46664 é o próximo número da escola pública

A 11 de fevereiro de 1989 assisti pela televisão a um dos momentos mais marcantes da minha vida: a libertação de Nelson Mandela.

Eu sei que a recordação é completamente desajustada, mas  avisei, há três anos atrás, no primeiro dia do Aventar que nem sempre consigo pensar antes de escrever.

Também já deu para perceber que o azeite e água, coisa e tal, um por cima e outro por baixo e nem sequer é uma questão de peso.

E vem esta conversa a propósito de quê?

Da separação entre alunos bons e alunos maus!

Sempre houve em Portugal uma elite que tratou da sua vidinha, no que à Educação diz respeito. Todos conhecemos os colégios para onde eram enviados os herdeiros das grandes famílias, que tratavam, legitimamente, de manter o seu poder.

Em Portugal, nos últimos 30 anos apareceu essa coisa chata da Escola Pública, que para o melhor ou para o pior, permitiu a alguns (poucos, reconheço!) quebrar o destino.

O que temos hoje em cima da mesa é um conjunto muito claro de propostas que visam, claramente, separar o trigo do …. excluído.

Como docente de matemática da escola pública há 15 anos não tenho dúvidas que alguns alunos aprendem sozinhos e até costumo dizer que aprendem apesar dos professores. Mas a questão central não é essa. O que importa perguntar é como é que permitimos a todos aprenderem! A TODOS!

Há opções organizativas hoje no terreno experimental que podem ser uma boa saída – as turmas mais ou turmas ninho são algo a considerar. Mas separar por inteiro e durante todo o tempo e em todas as aulas os bons dos maus é algo completamente estúpido e só não entendo o silêncio dos pensadores e dos investigadores.

Mas esses sempre estiveram mais inclinados para onde dá jeito! Esta tem que ser uma luta dos práticos! Pela Democracia!

Comments


  1. “Mas separar por inteiro e durante todo o tempo e em todas as aulas os bons dos maus é algo completamente estúpido e só não entendo o silêncio dos pensadores e dos investigadores.”

    Essa separação já existe, sempre existiu, de forma mais ou menos camuflada, JP. E não se pense que o problema é exclusivo nas escolas privadas… Há escolas públicas que criam esses nichos, ou ninhos… com o silêncio conivente das associações de pais, talvez por ser parte interessada, digo eu…
    Mas não creio que o governo ouse chegar aí, JP. É muita basófia…

  2. Joao says:

    Claro, porque todos sabemos que o que se vai fazer a seguir é deixar de ensinar aos que menos sabem e mais precisam… E depois vão para a prisão, que nem o Nelson.

    Viva a mediocridade! Aulas em função dos alunos? Nada disso!

    Em função de uma segregação que existe apenas na cabeça de uns iluminados vamos fazer que os alunos que mais saibam não possam explorar o conhecimento e os que menos sabem não podem ter alguém a apoiar-los como deviam.

    E todos sabem que as iniciativas propostas são separar por inteiro a tempo inteiro. Viva a luta contra as iniciativas fictícias! (para um professor espantam-me a capacidade de debate a volta do que nada se sabe… depois da liberdade de educação. só faltava mais um post sem o mínimo de preocupação de discutir os factos…)

  3. maria celeste ramos says:

    Vi este mês ainda, um documentário americano com entrevistas a algumas mâes que tinham seus filhos em locais de ensino e associações de pais para os aceitar e elogiar – foi sinistro – que pena tenho de não me recordar em pormenor – é sinistro – as mãezinhas sinistras a apoiar ensino sinistro
    Em 1965 estive em Cabo Verde onde ensinar era um acto de amor e grandeza – no meio dos pedregulhos duros e desorganozados, da cratera da Ilha do Fogo, os meninos muito pequeninos sentavam-se entre as pedras ede tão inesperado em tal lugar, fui ver o que era uma mancha vermelha no meio da imensidão de 8 km (diâmetro da cratera) de pedras negras – Era uma menina de laçarote vermelho na cabecinha entre os outros meninos de imaculada bata branca e a sua professora – Felizes a aprender o que lhes era comunicado – nunca pensai que poderia haver tanto amor ao saber e ensinar no meio das pedras negras e que magoavam pés e corpo, mas alimentavam a alma – enquanto viver esta é uma das imagens mais belas do meu olhar -. sim – o amorr aos meninos nas consições mais inóspitas de um lugar – em Cabo Verde em 1965/66 só aprendi lições de vida como em mais nenhum lado – por isso tinha de lá voltar – e voltei – 16 anos depois – o lugar já nem será o mesmo pois que ao fim de mais de 100 anos o vulcão explodiu e a população teve de sair – mas certamente que voltou às suas casinhas ali escondidas embora a capital, de S.Filioe, seja uma das mais belas aldeias da Ilha do Fogo debruçada lá do alto daquelas escarpas quase verticais – a mais rude beleza que vi – encantatória – o ensino em Portugal desmoronou como o Haiti – sobrevive-se entre destroços e resíduos de um lgar e de vidas

  4. João Paulo says:

    #1 Miguel,sim, claro – há aqui em Gaia, como em todo o país, escolas Públicas que se dão ao luxo de escolher os seus alunos, porque têm “excesso” de procura.

  5. João Paulo says:

    #2 João, obrigado por ter comentado. Podemos sempre comentar, mesmo quando não sabemos nada, mas essa é a magia dos posts. Falar sobre o que não sabemos, mas apenas sobre o que nos apetece. Quanto ao conteúdo, eu percebo a sua intenção – os melhores para um lado, para aprenderem mais, como se diz na linguagem mais popular, “serem bem puxados”. Os outros, ainda na sua linha de argumentação, os menos bons, serão mais apoiados. Isso é que, se me permite, é comentar sem factos – como é que isso vai acontecer? Será que tem alguma varinha de condão? Como é que colocar os “bons” para um lado e os “maus” para outro, vai dar mais oportunidades aos “maus,”

    Obrigado,
    JP

  6. jornalista da مدرسة nº 53 nã me afinfem nos tintins says:

    ora sem querer personalizar muitas escolas mandam os alunos que reprovam para guetos educativos impedindo a sua reinscrição

    por exemplo : Mouzinho da Silveira (vulgo Benetton) atira os seus rejeitos para a secundária da Baixa da Banheira (vulgo Vale da Amoreira..ex-capital do casal ventoso do deserto da margem sud)

    logo isolar e separar tem sido corrente nestes…anos

    e se vais fazer 40 em breve…em 1989 já tinhas uma edade apreciável…
    se isso foi um dos mais marcantes da tua vida…agente lamenta

  7. jornalista da مدرسة nº 53 nã me afinfem nos tintins says:

    e como ex-prof de uma data de turmas “de ensino especial” cuja particularidade de serem especiais eram ser irmãos mais novos de polícias GNR’s ou de outras aves do gueto…
    enquanto os filhos da classe média (subchefes de polícia e chefes incluídos) e filhos de oficiais e sargentos …estavam em turmas normais

    ora isto foi em ?
    a)53
    b)69
    c)89

    assinala a alternativa incorrecta….

  8. João Paulo says:

    #6 #7 Ora viva, mais um comentário e mais um lamento. Partilho da sua preocupação com os momentos que mexem comigo. Sou assim… um sentimental…

    Volto a escrever o que já escrevi antes – a escola de hoje não é uma escola justa e distingue, segrega em muitos casos. Estamos de acordo. É contra isso que luto e trabalho todos os dias. O que não entendo é o que é que os exames acrescentam para resolver este problema, nem tão pouco separar os alunos em bons e maus…
    JP

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