O desemprego dos professores é uma opção*

O debate em torno do emprego, ou da sua ausência deverá estar no centro das preocupações do nosso país, até porque o trabalho é um elemento estruturante da condição humana. Não surpreende, por isso o debate nas páginas do PÚBLICO sobre o emprego docente e dos milhares de professores que poderão ficar sem colocação no início de Setembro.

José Carvalho (Professor e Investigador de História), na linha de argumentação de José Manuel Fernandes refere que há um elemento essencial esquecido por quase todos: “há menos alunos nas nossas escolas.” Aliás, linha de argumentação é um eufemismo tal a coincidência das palavras escolhidas por Carvalho, depois do texto original de Manuel Fernandes.
Sobre o ponto apontado como fundamental – escassez de alunos, tal referência deveria ser mais verdadeira, mas os números são isso mesmo, números. Poderiamos por exemplo escrever, citando dados do MEC, que em 2005/2006 estavam no sistema educativo 1 347 456 alunos e em 2008/2009 esse número tinha crescido para 1 525 420. E no que ao pessoal docente diz respeito, os dados igualmente disponíveis no site do Gabinete de Estatística e Planeamento da Educação, mostram números diferentes dos referidos por José Carvalho.
Mas vamos assumir que o Investigador José Carvalho tem razão até porque a taxa de natalidade é o que é, ainda que o Público tenha noticiado (26-12-2011) que nem sempre o que parece é.
E ter ou não ter filhos é uma opção das pessoas – felizmente ainda não é o governo que se ocupa dessa parte, mas as políticas, nomeadamente sociais, têm um peso decisivo nessa opção. E sendo a classe docente numerosa, não me parece que seja argumento para um investigador sugerir que as professoras e os professores desatem a fazer filhos para resolver o problema. É um argumento, no mínimo, pouco sensato.
E os argumentos de José Carvalho terminam com uma marca ideológica que não deixa dúvidas:
“Os “camaradas” e os grupos defensores-dos-pendurados-no-Estado acham que o Estado devia criar empregos para absorver os professores desempregados. Mas será que ainda se pode levar esta malta a sério?!”
A natureza da argumentação não nos mostra uma reflexão sobre a dimensão política das medidas do Ministério de Nuno Crato que vão muito para além da mera gestão da escassez de alunos. Todos os leitores entenderão que mesmo vendo a realidade sob o prisma da diminuição de alunos, não é possível justificar mais de vinte mil professores sem colocação, algo que poderá corresponder em traços gerais, a um quinto da classe docente. Há muito mais e não é só o rabo do gato que está à mostra.
Trata-se de uma política que visa reduzir custos despedindo professores ou, se preferirem usar a linguagem oficial, não os contratando para leccionar. E se assim não fosse, então como se justificam algumas destas iniciativas do MEC:
– se há menos alunos, porque é que o Ministério da Educação aumentou o número de alunos em cada turma? Não seria mais adequado, no mínimo, manter o que estava?
– se há menos alunos, porque é que o Ministério da Educação está a criar Mega-Agrupamentos, criando escolas com milhares de alunos, quando existem espaços e pessoal qualificado para trabalhar em condições mais adequadas, nomeadamente nos anos de escolaridade mais baixa?
– se temos professores a mais, como diz, porque é que o governo acabou com a formação cívica e com o estudo acompanhado?
– se há alunos a menos e professores a mais porque é que o trabalho do director de turma passou a ser valorizado pela metade, em termos de crédito horário?
Não subscrevo a tese de que todos os licenciados em ensino poderão ter lugar nas escolas públicas, mas o que está a acontecer é mais do que uma consequência da demografia – é uma opção política deste governo.
O que está em curso é uma mudança de paradigma na Escola Pública que vai colocar em causa, como referiu recentemente Manuel Carvalho da Silva, o futuro do país que ficará, certamente mais pobre com a sua escola a ir em marcha-atrás.”

*Artigo que escrevi e saiu no jornal PÚBLICO, dia 20 de agosto de 2012, p. 47

Comments

  1. maria celeste ramos says:

    Pois claro que é opção política pois os professores “sobrantes” com os sem alunos e turmas parvamente maiores podem inventar outras tarefas não apenas para si mas sobretudo para as crianças que farão tudo o que os professores propuzerem se ficarem felizes – também fui aluna (e profª) e o prof “marcava” a qualidade da aula (e curricula) e mesmo do saber, e não o ministério – Por mais diferente que algo esteja – mas ensinar é ensinar e formar é formar e entusiasmar alunos depende mais do prof que dos pais em geral – E até acho que não se deve pedir a pai o que a profs compete (e vice-versa e pelo contrário talvez o prof possa ajudar o pai a que o aluno não fal«ça não sei qu~e – não sei mas não fazendo lei disso) – que confusão – até acho que há promiscuidade amais pais e escola, e dá porrada até – cada macaco no seu galho – aprender para mim era um fício e ensinar foi´da maior alegria – o sr Crato disse (está também muito mais gordo hoje que o vi) que o dinheiro não sei donde do QREN ía para o ensino – não ouvi tudo – o que acho é que devia ser reimplantado o ensino profissional – eu co.criei a 1ª escola profissional do país (Monte de Caparica) e adorei o que fiz e não tive um só problema com as discussões com o ministério (avª 24 julho-lisboa) – começou 01:02H programa sic com interrogatórios aos alunos para saber o que esperam da escola + etc – bonito – alguns eis drogados)

  2. José Alves says:

    Sinceramente acho que está tudo muito bem! Alias, acho que se deviam despedir todos os professores, todos os médicos, os polícias, os juízes, os enfermeiros… Enfim, todos os funcionários públicos. Quem sabe, talvez dessa forma se consiga “alimentar” esta corja de bandidos que nas últimas décadas tem arruinado o nosso país. Em suma, ou o povo saí à rua ou não existe futuro para Portugal.

  3. Alexandre says:

    Não existem outras opções para além de lutar, lutar, lutar???
    Eu sou professor e serei afetado como muitos outros colegas mas não acredito que sejam manifestações/greves que resolvam o nosso problema. Não acredito, sinceramente que seja dessa forma que a população possa entender o que vai de errado no ensino público Português. Falta-nos aquilo que a escola reprime nos alunos,…Criatividade!

  4. João Paulo says:

    Alexandre, obrigado por ter comentado. Eu acho que tem toda a razão. Há uma alternativa a lutar. Lutar com criatividade. Em momento algum se sugere que seja do modo A, B ou C… Agora, só não podemos não fazer nada…

  5. Alexandre says:

    João Paulo, lutar para mim significa mostrar uma outra forma completamente diferente de ver o ensino. Já alguma vez se questionou porque o ensino continua a manter as características de uma sociedade industrializada quando isso já faz parte do passado? Porque continuamos com um ensino completamente esgotado na sua essência? Porque continuamos a exigir de volta aquilo que tem sido retirado à escola, quando no essencial é o próprio paradigma que está ultrapassado e é aí, que para mim faz mais sentido trabalhar. Porque tem Portugal a mania de importar modelos de fora e não somos nós a criar, de acordo com as nossas necessidades, tendo em conta o próprio contexto e condições? Porque têm de ser meia dúzia de iluminados a impor algo quando nem sequer conhecem as realidades? Porque nos tornamos tão submissos a modelos que não funcionam? Eu sou sindicalizado mas quanto ao futuro da escola, ele pertence aos elementos que aí trabalham e os professores como profissionais que lidam com o conhecimento têm que ter uma forte presença e decisão nas políticas educativas do país. Quando quiserem discutir o futuro da escola cá estarei para contribuir, com ideias e caminhos a percorrer, e tenho a certeza que se mostrarmos um país diferente, sob um sistema de ensino mais adequado ao contexto social não presente mas futuro (aquele que ainda não existe), tenho a certeza que teremos uma população mais interessada e activa.

  6. Minerva says:

    Gostei muito do texto. Só se esqueceu de referir que a E. Tecnológica no 3º ciclo foi eliminada do curriculo dos alunos como disciplina obrigatória. Porquê? Que vai fazer o ministro a esses professores com 30 e mais anos?


  7. Para o Alexandre… e não só:

    Talvez aqui, com o contributo de todos, esteja uma alternativa às greves e às manifs.

    http://www.facebook.com/ESCOLAPUBLICAPPE#!/ESCOLAPUBLICAPPE

    http://plataformadeeducacao.wordpress.com/

    Um espaço onde todas as sugestões, de todos os interessados na Educação, serão ouvidas e debatidas. Um espaço onde quem decide o rumo a seguir somos nós: eu, tu, ele, nós, vós, eles, independentemente da cor política, do credo ou do que quer que seja.

    Sejam benvindos!
    Mª João Serpa

    • Alexandre says:

      Mª João, aplaudo o vosso esforço e vontades em mudar o rumo da nossa história educativa, no entanto, pelo que pude observar, vocês não têm uma visão do que querem do ensino, o que querem da escola do futuro? Será reaver tudo ou quase tudo do que tem sido retirado? Parece-me muito pouco. Fica apenas a minha opinião!

      • Maria Novais says:

        Colega, demagogia e verborreia não mudam nada. É preciso ideias concretas e exequíveis.

        • Alexandre says:

          Exatamente, ideias é o que eu não vejo. Vai-me desculpar mas não vi nada que vá no sentido de mudar o ensino, querem mais do que existia, quando o que existia já era um remendo! E mais uma vez vai-me desculpar mas demagogia e verborreia é o que está a transparecer neste (mais um) movimento. É a minha visão do movimento e, daqui a um ano voltemos a conversar!

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