O Caso Vera Pereira, o IEFP e a ignorância em forma de blogue

Tudo começou com a publicação pelo Arlindo do que parecia ser uma oferta de emprego com destinatário reservado (o “Tugaleaks” diz que chegou primeiro, mas o analfabetismo que por ali infelizmente grassa pelos vistos também inclui a simples contagem de tempo). A coisa espalhou-se pelas redes, e como estamos em Agosto no dia seguinte chegou à comunicação social.

Ora nem tudo o que parece é. Compreendo que o Arlindo com o saco cheio dos concursos de professores feitos à medida de fulana & sicrano tenha visto “educadora de infância” e automaticamente disparado. Não fiz o mesmo apenas porque em tempos lidei com o IEFP por via de uma associação sem fins lucrativos com estatuto de Empresa de Inserção. E sei que estas coisas funcionam assim: para obter os benefícios do IEFP (neste caso num programa de apoio à formação), mesmo que a lei não imponha que uma empresa funcione como o estado na selecção de quem ali vai trabalhar é obrigatório o formalismo de fingir que sim.

É uma tolice? claro que é, acho muito bem que estas coisas sejam transparentes, mas fingir que se trata de uma oferta de emprego em aberto apenas serve para dar que fazer aos desempregados que vão concorrer, digamos que como não lhes arranja emprego o IEFP acha que os deve manter ocupados. Desconfio que com isso aldrabam as estatísticas, estamos habituados.

Mas não é nada de ilegal. Absurdo seria uma empresa privada ter de seguir os procedimentos de um concurso público na sua selecção de pessoal. A diferença entre o Estado empregador e o  empregador privado é precisamente essa. Nem o mais rematado esquerdista diria o contrário (embora possa dizer que o privado não deve existir, mas isso é outra guerra).

Não liguei muito ao assunto, embora tenha achado que da parte da comunicação social desta vez tão apressada em vir aos blogues (coisas bem mais sérias demoram um mês ou a eternidade) tenha havido abuso, não se faz uma denúncia sem ouvir primeiro o denunciado (coisa a que, como é evidente, os blogues não estão obrigados).

Depois de o IEFP ter esclarecido tudo muito bem esclarecido, agora volta o “Tugaleaks” ao ataque. Numa casa onde a língua portuguesa é selvaticamente torturada, onde o racismo se difunde porque apenas

 é uma opinião como todas as outras, talvez um pouco forte até.

e ainda fingem nem perceber, é natural. Para ler o comunicado do IEFP é preciso saber ler, e há quem carregue às costas a cruz de não ter adquirido tal competência. Convém é evitar que a tolice se espalhe. Falsas denúncias só favorecem o denunciado.

Comments

  1. Maquiavel says:

    Entäo se é para fingir, ao menos que finjam bem!
    Se é tudo “täo” normal como diz o IEFP, entäo porque retiraram o nome do “anúncio” de emprego? E porque é que ele continua “aberto” até 30/10/12 no site europeu de mobilidade?
    http://ec.europa.eu/eures/eures-searchengine/servlet/ShowJvServlet?lg=PT&pesId=46&uniqueJvId=587847025&nnImport=false
    É no caso da Vera Pereira se distrair e näo mandar a “candidatura”?
    Ou é para gozar com o pessoal?


    • Ah, o site europeu da mobilidade, explica muito coisa (o procedimento diz respeito a um programa europeu).
      É também para gozar com o pessoal. Pela simples razão de que o contrato se destina a um Centro Paroquial. Ora, os centros paroquiais contratam quem querem, acho eu.
      Não podemos confundir empregos no estado com empregos no privado. O facto de ter um apoio não dá ao estado o direito a fazer selecção de pessoal, pelo menos de acordo com a lei em vigor.

      • Maquiavel says:

        Alguém diz que o Estado é que deve seleccionar a candidata?
        Tens competência suficiente para saber ler o que escrevi.


        • O que está errado é o anúncio não aparecer sempre com o nome de quem já foi escolhido. Assim engana potenciais candidatos.
          Pelo que contas parece-me o procedimento deve servir para ir enganar outros, no site europeu de mobilidade, ou seja, é obrigatório por imposição comunitária.


  2. No mínimo é “Simplex” mal feito. Ou seja, “workflow” estúpido…

  3. edgar says:

    Legal ou ilegal?
    Neste país é um pormenor facilmente ultrapassável. Quando as leis feitas por eles, pelo bloco central de interesses, apesar de todas as escapatórias, ainda obrigam a acondená-los, há sempre o recurso à prescrição.


    • Vamos lá se sérios: acha que uma empresa para beneficiar de um apoio à criação de um emprego, tem de abrir um concurso público, ou escolhe o empregado que muito bem entende?

      • Varela says:

        Parece que o João José Cardoso é incapaz de compreender coisas simples, como o facto de o problema não residir no benefício de apoios mas sim o de se andar a enganar todo o mundo com a publicação e divulgação de ofertas de emprego para as quais já foram escolhidas a priori as pessoas a contratar.

  4. Amadeu says:

    Se achas que é só tolice “fingir que se trata de uma oferta de emprego em aberto apenas serve para dar que fazer aos desempregados que vão concorrer” então és um grandíssimo tolo, legalmente falando.
    Cá pra mim estás a turvar-te com o começo da notícia.


    • Então é o quê?

      • Amadeu says:

        Uma grandessíssima aldrabice ? E se fosses tu a concorrer ao anúncio e a perder uma manhã para nada ? E se depois soubesses que desde o princípio já havia um “candidato” aprovado, achavas que tinha sido só tolice ?


        • Lá está: razão porque o que aconteceu com a Vera Pereira deveria ser a regra e não a excepção… foi exactamente o que escrevi em cima.
          Agora não me venham é com estórias de cunhas, o que neste caso não faz nenhum sentido.

          • Varela says:

            Cunhas não há dúvida que há, senão não tinhamos associações a abrir concursos “pro forma” para mamar apoios públicos e meter o cunhado pré-escolhido. A questão é apenas se a cunha é legítima ou não, e aí pode muito bem ser perfeitamente e exemplarmente legal.

  5. Amadeu says:

    Não é bem uma Cunha, é uma prima da Cunha.
    Lixada, para quem não é a prima.

  6. omaudafita says:

    Desculpem a repetição, mas esta é a minha opinião: O grande problema é o tipo de oferta. Na área da educação não devia ser permitido este tipo de contratatos porque quando concorrem para ofertas do estado a graduação profissional conta para o número de ordem. Estas pessoas acabam por furar a fila. O patrão contrata quem quer e o estado contrata supostamente os mais capazes. Por uma questão de justiça a experiência e tempo de serviço no privado não deviam contar para a 1ª prioridade nem para a graduação nas listas dos concursos de professores.
    Vou dar um exemplo: dois colegas recentemente licenciados com um curso via ensino tentam entrar para o mercado de trabalho. Um deles, com média de 11 valores tem um «conhecido» que lhe arranja um contrato de seis meses numa escola privada (em que o patrão é que manda). O outro, com média de 16, mas sem amigos, não arranja. No concurso nacional do ano seguinte o melhor aluno concorre em 2ª prioridade enquanto o seu amigo, com uma média de relva, tem acesso à 1ª prioridade, e acredite, muitos mil os separam… Não tenho nada contra as contratações dos privados, concordo com a máxima “naquilo que é meu mando eu”, só acho que tem que haver uma separação de águas entre o privado e o público.


    • Teria toda a razão do mundo, se isto fosse na área da educação. Farto de me queixar de situações desse género com o ensino privado ando eu, e já o escrevi muitas vezes.
      Só que há um detalhe: o emprego guardado para a Vera é num Centro Paroquial, num lar da 3ª idade, Centro de Dia ou coisa que o valha. Pediram como habilitações educadora de infância porque já tinham uma candidata seleccionada com esse perfil.


      • JJC, nos centros paroquiais também há creches, jardins de infância e ATL. Se for um destes dois últimos, conta tempo de serviço às educadoras (as creches não, vá-se lá perceber porquê).

        Não estou a discordar da questão central, apenas a clarificar. Os privados contratam quem quiserem – e ninguém perde uma manhã, porque não demora uma manhã a concorrer pelo portal, e, obviamente, o empregador não vai chamar os concorrentes que não interessam.

        Já basear os concursos públicos pela média final de curso, é coisa que me faz confusão. Não faço ideia como é na área da educação, mas na minha área, a nota final não é indicativo duma pevide. Mas, pronto, na falta de melhor método, é o que se arranja.


        • Essa coisa da média dos cursos… ena. Se um dia destes apanho (recupero) uns dados, dos idos de 80…
          Quem leva hoje com os piágetes, até se ia sentir aliviado.


          • Acredito que os concursos fiquem cada vez mais enviesados se o ensino superior não é normalizado. Mas há três questões:

            1. Se não é normalizado, não devia ser?
            2. Se já toda a gente viu que os concursos são enviesados por isto, já não era tempo de mudar a forma de cálculo?
            3. Talvez mais importante: existe alguma maneira – justa – de seriar os concorrentes sem se usar a nota de final de curso?

            Eu não sei. Nunca concorri a concursos públicos, para nada. Não percebo, sequer, a forma de seriação, com anos de serviço ao barulho, e depois tem que ver com as áreas e mais não sei o quê…

  7. António Duarte says:

    A mim o que me parece é que há demasiados empresários a encostar-se ao Estado. Se uma empresa faz questão de contratar determinada pessoa, estará, como afirma o João José, no seu pleno direito e não se justifica a abertura de um concurso. Mas então também não tem cabimento a atribuição de subsídios estatais. Se é aquela pessoa que querem, e só aquela, até a deveriam passar ao quadro de pessoal em vez de pedincharem a ajuda do Estado para a contratar.

    Estes “incentivos” do IEFP deveriam destinar-se a apoiar a contratação de pessoas que querem trabalhar mas não têm “padrinhos” nas empresas dispostos a contratá-las. Ou seja, a atribuição do incentivo deveria obrigar à realização efectiva de concurso a que todos os interessados tivessem acesso em igualdade de circunstâncias.

    A intervenção do Estado nesta área poderia funcionar como um incentivo, não só à contratação, mas à adopção de boas práticas de selecção e recrutamento de pessoal por parte das empresas, combatendo a cunha e o compadrio infelizmente tão habituais.

  8. Fernando says:

    Meus caros o anuncio publicado ( seja ele para preencher uma vaga num centro de idosos ou num jardim de infancia, com ou sem apoio logistico ou financeiro do Estado, merece – na minha opiniao- toda a critica. Se a candidata estava previamente escolhida pelo empregador (os porques nao interessam), a oferta devia ser de imediato retirada da Lista de empregos ou la como lhe chamam afim de nao criar esperancas e tempo a outros candidatos.
    Contudo, se o Estado fosse a entidade empregadora, entao as coisas teriam de ser vistas ou analizadas de acordo com a Lei ou Acordo laboral vigente.
    Conto um caso que bem conheco:
    Ha uns 3/4 anos um Departamento de Educacao abriu um concurso “interno” para o preenchimento de uma vaga. Esse concurso por forca da Lei em vigor, teve de ser publicado internamente para conhecimento dos 200 e tal funcionarios. O trabalho (vaga ou lugar) estava a ser desempenhado por uma funcionaria (a titulo casual) ha mais de 2 anos.
    A candidata teria na entrevista obter a concordancia de 3 pessoas a saber: chefe directo do Servico, Director da Area e um terceiro elemento chamado de independente, porque vem dos Servicos Centrais.
    Neste tipo de concurso, partindo do principio que o/a funcionario/a desempenha o cargo ha algum tempo, e cujo trabalho e’ sobejamente conhecido e apreciado pela hierarquia, e’ mais do que obvio que leva uma vantagem de 99,9% sobre todos os outros concorrentes.
    Quem e’ que vai concorrer a uma vaga sabendo a priori que essa vaga esta “preenchida”?
    Supomos que o juri independente recusa. Que importa ? se ele esta em minoria perante os outros dois “juris” que sao as pessoas que vao trabalhar directamente com o/a candidato/a?
    O caso da senhora Vera e’ muito diferente. E’ um recrutamento privado razao pelo qual uma vez o candidato escolhido, o processo devia ser encerrado publicamente.
    Mas em Portugal complica-se muito o que devia ser simples. E’ pena!
    PS: o caso que acabei de narrar passou-se num Pais muuuito longe de Portugal.


    • Exactamente! “em Portugal complica-se muito o que devia ser simples”. O nosso famoso e muitas vezes louvado “desenrascanço” afinal tem pouco de sentido prático e bom senso…
      E se fizéssemos o “upgrade” do desenrasca para algo assim como análise, planeamento, controlo, etc.?? — Esses “pequenos” atributos que muitas vezes são criticados por serem uma “perda de tempo”…

      • Maquiavel says:

        Bem verdade. Nos países civilizados näo é necessário saber-se desenrascar, porque… as coisas funcionam como devem. O “desenrascanço” näo é mais que um sintoma de que as coisas näo funcionam como deveriam.

  9. Fernando says:

    Meu caro LuisF: as mentalidades nao se modificam ou alteram a’ velocidade de fumar um cigarro (…)
    Sou portugues dos quatro costados embora ausente do Pais.
    O “upgrade” a que o Luis se refere ha-de – direi antes TEM de – acontecer porque a evolucao dos tempos assim vai obrigar. Vai levar e’ tempo porque Portugal e’ composto por muitos primos e primas, compadres e comadres.
    Cumpt.

  10. Tiago de Lemos Peixoto says:

    Digo aqui o que disse no 5dias ao Tiago Mota Saraiva, e digo-o porque me inspirei em parte nesta tua posta. É que no meio disto tudo, tocas naquilo que é o ponto que de facto fica esquecido, tal a ânsia de fazer memes: ” Desconfio que com isso aldrabam as estatísticas, estamos habituados. ”

    Talvez por isso isto deva ser um caso. Não no formato tugaleakesco, que se mantém igual a si mesmo, mas pela possibilidade destes pseudo formalismos serem usados para inchar estatísticas, já será outra coisa. Prática que, aliás, tendo eu recebido a minha carta convocatória (e não foi caso único) para confirmar ao IEFP que estou inscrito ( com prazo de 10 dias para resposta) durante o mês de Agosto, soa pelo menos a (mais uma) ratice.

    Se merecia ou não o empolamento, será já discutível. Se para mim é a modos que absurdo também que se “crucifique” a tal Vera Pereira, e nisso concordo inteiramente, não deixo de pensar que tanto a imprensa como a “imprensa” ignoraram por completo a possibilidade de quem beneficiar de facto com isto ser o IEFP, que pode usar este número para engrossar as estatísticas dos seus tristes programas de apoio… mesmo em casos que, como tudo parece indicar, o seu envolvimento tenha sido nulo. De resto, tenho algumas dúvidas sobre se candidatar-se a um apoio público, pago por dinheiros públicos como são estes “programas de apoio ao emprego” ( com toda a intencionalidade nas aspas) com a candidata já pré escolhida será ou não o mais ético, mas desconheço as minúcias destes programas para formular uma opinião nesse particular. Ilegal, porém, e como tu o dizes, não é, de facto.

  11. Tiago de Lemos Peixoto says:

    Num aparte… o Tugaleaks indignadamente afirmar que o procedimento no caso da Ana Baptista viola regras de privacidade da mesma, para em seguida publicar, sem encobrir, os dados pessoais da mesma ( nomeadamente o cartão do cidadão) é, confesso, de uma ironia demasiado deliciosa até para os meus talentos verborreicos.

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