Saudosismo?

Paulo, eu vou pedir desculpa, mas não entendo esta tua sedução pelos exames do antigamente. Será que dá para explicar?

O irónico título “Coisas muito traumáticas da velha primária” quer conduzir a reflexão para onde? Mostrar que apesar das “coisas muito traumáticas da velha primária” estás aqui de boa saúde?

Se for só uma estratégia de markting para ter mais cliques, ok. Eu entendo e nós também os temos! Se é mesmo só por interesse histórico,então nada a dizer.

Mas neste momento tal interesse tem até um efeito contrário ao que tens mostrado. Associar a novidade do exame no 4º ano ao teu singular apelo acaba por legitimar as dúvidas – que eu partilho por inteiro – do interesse dos exames, dizendo que “são o mesmo de antigamente.” São um instrumento claramente político que foi usado no tempo do estado novo e que acabou com a Democracia.

Posso apelar ao teu perfil de docente? De professor, mesmo.

O que vais fazer com os meninos – tu às vezes referes que trabalhas com alunos “mais complicados” – que nunca irão conseguir fazer o exame? Reprovar? Há mais perguntas, mas esta penso que poderá ajudar a perceber o que vai na mente de quem defende os exames num momento tão precoce da escolaridade.

Comments

  1. joao says:

    Parece que a questão centrou-se no haver ou não haver trauma, cada qual, à sua maneira, acenando com um qualquer atestado de robustez física e mental, assim como um atestado de ausência de qualquer acto criminal cometido antes ou após a realização de qualquer exame do tempo do Estado Novo.

    Na verdade, e se queremos falar de qualquer coisa relacionada com os exames, não foram os exames da 4º classe que “traumatizaram” (ok, não apreciei as reguadas e as pancadas na cabeça por causa do acento da palavra “água” e “árvore”, mas o que é certo é que hoje já não me engano e vejo muitos que não apanharam reguadas ou pancadas na cabeça a errarem nos acentos, o que poderia levar à conclusão de que até ajudaram)

    No meu caso pessoal, do que nunca gostei por aí além foi do resto. Não é que tenha ficado traumatizado, no meu caso fez-me pensar e perceber.


  2. João Paulo, peço desculpa por “meter a colherada” já que não sou professora e portanto a minha ignorância em matéria de ensino e educação é imensa. No entanto, e pela minha própria experiência, gostaria de comentar o seguinte:

    Os exames são um absurdo. São uma tentativa inglória de uniformizar aquilo que não é do todo uniformizável: a capacidade de aprendizagem de cada indivíduo! Que convenha aos governos fazê-lo, isso é outra história cujos fundamentos se prendem com a necessidade de uma mecanização e selecção de conhecimentos do indivíduo para a consequente maior facilidade de o controlar.

    A questão é que se o ensino for tomado como a coisa séria que é, tão séria que tem o papel fundamental no progresso da própria civilização, então deverá ser integralmente dirigido à aptidão do indíviduo. Isto é, que mais valia se tira de uma criança que mostra aptidões numa determinada área e é apenas sofrível noutra, exigindo-se-lhe no entanto que, através do dito exame, demonstre que domina todas as áres? Isto é estupidez pura. A criança deveria, sim, ser orientada desde o início da sua educação sempre na direcção das suas aptidões. Uma criança que demonstra aptidão a matemática deverá ser encaminhada nesse sentido e nunca truncada no seu percurso só porque não consegue ter a mesma aptidão em línguas! Cada indivíduo é único e portanto a impossibilidade de sermos todos medidos pela mesma bitola é um facto inquestionável.

    Enfim, existem muitos outros aspectos a considerar. No entanto, devo referir ainda aquele que acho que deveria ser evitado a todo o custo: a violência que “o exame”, pela sua natureza eliminatória e comparativa, exerce sobre o indivíduo!


  3. é a avaliação do sistema, estupido!


  4. A Isabel não é um caso perdido…
    Acrescente-se a isso que medir tudo por um padrão faz com que todos sejam iguais e que se esforcem todos por pensar de forma rígida consoante o que é pedido e pouco mais do que isso, de forma a que possamos ser todos facilmente substituíveis, mas também onde não surgem capacidades de novas soluções.


  5. Caro Nightwish, esse comentário sobre a minha pessoa, vindo de si, é um fantástico elogio! 🙂

    Mas devo adverti-lo de que essa questão da padronização não se aplica só ao ensino, aplica-se a tudo. Um indivíduo que se deixa atar a ideologias, a sistemas, a partidos políticos, a facções, a clubes de futebol, a religiões, etc. é um indivíduo padronizado e, contrariamente àquilo que pensa, lançou fora, por via da filiação, da associação, etc., a sua liberdade, coarctou o seu pensamento individual.

  6. João Paulo says:

    #1 Obrigado por ter comentado. A questão não é o trauma. É a necessidade de uma proposta política. Continuo a pensar que os exames não resolvem nada e têm um efeito negativo. Há quem pense o contrário e isso é que torna a democracia interessante.
    O que pretendo mostrar é que a escola pública fez um enorme serviço pela democracia e isso aconteceu sem exames – não é claro para mim como é que os exames melhoram a escola.

  7. João Paulo says:

    #3 Pois, se calhar.


  8. Não sabia que eras o Sherlock Holmes que se punha no Umbigo com aqueles comentários “PSD! PSD! PSD!” cada vez que o Crato tomava uma deisão menos acertada. Ou então é alguém que lá aparece e descarregou este teu post

    Já te respondi lá, pensando que eras o tal SH, por isso aguenta-te ao barulho:

    Vou tentar responder de forma ponderada a cada ponto:

    1) Sou professor de História, o passado não me assusta e acho positivo que o recuperemos e o recordemos como forma de preservamos a memória do Bom e do Mau. Apagar a memória é a matriz de todos os regimes com tendências totalitárias.

    2) por vezes não há apenas “reflexão”, há momento puramente de fruição e de prazer. Quem esquece isso, esquece parte importante da vida.

    3) Acho despropositado falar em eu querer “mais cliques”, porque nada ganho com isso e, de certa forma, é contrário à tua própria argumentação porque isso significaria que o assunto tem interesse para as pessoas.

    4) Os meus “meninos”, felizmente, são ensinados a não ficar traumatizados com as provas que devem fazer e não os “reprovo”. Como andas por aqui há bastante tempo pensei que sabias que sou um gabarola sem remédio pois nos últimos anos divulguei aqui os resultados das minhas turmas em provas de aferição. Alunos sempre de turmas PCA e que, com uma única excepção, tiveram resultados (em termos de sucesso) acima da média nacional e da minha escola. Em alguns casos chegou aos 100%. O ano passado aos 90%

    5) O pior preconceito, a pior prática é aquela que desiste dos alunos logo ao arrancar e os manda fazer desenhinhos, copiazinhas e coisinhas da treta porque, coitadinhos, estão condenados a “reprovar”. Essa é a postura de quem os encara como casos perdidos. Eu, como nunca os encaro como casos perdidos, dou o que posso e sei de maneira a eles não falharem, seja por que padrão for. Entendes? É isso que nos divide! Tu achas que eles estão condenados a reprovar. Eu acho que eles têm obrigação de tentar passar.

    Dá para entender a minha postura?
    É incómoda, eu sei, porque sofro na pele, real e virtualmente, há anos por ser assim.
    Por ser voluntário para dar aulas a estes miúdos e não achar que o seu destino é reprovar.
    Provavelmente, se fosses tu (desculpa-me, mas é o que dás a entender com a tua postura de rendição), eles reprovariam mesmo todos.

    http://educar.wordpress.com/2012/03/31/coisas-muito-traumaticas-da-velha-primaria-4/#comment-689164

    E continuei no comentário seguinte:

    Ahhh… sei que nestas alturas pareço muito arrogante.
    Já estou habituado.
    Mesmo (ou em especial) em clima de proximidade, há quem tenha dificuldades em suportar-me, porque não alinho em “coitadinhices”.

    O meu perfil de docente é este.

    E se quiseres saber uma coisa… no dia em que precisasse de alguém para me defender, escolheria quase sempre em primeiro lugar estes mesmos alunos aos quais levo dois anos a convencer que não são os ineptos que o benaventismo-bloquismo-valterismo (na senda ismos como os freirismos, pachequismos e etc)nos quis fazer crer que são.

    Não são!

  9. João Paulo says:

    #9 Olá Paulo, eu sou quem? O Sherlock Holmes? Eu? O q t levou a pensar em tal ideia. Aos anos que ando nisto, nunca deixei nada por assinar onde escrevo, logo, não sou esse. ehhehe

    Agradeço o “Vou tentar responder de forma ponderada a cada ponto”. Vou tentar fazer o mesmo:

    1) Subscrevo. Mas permite-me a comparação: será a mesma coisa lembrar a memória de Salazar ou de Marcelo Caetano? Isto é, no contexto actual, estar a fazer a evocação, ainda que histórica e com interesse histórico, dos exames e dos seus símboloso, é tomar uma posição, certo? O que me baralha é que isso significa ao mesmo tempo “amarrar” esta proposta do MEC a algo sem sentido do antigamente e que tu achas que não são a mesma coisa… Estou eu próprio baralhado: não são exames de outros tempos, mas a tua evocação são os exames de outros tempos…

    2) Foi o que me pareceu. Foi a sensação que tive ao arrumar e “preservar” o diploma do meu pai da 4ª classe. Isso entendo! E sinto.

    3) Também posso mandar umas boquitas, ou és só tu? eheheh

    4 e 5 ) Tb tenho experiências com alunos complicados de escolas complicadas, quase sempre TEIP’s. E não assumo a derrota. Nem depois do jogo. Nada disso. Só não entendo o que vai acrescentar o exame… O que vai trazer de novo? Achas que os putos se vão MESMO motivar mais por irem a exame?

    A consideração final: subscrevo a intenção de apostar MESMO nesses alunos. Claro que sim!

    JP

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