A grave doença de estar sempre a pensar

Este é o nome de um dos capítulos de O Papalagui (1920), um livro que resume os discursos de um chefe de tribo numa ilha nos mares do Sul (Samoa).

Tenho esta «jóia» há 21 anos e «achei-a» na Rua de Cedofeita, 355, Porto (livraria S. Paulo) por mil e duzentos escudos! Hoje é muito fácil encontrá-lo. Penso que não há ano nenhum em que não abra este «documento». O Papalagui é o Branco, o Senhor, o homem europeu. Tuiavii faz-nos duras críticas depois do que viu numa viagem pela Europa. Vira-nos um «espelho» onde vemos reflectidos vícios e hábitos difíceis de largar, onde nos vemos como gente que desfruta pouco a vida. Para pensar, embora ele diga que seja uma doença grave!!

Transcrevo algumas passagens curiosas:

(…) O Papalagui não pára de pensar: «A minha cabana é mais pequena do que a palmeira; a palmeira verga-se por causa da tempestade; (…) Mas também ele próprio é objecto dos seus pensamentos: «Eu sou pequeno; o meu coração alegra-se sempre à vista de uma rapariga (…)». Mas o Papalagui pensa tanto, que o acto de pensar se tornou um hábito, uma necessidade, e até mesmo uma coacção. Vê-se obrigado a pensar continuamente. (…) Na maior parte do tempo vive apenas com a cabeça, enquanto os sentidos dormem um profundo sono. Muito embora isso não o impeça de andar normalmente, de falar e de rir (…).

Quando brilha um belo sol, logo ele pensa: «Que belo sol que está agora!» (…) é uma aberração. Qualquer Samoano sensato irá estender e aquecer o seu corpo ao sol, sem mais reflexões. E goza do sol não só com a cabeça, mas também com as mãos, com os pés, com as coxas, com o ventre, em resumo, com o corpo todo. Deixa a sua pele e os seus membros pensarem por si próprios (…).

Quando se pergunta a um Papalagui porque é que pensas assim tanto, ele responde: «Para não ficar estúpido!» (…) na verdade, se devia ter como sinal de inteligência encontrar alguém o seu caminho sem ter necessidade de pensar.

Enfio a carapuça…o que é que eu hei-de fazer??

Depois de terminar esta cópia, talvez vá aproveitar «este belo sol» com o corpo todo e imaginar aquela praia paradisíaca. Ups, lá estou eu a pensar outra vez…

Comments

  1. Budinha says:

    Gostei. Muito Zen.

  2. maria celeste ramos says:

    Pois é – nos anos 70 uma amiga que por acaso na altura era presidente da Associação de Filosofia, ofereceu-me o livrinho Papalagui – ai como eu há havia esquecido mas agora ma fazem recordar – creio que depois de comer livros pois que durante anos devorava-os, até em férias, há 3 livros que são sementes de pensamento – Papalagui + O que faz correr Molero (oferecido por alguém que mais tarde foi director em escola onde ensinei) + Sidharta (que me ofereceu meu irmão) – obrigada – afinal eu que me queixo tanto de minha memória que anda maluca, se me “ajudarem” lá está ela viva – a memória – claro que tenho outras “bíblias” e de repente convido quem lê o aventar, a procurar uma poesia de Frost (treasures of english poetry) THE ROAD NOT TAKEN – que fazia ler aos meus alunos na aula e os punha a “pensar” completamente fora das matérias mas que adoravam já que “poesia” não era o que eu devia, mas um doa até puz um aluno a chorar, em silêncio, de comoção e a turma inteira em silêncio de igreja e foi belo belo belo – até aqui nunca tinham lido poesia mas acabaram por ler e até fazer trabalhos práticos colectivos, só com poemas como uma guide line – que beleza eram as minhas alunas – que saudades tenho das escolas e dos meus alunos que, malandros, até me convidavam para sair com eles a locais onde íam e eu já não ía, que lindos os meus alunos – que saudades desta relação que se estabelecia só porque cumpria o que o meu coração me ditava e não os “programas” que, aliás, cumpria para não me xatiarem, mas metia pelo meio, esta minha paixão pela poesia desde o 1º ano da universidade pois só nessa altura a comecei a ler, e não parei mais – Pois – The Road not Taken

  3. maria celeste ramos says:

    Perdão pelos erros de ortografia e sintaxe mas escrevo sem olhar e chego ao fim e envio sem rever – o costume – distracção que me distrai – Hoje Campo Maior com Flores de Papel para cumprir a Tradição do Jardim de Papel (que só os portugueses guardam) e que haja o que houver não abandonam – abençoados – festas de 4 em 4 anos – que linda a gente do meu país – cheios de beleza e simplicidade – os que aguentam a vida e tradição e a essência do que somos – Um avião que atinge 6 vezes a velocidade do som – para quê ?? o “pensamento” do homem não pára, de facto, nem de inventar e criar (RTP1-20:25H de 15 de agosto, dia Santo de NªSrª da Assunção) – Não me tirem os feriados que são ritmos anuais essenciais como o ritmo do sol e da lua, da luz e da escuridão são de cada dia – e do meu corpo e do meu saber onde e como estou e sou – ritmos cósmicos e humanos que ao cosmos devemos

  4. Maria do Céu Mota says:

    Adorei Sidharta, de Hermann Hesse.

  5. Armindo de Vasconcelos says:

    O “meu” deve ter e mesma idade… também comprado em Cedofeita, só que na Livroluz!
    E que ensinamentos!

    • Maria do Céu Mota says:

      Obrigada pela partilha! Eu tinha 19 anos e comprei-o com o dinheiro das aulas de Piano que já dava, antes de entrar para a Universidade, foi muito saboroso!

  6. Armindo de Vasconcelos says:

    Cedofeita fez parte, durante mais de 30 anos, do meu itinerário diário. Primeiro, como trabalhador estudante (quartos na Rua dos Bragas, da Torrinha, etc., etc..), faculdade de Letras quando sediada no, hoje, ICBAS, as tasquinhas da Cordoaria, o Piolho… e a trabalhar num dos locais mais belos da Cidade do Porto, o Palácio de Carlos Alberto, com o “Soldado” a meio e os “Leões” ao fundo. E os Cafés Bissau e Latino, e… e…
    A vida é feita destes lufares comuns, transversais a idades e ideias.

  7. Maria do Céu Mota says:

    “A vida é feita destes lugares comuns, transversais a idades e ideias”. Sim, e tornam-se mais bonitos vistos à distância do tempo!! Gosto de anotar na 1ª página dos livros acabadinhos de comprar pormenores como a data e o meu nome. É engraçado abrir livros com dezenas de anos e encontrarmo-nos lá!

  8. Armindo de Vasconcelos says:

    O meu nome, sempre. A data da compra, por vezes, esqueço-a.
    Mas há uma coisa que gosto de fazer: quando requisito um livro na Biblioteca, peço a todos os deuses que o anterior leitor tenha deixado lá o talão de requisição. Adoro saber quanto tempo o livro deixou de ser usado, lido, aprendido.
    Há uns tempos, aconteceu que requisitei um livro três anos exactos depois de alguém ter tido a mesma tentação que eu.
    “É engraçado abrir livros com dezenas de anos e encontrarmo-nos lá”… Como eu entendo esta frase!

    • Maria do Céu Mota says:

      E emprestar os meus livros? É complicado, porque escrevo, sublinho, e tenho vergonha de emprestar. É muito pessoal… sem dúvida.
      A propósito das marcas deixadas pelos leitores nos livros, há um livro bestial que sugiro: As Memórias do Livro de Geraldine Brooks.

      • Armindo de Vasconcelos says:

        Muito obrigado pela dica. Vou procurar.

        Quanto às marcas nos livros, os sublinhados, os comentários… temos dito! Eu faço tudo isso e mais: escrevo as melhores frases no meu caderninho. É uma forma de reler e reler, e reler…

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