“Embrulhar” a dor

No passado domingo, a jornalista Paula Torres de Carvalho escreveu um artigo no Público sobre a Depressão, que intitulou de «Lidar com as tristezas». Partilho esse texto com os leitores do Aventar:

“Não é fácil conviver com a infelicidade. Fazem-se planos, projectam-se desejos que a crueza da vida contraria e depois… não há perspectivas, não se vêem saídas. Fica-se desalentado. Resta viver com o que há, quando muitas vezes o que há é muito mau e muito triste. Mas estar desanimado e deprimido nem sempre significa que se está doente.

Portugal é hoje um dos países europeus com maior consumo de antidepressivos. Como em muitos outros países europeus, banalizou-se a prescrição e o consumo das drogas psicotrópicas. O último eurobarómetro sobre saúde mental realizado em 2010, indicou que 15 por cento dos portugueses tinham consumido antidepressivos nos 12 meses anteriores, o dobro da média europeia. Mas, como alertou recentemente Jorge Gravanita, vice-presidente da Sociedade Portuguesa de Psicologia Clínica, o entendimento de grande número de psicoterapeutas é de que 90 por cento dos casos que chegam ao consultório não precisariam de medicação, mas de psicoterapia nos tratamentos de primeira linha.

Existem, claro, as situações patológicas, doenças mentais, depressões graves que necessitam de medicação. Mas estas são uma minoria. Num país em crise generalizada, não é fácil continuar a ter esperança quando se está mergulhado no caos e não se vislumbra o futuro. Mas, em muitos casos, os medicamentos funcionam apenas como analgésicos e não resolvem a origem dos problemas.

As sociedades e culturas actuais alimentam a tendência da intolerância à tristeza e à frustração. O mal-estar psíquico é para eliminar com celeridade. Não há espaço nem tempo nem interesse em pensar. É mais simples e mais rápido consumir (muitas vezes durante longos períodos) antidepressivos para “aliviar” sintomas, em vez de combater causas.

Cada vez mais pessoas não hesitam em recorrer a um comprimido apenas perante a ameaça de uma contrariedade ou a inevitabilidade de enfrentar qualquer dificuldade. A frustração torna-se insuportável, a perturbação emocional não é pensada, mas mascarada. As tristezas são tratadas como doenças de que é preciso fugir sem compreender. E, no entanto, é a capacidade de enfrentar as adversidades e de aprender a lidar com os desgostos, as dificuldades e a tristeza que permite criar estrutura interior para resistir aos obstáculos, para encontrar formas de os ultrapassar e, depois, para mudar.”

Essa tolerância à frustração e capacidade de ir em frente apesar das quedas adquire-se desde cedo, na infância, com a interiorização das regras e limites. Mas isso também se vai tornando mais difícil. Nas sociedades em que Ter tem muito mais importância do que Ser, deixou-se de pensar as tristezas, não se distinguem os lutos normais dos patológicos e prefere-se “embrulhar” a dor em comprimidos. Mas a força e a energia do sofrimento pode ser transformada e usada para criar e para mudar. Se há traumas que conseguimos vencer e acabar por ultrapassar, há outras infelicidades com as quais temos de aprender a viver.

Comments

  1. nightwishpt says:

    Ou isso ou os comprimidos ainda têm participação do estado e não precisam do tempo que o emprego à muito roubou.

  2. maria celeste ramos says:

    O ermprego que há muito foi riubado – há muito tempo que não ter 2 subsídios nem emprego nem como pagar a prestação da casa, nem $$ para comprar os livros escolares (anormalidade que obriga todos os anos a alimentar livreiros e nem são nada de especial para quem os quizer ler e tentar perceber) que dá muita dor e infelicidade – como é natural – mas há governos anti-natura – ignorantes e ladrões e mentirosos e malvados – não governam – governam-se e bem – eu estudei do 3º ao 5º anos com os mesmos manuais e aprendi – hoje quem sabe o quê ?? e em que espécie de livros aprende, e o quê ?? só vendo e comparando e não quero dizer que “antes é que era bom” . e era em muitas situações mas deitaram tudo abaixo – terra queimada – se tivessem estudado pelos meus livros os actuais governantes não diriam hadem e saberiam a diferença entre “à e há” mas nem isso sabem nem percebem – e agora escrevem brasilês e continuam a escrever mal, ou pior – a degradação cultural invadiu todos os territórios da existência – mais um americano atirou sobre várias pessoas – universitário claro – japão chuvas torrenciais onde há 40 anos não chovia tanto e há 11 mil casas a evacuar – Pussy Riot são 7 meninas presas – mas acho que ultrapassaram limites e acho que há limites para tudo – para cantaar e para governar e para falar sem dizer nada ou fazer o oposto – Madona apoia as Riot – mas cantar na Igreja não dá para ser assim – como não dá para desprezar as caricaturas de Maomé – 190 milhões de euros para casal britânico – 190 milhões de euros – Adrian Bayford e mulher – boanoite-voltaremos a ver-nos amanhã-3ª 14 agosto 2012-lá vem a idiota da telenovela – é mesmo importante- pois Cuelho faz a festa no Pontal mas em recinto fechado – calçadão da Quarteira – filho da mãe enxertado em corno de cabra – já pintou o cabelo outra vez – é a única mudança que vejo nele – agora fala mais devagar estilo “Portas” para o percebermos melhor – mais um que engordou – ser governante dá para comer melhor – se calhar passave fome no temto do jpsd – agonia-me este senhor – faz-me vomitar – temos de ir todos a Fátima e não apenas o senhor que há dois dias chorou deate do écram com saudades do seu país depois de 40 anos em França, coitadinhos dos portugueses que sofrem tanto – quantas DORES terão desde que saem deste país onde há miseráveis desde 1986 – calem este senhor – FP


  3. Cara Céu, excelente texto!

    Foca um aspecto que, a meu ver, é chave de todos os problemas: pensar! E cada vez menos se sabe pensar.Não se aprende sequer a pensar. Em vez disso copia-se, imita-se, confia-se cegamente nas convicções dos outros, tomam-se como leis opiniões e teorias alheias. Prefere-se ser produto de matriz, ovelha de rebanho, peça moldada de uma só engrenagem, a pensar. Por isso cresce a estupidez, cresce a ignorância, cresce o embotamento… enfim, doençazinhas do foro psicológico…

  4. Maria do Céu Mota says:

    Obrigada, Isabel.Tomara ser eu a autora do texto!

  5. Lagartices says:

    Completamente de acordo mas sabem quanto custa fazer psicoterapia? Entre 60€ a 80€ por sessão (às vezes mais). Multiplique-se por quatro (1 vez por semana) e entenda-se de uma vez por todas que, infelizmente, algo tão importante como a saúde emocional, é um verdadeiro luxo.
    Claro que é possível fazê-la através do Centro de Saúde ou através das novas Oficinas de Psicologia com preços mais baratos mas aí existe um grande problema. Não se pode escolher o psicólogo.
    Uma depressão não é igual a uma dor de garganta. Para a psicoterapia funcionar tem de existir empatia entre paciente e psicólogo. Além disso existem várias correntes dentro da psicoterapia (cognitiva, humanista, psicodrama, etc) e uma que pode funcionar para um, não funciona para outro. E cada psicólogo escolhe a sua.

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