas”. Ora, se bem me lembro, os dois regimes que citei (e mais uns quantos) usavam essa “rotulação político-ideológica”, logo………………..

    “…..em regimes que nunca me viu aqui defender……”
    Fico satisfeito de o saber. Perante tão contundente comentário estou certo que, mesmo nos idos de 60, 70 e princípios de 80, não foi um dos panegiristas de tão reluzentes regimes “marxistas-leninistas”. Repito: marxistas.
    É que, como certamente se recordará, não faltava, em determinada altura, quem fizesse uma acérrima defesa de tais regimes.

    Desculpe que lhe diga, mas a chegada de alguém aqueles países, naquela época, provocou muitas lágrimas, tristeza e, sobretudo, uma enoooooorme desilusão.
    Tenha paciência mais nunca poderei olvidar tal logro.


  8. Alfredo, aos 15 anos, nunca o neguei, defendi com ideias e o corpo o regime chinês, altura em que tive o privilégio de conhecer o actual presidente da Comissão Europeia. Não faz parte dos meus hábitos negar a minha adolescência, e até coisas mais recentes onde fiz os meus disparates. Mas convenhamos que mais de 30 anos depois isso vale tanto nesta discussão como nada.
    Os economistas marxistas são tão economistas como os keysenianos ou os neoliberais. Têm até a vantagem de enquanto corrente dentro da ciência económica andarem por cá há mais tempo do que os outros, e em ciência tempo é aprendizagem, nomeadamente com os próprios erros. A diferença é que uns, os herdeiros dos teóricos do pinochetismo, vão todos os dias à televisão, outros, os descendentes de quem resolveu a crise dos anos 30, raras vezes são ouvidos. Os marxistas estão proscritos como se tivessem lepra. E isso não se explica pelos regimes ditos marxistas, ou as ditaduras sul-americanas não estiveram ao mesmo nível, com a diferença de terem obtidos resultados meramente económicos muito piores?


  9. Schäuble apanhado a jogar Sudoku enquanto se discutia resgate grego

    http://diariodigital.sapo.pt/news.asp?id_news=560889

    O que me dizem?

    Foi o repórter da TVI?
    Não porque está suspenso!
    Também este vai ser suspenso este um mês?

    Quo Vadis Europa!

  10. Helena Araújo says:

    João José Cardoso,
    vou ficar apenas por dois pontos:

    1. Em 1953 os países adiaram a questão das indemnizações da guerra para a altura de um tratado da Paz. Em 1990, em vez de um tratado da Paz fez-se o tratado dois mais quatro, entre outros motivos para encerrar a questão das reparações de guerra. A Carta de Paris, assinada em 1990, também pela Grécia, confirma este entendimento e tenta lançar uma época nova nas relações entre os países. Agora diz-se que a Grécia assinou esse documento não como quem aceita mas como quem toma conhecimento.

    2. “Podia citar a fábula da rã e do escorpião: é da natureza prussiana e por isso incurável. Não vou por aí, pese que os nazis continuam a fazer das suas com toda a impunidade e este testemunho da Helena, uma portuguesa que vive há 20 anos na Alemanha é impressionante.”
    Seja – dando de barato que quando se fala da natureza da rã se está afinal a falar da mentalidade que a rã desenvolveu no séc.XIX, o que é que o meu testemunho sobre os neonazis está a fazer numa frase sobre a natureza/mentalidade dos prussianos?


  11. “Podia ir por aí”, Helena, mas não fui. Tenho amigos e até familiares alemães, sempre tive, e se há coisa que abomino é o entendimento de que um povo, ou uma população, é toda igual. A mentalidade, como a vejo em História, mostra-nos atitudes e comportamentos que em dados momentos são assim ou assado, nunca nos diz que um povo é, apenas que em certa altura se comportou como tal.
    A ideia da frase era precisamente contrapor-se ao discurso que diz “os alemães são nazis” ou “os gregos uns moinas”. Nos povos há de tudo como nalgumas farmácias. Se assim não o entendeste, mea culpa, que não soube escrever claro.

  12. Helena Araújo says:

    É, parece que entendi mesmo tudo ao contrário! 🙂

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