Os clássicos da Literatura no ensino do Português

O Ministro da Educação ter-se-á mostrado favorável à re-inclusão de Camilo Castelo Branco nos programas de Português do Ensino Secundário. Espero que não o tenha feito apenas para ser simpático com o anfitrião, o presidente da Câmara de Famalicão, ou devido ao facto de ser um autor da sua preferência.

Se é certo que a Educação tem sofrido um desgaste brutal, com destaque para os últimos sete anos, a disciplina de Português, o fundamento do currículo, tem sido particularmente atingida por reformas e ajustamentos sucessivos, com oscilações brutais de terminologias linguísticas e com a exclusão do estudo de autores fundamentais da cultura portuguesa, com base em concepções vagas que defendem que a Escola deve ir ao encontro dos interesses dos alunos ou que os deve preparar para o mercado de trabalho, o que tornaria desnecessário o ensino da Literatura Portuguesa.

A recuperação dos clássicos no Secundário não se pode fazer sem uma perspectiva holística do currículo da língua portuguesa em todos os ciclos, para além de se tornar necessário rever a formação inicial dos professores que tiverem a seu cargo o ensino da língua materna, mas não é aceitável que os cidadãos portugueses possam concluir doze anos de escolaridade sem conhecer os principais escritores da Literatura, a começar pela Idade Média.

Diante de mais esta minha demonstração de conservadorismo, fico a aguardar a próxima serenata do meu amigo João José Cardoso.

Comments

  1. Tito Lívio Santos Mota says:

    se está com medo, conte com o meu apoio.

    eu sou conservador nestas coisas.
    Ler, escrever e contar.
    Ninguém deveria poder sair da escolaridade sem isto, nem que lá andasse 20 anos.

    O meu pai que é matemático, farta-se de ralhar contra a parvalheira dos conteúdos em matemática. Continua a não perceber porque se estudam coisas que só servem no superior em vez de aproveitar o tempo para aprender coisas que nunca mais vão poder aprender, como literatura, filosofia, história, etc.
    O meu avô que foi professor 50 anos na Univ. do Porto sempre foi de opinião que se deveriam inverter os currículos. Quem fosse para ciências, levava com letras em cima e quem fosse para letras, com matemática.

    E a verdade é que depois assistimos ao seguinte : nem os alunos de letras sabem letras nem os de engenharia matemática ; e, ainda por cima nem uns nem outros sabem ler e escrever.

    é que ler não é decifrar um texto, é compreender o que se lê.
    Ora, como eles decifram, julgam que sabem ler.
    Quem não sabe ler pode estudar matemática? e quem estuda letras pode passar sem a lógica, por exemplo?

    eu, por mim, punha os contadores no 0 e começava tudo de novo a contar do ano 75 em que se criaram as malfadadas escolas secundárias (que o diabo as leve a todas).
    Para ver se se conseguia construir alguma coisa. Que isto de remendos já chega, poça.

    Fora disso, há uma compensação. O ensino em Portugal é muito, mas muito melhor que em França.
    Andaram a fazer pouco de Portugal porque não sei qual instituição nos pôs no topo dos rankings. Mas a verdade é que até somos bons.
    Ou melhor, a Alemanha, a Inglaterra e a França abandalharam tanto o ensino que, por comparação, somos bons.
    Quanto à Espanha é aquilo que se sabe, continuam no tempo do Franco : ou tens dinheiro e vais para os “colégios de monjas” ou recebes um ensino placebo nos “institutos” do Estado.

    Conclusão

    Temos professores competentes e ainda não abandalhamos completamente os currículos.
    Se nos despacharmos, ainda há remédio.
    E responsabilizem os pais pela educação dos filhos, caramba, a escola é feita para instruir e os pais para educar.


  2. boa Tito

    cump


  3. “a Escola deve ir de encontro aos interesses dos alunos ou que os deve preparar para o mercado de trabalho, o que tornaria desnecessário o ensino da Literatura Portuguesa.”

    Há insinuações perigosas nesta frase; deveria a escola ir (ainda mais) ao encontro dos “interesses” dos alunos? Quer-se dizer: andamos há décadas a aquiescer a suas excelências, andam os pais pela mesma batuta a fazer-lhes as vontades todas, andam ministros preocupados em não traumatizar “as crianças”, daí transitarem sempre de ano. Interesses dos alunos? Quais alunos? Um bando de incomportados paquidermes que não sabe, nem quer saber, viver em sociedade?
    Mercado de trabalho. Poderá o dito “mercado de trabalho” prosperar, progredir com gente formada estritamente para o trabalho? Bane-se a Literatura porque não gera IVA para o Estado? Deixam-se cair as ciências humanas e sociais, a História, a Literatura porque não são bens exportáveis?

    E a fase seguinte qual seria? – vender a Torre do Tombo ao maior licitante, porventura chinês?
    Deslocalizar a Biblioteca Nacional para São Paulo? (a verdadeira capital económico do universo lusófono).
    Anexar o Ministério da Cultura ao das Obras Públicas e Barragens? – Isso parece que já está…


  4. Dario

    estes gajos vendem a mãe, o pai, a filha e o filho.. só para demonstrarem a sua competencia..

    a mulher nãO VENDEM .. PORQUE ELA SE DÁ…

    sugiro uma vista de olhos num artigo que coloquei no

    http://caldeiraodebolsa.jornaldenegocios.pt/viewtopic.php?t=67164&start=775

    abraço

    mario


  5. Se no meu tempo se dissesse que a escola deveria ir de encontro aos desejos dos alunos deveria haver atualmente muito pouca gente com uma licenciatura a sério, mas se calhar talvez não.
    Licenciavam-se em bola, em cachaçadas e ofícios correlativos, em namorisco, em bate-ficas e outras disciplinas idênticas.
    Por isso é que hoje ainda muitos pensam que a Arcádia Lusitana é uma pastelaria na baixa, o Camões foi um grande hipíco, que as epístolas são as mulheres dos apóstolos e que o Sócrates morreu atropelado por um recruta.


  6. Reblogged this on Sonhos Desencontrados and commented:
    De leitura obrigatória para quem com a educação no nosso país se preocupa.

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