Quanto vale um professor?

No dia em que será apresentado o orçamento que empobrecerá os remediados e levará os pobres à miséria, deixo aqui um texto aparentemente corporativista, sendo que as aparências nem sempre iludem, não sendo menos certo que são insuficientes.

Os aprendizes de economista que parasitam o governo do país têm o hábito de confundir os rendimentos que os professores auferem com despesa, enchendo a boca com a necessidade de reduzir custos. Os referidos aprendizes olham para o professor e perguntam “Quanto custa?” Depois, pressionados pela necessidade de reduzir um défice e incapazes de o fazer pelo lado das PPPs ou da nacionalização dos prejuízos bancários, pegam no salário do professor e cortam, porque é despesa.

Mesmo em tempos de crise, todos conseguimos reconhecer quando um produto está a preço de saldo. Sabemos isso, quando somos capazes de dizer “Isto está muito barato!” Nessa ocasião, sempre que podemos, compramos, aproveitando o facto de que o objecto da compra custa menos do que aquilo que vale.

Diante do professor, o governo não pergunta “Quanto vale um professor?” É natural: se o fizesse, seria obrigado a reconhecer que aquilo que um professor custa corresponde a um valor muito inferior àquele que vale.

Não me peçam para atribuir um preço a um professor, mas reflictam um pouco. O professor é aquele profissional a quem entregamos, durante horas, semanas, meses e anos, os nossos filhos, esse bem inapreciável. Esperamos do professor que se responsabilize por eles, que lhes ensine conhecimentos, que lhes transmita valores de vária ordem, entre muitos outras funções. Cabe aos professores um papel fundamental na criação de cidadãos mais cultos, mais informados, mais preparados para perceber o mundo.

Para que o professor faça isso, exige-se-lhe que estude, que se prepare, que seja dedicado, que se empenhe, que se actualize. Para isso, o professor paga do seu bolso um conjunto de despesas absolutamente necessárias ao exercício da sua profissão, financiando, portanto, o próprio país, pagando, no fundo, para trabalhar: relembre-se, por exemplo, que o professor paga do seu bolso as deslocações para o local de trabalho, para além de muitos materiais, como computadores ou livros.

O professor é, ainda, um profissional altamente especializado, combinando saberes científicos e pedagógicos. O professor faz parte, portanto, de um grupo de cerca de cento e cinquenta mil profissionais que correspondem àqueles que, em Portugal, mais sabem sobre Educação. Seria de esperar que as grandes decisões sobre essa área se baseassem nas recomendações desses especialistas, o que não acontece, dando, até, a impressão de que os ministros da Educação só existem para decidir o contrário de tudo o que os professores recomendem.

Conclui-se, assim, que o professor é, para além de um profissional absolutamente necessário ao desenvolvimento de um país, um accionista do Estado e um consultor ignorado, especialmente nas áreas da sua especialidade. Ou seja, em termos ideais, o valor de um professor é incalculável; o seu custo, todavia, é baixíssimo, ainda mais, tendo em conta o empobrecimento a que tem sido e continuará a ser sujeito. Os professores, caríssimo leitor, estão em saldo, o que pode ser boa coisa na aquisição de um casaco de cabedal, mas poderá ter efeitos perniciosos na aquisição de conhecimentos dos nossos filhos.

A actividade docente está, portanto, sujeita a uma espécie de sabotagem que, reduzindo tudo aos custos, acaba por ignorar quanto vale um professor.

Este texto podia ser sobre outras profissões e actividades? Podia, pois. Que o escreva, então, quem tiver outras profissões e desempenhar outras actividades. Há outros profissionais cuja situação é ainda pior que a dos professores? É claro que sim. Queixem-se, sem fazer queixinhas, e demonstrem que a palavra “corporativismo” não tem de ser necessariamente pejorativa. O país agradece ou devia agradecer.

Comments


  1. Um professor é um idiota que tirou um curso à séria, logo, não é para levar a sério. Um professor é um idiota que não conseguiu mais nenhuma carreira de jeito, logo, não é para levar a sério. Em suma, um professor é um idiota que pouco ou nenhum préstimo tem na sociedade já que quem é verdeiramente esperto não precisa passar pela educação formal que um idiota de um professor presta. Portanto, sim, um professor só dá despesa na sua inutilidade social total.


  2. Há tempos li no “Slate Magazine” um artigo sobre quanto valeria o trabalho duma educadora infantil tendo em conta a diferença média de rendimentos entre americanos adultos que frequentaram em crianças um jardim de infância e os que o não frequentaram. Deu qualquer coisa como 80.000 dólares por ano, o equivalente a 6.000 euros por mês. Claro que nenhuma educadora infantil americana ganha nada que se pareça com isto.
    A mesma metodologia poderia ser usada para saber quanto vale o trabalho de um professor de cada grau de ensino: calculá-lo com base nos rendimentos dos adultos que o tenham frequentado. Seria um cálculo meramente economicista, porque o que aprendemos na escola não serve só para trabalhar e ganhar dinheiro. Mas serviria para uma primeira abordagem.
    O essencial, porém, não é nada disto. Saber inglês e alemão serviu-me para ser professor dessas línguas e ganhar assim um salário. Mas serviu-me também para ler, conversar, viajar. E há coisas que aprendi das quais nunca tirei qualquer rendimento directo mas sem as quais seria muito mais pobre: Literatura, Francês, Latim, História, Filosofia, Física, Química, Matemática, Geografia.
    Quanto vale saber ler? Quanto vale ser capaz de conferir a soma numa factura? Quanto vale ser capaz de usar um mapa ou de compreender um gráfico?
    Nada disto pode ser calculado em dinheiro, e, mesmo que pudesse, não sei quanto ganhavam os meus professores há quarenta, cinquenta anos.
    Mas sei uma coisa com certeza absoluta: o trabalho deles – mesmo dos que já morreram, que são quase todos – ainda hoje continua a produzir valor.

  3. John Silva says:

    ‘quem não sabe fazer, ensina’

Trackbacks


  1. […] patrão. Se somarmos a tudo isto vários elementos intangíveis que servem para aquilatar do valor de um professor, a dívida do país à classe docente é monstruosa (nesta última ligação, aconselho a leitura […]

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