É só uma questão de ética

Pedro Correia relata uma certa versão de um caso jornalístico  que passo a citar:

 E nada ilustra tão bem isto como um episódio há pouco recordado no Jornal da Noite especial evocativo deste 20º aniversário: a atrapalhação do candidato socialista António Guterres ao fazer uma promessa eleitoral nas legislativas de 1995.

Dizia Guterres: “Desejavelmente, nós deveríamos poder atingir, num prazo tão curto quanto possível, um nível da ordem dos 6% do Produto Interno Bruto em despesa de saúde.”

Perguntou-lhe Ricardo Costa, repórter da SIC: “Isso é quanto, em dinheiro?”

De novo Guterres: “Eh… são… o Produto Interno Bruto são cerca de três mil milhões de contos… portanto, seis por cento… seis por cento de três mil milhões… eh… seis vezes três dezoito… eh… um milhão e… um milhão e… ou melhor… enfim, é fazer a conta.”

Os tempos eram muito diferentes. Vários outros jornalistas registaram isto mas fizeram de conta que não tinham ouvido nada. “Acabámos por ter um exclusivo estranho, o exclusivo mais estranho da minha vida. Às oito da noite pusemos estas declarações no ar e mais ninguém pôs. Nenhuma televisão, nenhuma rádio. Acabámos por ter o exclusivo de uma coisa que toda a gente tinha gravado. Isto mudou de vez a relação entre os políticos e os jornalistas”, recordou Ricardo Costa esta noite.

Muito mais revelador do que uma forma de fazer campanha política, com promessas que ficam por quantificar, este episódio é revelador da forma dominante de fazer jornalismo naquela época: por vezes, devido a um pacto de silêncio entre jornalistas, algumas das melhores histórias ficavam por contar.

A SIC acabou com isso.

Isto sucedeu nos Hospitais da Universidade de Coimbra. Embora em campanha eleitoral, António Guterres acabara de receber a confirmação, da parte de especialistas dos HUC, da irreversibilidade da doença de que sofria Luísa Melo, sua esposa.  O episódio tal como sucedeu, um homem que acaba de confirmar que será em breve viúvo é interrogado por jornalistas e gagueja uns números, é hoje conhecido e ficou dramaticamente para o anedotário, repetindo que António Guterres, engenheiro de formação, não sabia fazer um cálculo mental simples.

Foi um pacto de silêncio, ou uma coisa sem qualquer importância chamada ética? A SIC (pese o muito de bom que trouxe ao jornalismo televisivo) acabou com isso. Ricardo Costa, que nesse dia até podia desconhecer o que se passava mas hoje sabe, devia ter vergonha em relembrar o sucedido, mas realmente os tempos do jornalismo são outros. Vale tudo, incluindo tirar olhos.

Comments


  1. A SIC? Jornalismo? Só se for piada.
    Basta pegar na cobertura futebolística que sempre foi tão idónea…

  2. simon says:

    e foi o ricardo costa, o vaidoso de m…?, foi?, e então rais o parta, que nunca mais foi gente de se ver ao espelho, mais feio e mais traste, triste, bem o parvalhão !

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